sexta-feira, 20 de abril de 2018

Eu não posso brigar com a cadeia, nem me render; vou ler, estudar e fazer política, diz Dirceu

Ex-ministro revela rotina do cárcere, da faxina com Eduardo Cunha à conversa com PalocciRelated image

Folha Como o senhor se sente hoje, prestes a ser preso de novo?
Dirceu - O país vive uma situação de insegurança e instabilidade jurídica, de violação dos direitos e garantias individuais. O aparato judicial policial se transformou em polícia política.
Como a minha vida é o PT e o projeto que o Lula lidera, eu tenho que me preparar para continuar fazendo política. Eu não posso me render ao fato de que vou ser preso.
O senhor está com 72 anos e foi condenado a 41 anos de prisão. Estamos falando de um regime fechado de sete anos.
É. E eles acabaram com a progressão penal. Você só pode ser beneficiado se reparar o dano que dizem ter causado. E como, se todos os seus bens estão bloqueados? Acabaram com o indulto [para crimes de colarinho branco]. Vamos cumprir a pena toda.
Então o senhor pode entrar agora na cadeia para não sair nunca mais?
É uma hipótese.
E como se sente?
Não muda nada. Preso ou aqui fora, vou fazer tudo o que eu fazia: ler, estudar e fazer política.Eu tenho que cumprir a pena. Eu não posso brigar com a cadeia. O preso que briga com a cadeia cai em depressão, começa a tomar remédio.
Os presos antigos, de forma jocosa mas a sério, quando veem um de nós não aceitando... porque é duro perder a liberdade. Quer dizer, não perde porque não perde a liberdade de criar, de pensar, e também não perde o afeto, o amor. Milhões de pessoas vivem numa condição subumana por causa da pobreza, da exploração. E criam, né? Fazem música, arte, criam os filhos, batalham.
Mas eles [presos antigos] dizem [para quem chega na cadeia]: "Já chorou bastante? Já rezou? Já chamou mamãe? Já leu a Bíblia? Então agora, cidadão, começa a trabalhar! Arruma emprego aqui dentro pra fazer remissão [da pena]. Estuda, viu?
Outra coisa: arruma a tua cela. Transforma aquilo num mocozinho seu, num apartamentinho, põe fotografia da tua filha, põe a bandeira do teu time. Limpa ela direitinho, melhora o que você come. Joga futebol. Porque você vai ficar aqui quatro anos. [Aumentando o tom de voz]. Tá entendendo o que eu tô te falando? Ou você quer ficar igual àqueles lá? [referindo-se a presos deprimidos].
Aquilo ali é três Frontais [remédio para ansiedade] por dia. Olha como ele já tá andando durinho. É o crack em parte que queimou a cabeça dele. Mas o resto é a depressão.
O senhor ouviu esses conselhos quando entrou no sistema penitenciário?
Ouvi. Eu cheguei muito deprimido no CMP [Complexo Médico Penal de Pinhais, em Curitiba]. A minha filha estava denunciada —depois ela foi inocentada—, o meu irmão estava preso.
Eu tomava indutor do sono. Mas logo parei. Fui buscar emprego na biblioteca. Li cem livros no um ano e nove meses em que fiquei lá.
Outros presos vão trabalhar na lavanderia, consertam roupa, outros vão para a censura para ver se os Sedex [enviados pelas famílias] estão dentro da norma, orientados por um agente.
E eu virei, né? Todo sábado e domingo, quando fazíamos almoços coletivos, eu também escrevia as minhas memórias, na cela, à mão.
E como era a convivência com Eduardo Cunha?
Normal. Você está preso. Convive com [condenados pela lei] Maria da Penha, com um pedófilo condenado a cem anos de prisão. Ele é o chefe de um setor. É uma pessoa normal, quieta.
A primeira reação é "não vou falar nunca com ele". Depois de três anos, minha cara, não adianta. Tem que falar.
Lá tá todo mundo na mesma m., entendeu? Há uma solidariedade. "Vamos evitar que o velhinho pegue sarna, vamos limpar a cela dele, vamos levar ele para tomar banho".
Se contamina uma cela, pode contaminar todas as 32 celas da galeria, com sarna, com pulga. Temos que cuidar para que todo mundo ferva a água.
E o Eduardo Cunha?
Ele é muito disciplinado. Dedica uma parte do tempo para ler a Bíblia, frequenta o culto. Conhece a Bíblia profundamente. E em outra parte do tempo se dedica a ler os processos.
É uma convivência normal. Vamos limpar os banheiros? Vamos. Vamos lavar os corrimões? Vamos.
Tem que limpar o xadrez todos os dias, lavar as portas e a galeria, para evitar doenças. Nós ficamos na sexta galeria, [que abriga] os presos da Lava Jato, Maria da Penha, advogados, empresários, alguns condenados por crimes sexuais. São 60 presos, separados dos 700 [do complexo penal].
Falavam de política?
Falávamos. Sempre tem uma hora em que um preso joga xadrez, dominó, o outro toca música, ou está acabando de almoçar, voltando do trabalho. Nessas horas você sempre conversa.
E todo mundo é inocente, né? O cara matou a avó, fritou o gato dela, comeu. Mas ele começa a conversar com você e a reclamar que é inocente.
Ficam mais tempo trancados ou circulando?
Ficamos na tranca quando tem rebelião no sistema porque se tem em uma cadeia pode ter na outra. No dia a dia, levantamos às 6h30. Os carros chegam entregando o café da manhã. São muito barulhentos. Todo mundo acorda. Aí sai da cela. Quem tem que trabalhar vai trabalhar.
Às 11h30, chega o almoço. Tudo lá é simples, mas honesto. A comida é simples —de pensão, de quartel—, mas honesta. A roupa de cama é simples, mas honesta. Às 13h30, alguns presos vão ao médico, outros ao parlatório [falar com os advogados]. Todos podem ir na biblioteca retirar um livro.
Desce no pátio duas horas por dia para jogar futebol e tomar sol. E volta. Desce uma vez por semana para ver a família. E volta. Por três, quatro, dez anos, você passa a maior parte do tempo numa galeria de 120 m por 30 m com várias celas. Essa é a realidade do preso.
E as visitas da família?
Você não pode receber a tua família mal. A gente briga muito com os outros presos: "Tua família não pode te ver assim. Fique melhor. Se arruma. Levante o ânimo. Imagine como vai ficar a tua mãe".
E, se a família chega chorando, o preso volta da visita, deita na cama e cai. É duro ver a família indo embora. É duro. Muitos choram.
O senhor conviveu com Antonio Palocci?
Estive com ele uma só vez, na Polícia Federal. Foi quando ele me disse —ele usou esta expressão: "o Leo [Pinheiro, ex-executivo da OAS] vai salgar o Lula [o empreiteiro revelou à Justiça que pagou a reforma do tríplex do petista]".
E me disse que ele mesmo ia relatar, em depoimento, como era o caixa dois no Brasil. Deu a entender que ia falar do sistema bancário, eu entendi que ia falar da TV Globo. E fiquei apreensivo. Voltei e conversei com o Eduardo [Cunha] e com o [João] Vaccari [ex-tesoureiro do PT que está preso]: "Tô achando que o Palocci vai fazer delação".
Os dois ficaram indignados comigo. Principalmente o Eduardo, que disse: "Eu convivi com ele. Em hipótese nenhuma". Eu deixei para lá.
É verdade que o marqueteiro João Santana contou para o senhor que delataria?
O que fizeram com a Mônica [Moura], mulher dele, foi terror psicológico. Colocaram ela na triagem de Piraquara, uma das piores penitenciárias do Paraná, totalmente dominada pelo crime.
Colocar na triagem significa o seguinte: te colocam numa cela pequena, sem luz, sem nada. Te dão a comida pela bocuda. Sai para tomar banho dez minutos e volta. Em dois dias você faz delação, né?
E isso não é uma tortura psicológica?
Ele falou para mim depois, um pouco como desabafo, angustiado: "Não tenho condição". Preocupado, né? Porque as pessoas têm vergonha de fazer delação.
Eu falei: "João Santana, da minha parte você vai continuar tendo o meu respeito. Essa é uma questão de vocês". Já os empresários têm as razões deles, salvar a empresa, o patrimônio, os empregos.
O senhor também conviveu com o Marcelo Odebrecht.
Ele ficava sozinho numa cela. É afável, educado. Mas tem uma vida muito própria. Faz ginástica oito, dez horas por dia. Então não convive, né? Todo mundo sabia que ele era assim e todo mundo respeitava.
Ele se comportou muito bem. Até poderia ser de maneira diferente, pelo que representava. Mas ali é todo mundo igual. Preso não aceita [comportamento diferente]. Quando você entra no sistema, tem que pôr na cabeça o seguinte: "Eu sou preso. Aqui eu sou igual a todo mundo". Os presos te respeitam se eles veem que você é um deles.
Como vê a perspectiva de Lula ficar preso sozinho? Ele suporta o isolamento?
Como o tratamento é respeitoso e ele recebe advogados todos os dias, e a família uma vez por semana, vai se adaptando.
O pior para ele já aconteceu: a indignidade de ser condenado e preso injustamente. Depois disso, tem que se adaptar às condições e transformar elas em uma arma para você. Esse é o pensamento. Mas eu acho que raramente um ser humano suporta ficar um ano num banheiro e quarto vendo três vezes por dia alguém trazer comida para ele.
Agora surgiu a ideia de o Lula ir para um quartel. Seria pior ainda. Porque eles não querem ninguém lá. A função do quartel não é ser presídio. Ele vai ficar mais isolado.
E ele não consegue?
Eu acho que ele não deve. É uma questão política. Ele deve conviver com outras pessoas, pensar o país, pensar no que está acontecendo. Ele não está proibido de fazer política só porque está preso.
Se o Lula vier para a sexta galeria [unidade do complexo penal em que Dirceu ficou detido], verá que é uma convivência normal. É muito raro ter um incidente. E na prisão você conversa, aprende muita coisa. As pessoas têm muito o que ensinar.
Às vezes você acredita no mito que criam sobre você. Que você é especial, que teve uma vida, no meu caso, que dá até um filme. Mas você começa a conversar com um preso comum, e descobre que é fantástica a vida de cada um lá.
O que o senhor sentiu quando viu Lula sendo preso?
Eu sou muito frio para essas questões, sabe? Acho que ele fez o que tinha que fazer, aquela resistência simbólica foi necessária. E nós ganhamos essa batalha política e midiática.
Mas nada mexeu com o senhor?
Eu fiz da minha vida praticamente o Lula. E me mantive leal a ele. Não faltaram oportunidades, amigos e companheiros que me empurravam para romper com ele, em vários episódios. Mas eu sempre achei que a obra do Lula, a liderança dele, o que ele fez pelo país, compensava qualquer outra coisa. Então eu não dei importância. Depois de uma semana, já não lembrava.
Em 2011, eu estava num barco alugado, pescando, e recebi um telefonema com a informação de que o Lula estava com câncer. Eu chorei. Me deu a sensação de que poderia ser o começo do fim da vida do Lula. Mas agora, como já passei três vezes pela prisão, é diferente.
Você tem que lutar por todos os meios, legais e políticos, para ser solto. Mas sempre tenho a ideia de que, se souber levar a prisão, ela pode se transformar numa melhora para você mesmo. De estudo, de pesquisa, de reflexão.
Em algum momento dessas reflexões na prisão o senhor concluiu que errou e cometeu crimes?
Eu não cometi crimes. Não há nenhuma prova, nenhum empresário ou diretor afirmando que eu pedi alguma coisa na Petrobras. O que eu errei? Na minha relação com [o lobista e delator] Milton Pascowitch. Eu comprei um imóvel, financiei, paguei a entrada.
Ele reformou o imóvel. Eu não paguei. Foi um erro meu. Eu não poderia ter estabelecido essa relação.
Era um empréstimo não declarado. Que virou propina. Foi uma relação indevida. Admito. Mas não criminosa.
O senhor já disse que a militância é solidária mas que vocês cometeram muitos erros.
Eu estava falando de mim. Eu sempre digo: eu tenho apoio da quase absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT, pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento.
Querer ser consultor e ganhar dinheiro foi um erro?
Eu não queria ganhar dinheiro. Eu queria sustentar a minha defesa e a minha vida política. Eu não tenho patrimônio. A casa da minha mãe eu tinha comprado antes, o apartamento do meu irmão foi financiado.
Eu tenho R$ 2.000 na minha conta. É só ver como eu vivo, no apartamento da minha sogra. É só perguntar para o prédio sobre o IPTU. Vai na escola da minha filha perguntar sobre a mensalidade.
Quais foram os erros que o senhor cometeu então?
Eu não deveria ter feito consultoria. Ela cria um campo nebuloso entre os meus interesses como consultor e o interesse público. Eu ficava me lamentando: "Por que eu fui fazer essa coisa [consultoria] com a Engevix [pela qual foi condenado]?"
O Vaccari falava: "Para com isso, Zé Dirceu. Você não foi condenado por isso". Depois fui condenado em outro processo sem ter nada a ver com nada. E o Vaccari falou: "Tá vendo?".
Então eu às vezes fico dividido. E concluo que na verdade eu fui condenado por razões políticas. Eu não fui condenado pelas consultorias que prestei.
Lula fez um governo aprovado por 83% dos brasileiros. Por outro lado, desvios de milhões foram comprovados. O fato de vocês terem financiado campanhas com dinheiro de estatais e caixa dois não seria razão para um arrependimento, uma autocrítica?
Nós temos que denunciar o que fizeram conosco, e não foi por causa de nossos erros. O legado do Lula, o nascente estado de bem-estar social que ele consolidou, está sendo todo desmontado. Estão desfazendo a era Lula como quiseram desfazer a era Getúlio.
Eu faço o balanço histórico: estamos do lado certo e o saldo de tudo o que fizemos é fantástico. Eu vou dizer uma coisa para você: a Igreja Católica Apostólica Romana tem uma história de crimes contra a humanidade.
Não vou nem falar das Cruzadas ou da Inquisição. Se eu for olhar para ela, vou mandar prender todos os padres e bispos porque a pedofilia é generalizada. Ou não é? Mas é a Igreja Católica Apostólica Romana. A vida é assim. O mundo é assim.
O PT cometeu erros? Muitos. Mas tem uma coisa: o lado do PT na história, o nosso lado, é o lado do povo, do Brasil.
Não tinha outro jeito de financiar campanha?
Tem: o autofinanciamento com apoio popular. Mas, nas condições que estávamos enfrentando, era impossível fazermos isso. Porque a dinâmica da vida política, do sistema, é essa. A solução seria financiamento público com lista [partidária]. O PT lutou, o Lula lutou também por isso. Mas ninguém quis fazer.
Alguma vez o senhor imaginou que a história terminaria com o senhor e o Lula presos?
A tentativa de derrubar o nosso governo eu sempre imaginei. Toda vez que no Brasil há um crescimento muito grande das forças políticas sociais, populares, de esquerda, nacionalistas, progressistas, democráticas, isso acontece.
De 1946 a 1964, o Brasil viveu sob expectativas de golpe contra governos trabalhistas, getulistas. O Juscelino [Kubitschek] só tomou posse porque o [marechal Henrique Teixeira] Lott deu o contragolpe.
Só teve a posse do Jango porque [Leonel] Brizola se levantou em armas. Aliás, só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou falando sério.
Mas essa seria uma possibilidade?
A solução hoje é igualzinha à que eles fizeram. Desestabilizaram o governo Dilma. Impediram que ela aprovasse uma pauta de ajustes. Colocaram milhões de pessoas na rua e buscaram uma solução legal. Nós devemos fazer a mesma coisa.
E têm força para isso?
Temos. Pode demorar dois, quatro, seis anos, mas temos. Você não desmonta a estrutura de bem-estar social que o país tem sem consequências. As forças políticas e sociais vão ganhando consciência. Vão surgindo novas lideranças, novos movimentos.
O país vai ter um longo ciclo de lutas. Mas primeiro é ganhar a eleição. No segundo turno, se as esquerdas se unirem, teremos força para isso.
Quem o senhor coloca como esquerda?
Os candidatos do PSOL, do PC do B, o PT, o PDT e o PSB.
O senhor então inclui o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, hoje no PSB?
É um candidato que pode ser cooptado pela direita. Mas pode ser que não. É uma incógnita.
O senhor votaria nele no segundo turno contra contra alguém da direita?
Bem, essa hipótese... vamos esperar. O meu candidato é o Lula. Nós temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e registrá-lo em agosto.
Se não fizermos isso, será um haraquiri politico. Nós dividiremos o PT em quatro ou cinco facções. Nós temos que manter o partido unido. Daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a executiva, os deputados.
Como ele fará uma consulta de dentro da prisão?
Da prisão você consulta quem quiser. Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar.
De dentro da prisão?
É a coisa mais fácil que tem. É só ele falar o que ele pensa.
Mas a gente sabe o trabalho que deu para ele transferir votos em outras eleições. Ele aparecia na TV todos os dias, viajava pelo país.
Sabe qual é a diferença de 2014? É que o lado de lá tem a TV Globo, o aparato judicial militar e o poder econômico. Mas está mais desorganizado e enfraquecido do que nós.
Eu tenho confiança de que o fio da história do Brasil não é o fio das forças da direita. O fio da história do Brasil é o fio que nós representamos.

Ocupação do triplex: pontos para a esquerda na guerra semiótica quinta-feira, por Wilson Roberto Vieira Ferreira.




Finalmente a esquerda marca pontos na atual guerra semiótica no front do campo simbólico da sociedade (grande mídia + opinião pública): a ocupação do indefectível “triplex do Lula” no Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo apresentou todas as características de um petardo semiótico: Detonação, Letalidade, Dilema Midiático e Dissonância Cognitiva. Uma ocupação curta (pouco menos de quatro horas), mas o suficiente para a grande mídia viver um dilema e dar uma guinada gramatical no seu discurso, como se sentisse o golpe. Mas o melhor dessa bomba semiótica foi como a mídia corporativa mordeu a isca (o álibi) para a ocupação revelar o seu verdadeiro propósito: a filmagem no interior da verdadeira caixa preta em que se tornou o imóvel. Revelando a dissonância entra as narrativas jurídico-midiática e da oposição. Uma ação simbólica bem-sucedida que revela outras questões. Entre elas, a possível criação de um grupo de inteligência semiótica para multiplicar essa ação prototípica.
Este Cinegnose afirma que a rendição de Lula foi um erro, seja político ou semiótico. No mínimo, por vender aquilo que o juiz Sérgio Moro e a PF mais queriam, por um custo simbólico muito baixo. E pior, com as imagens da condução do prisioneiro faturadas em pleno horário nobre televisivo, com direito a um posterior “vazamento” de áudio do próprio apresentador que deu a notícia da prisão de Lula – o suposto vazamento do jornalista global “bonzinho”, emocionado e cheio de culpa – clique aqui.

Avaliação corroborada pelas próprias hostes da militância como a do senador Lindbergh Farias ou dos relatos do advogado Samuel Gomes sobre os lamentos e críticas à decisão de Lula ter se entregado. Desaprovações sentidas no próprio acampamento em Curitiba em frente a PF – clique aqui.

Por isso, ocupação do famoso “triplex do Lula” no Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo, por quatro horas, na manhã de segunda-feira demonstrou duas coisas:

(a) Uma clivagem entre a militância e o chamado “petismo jurídico” formado pelo ex-ministro da Justiça Thomaz Bastos, Tarso Genro e José Eduardo Cardoso – este, que participou das negociações com a PF para a prisão de Lula. Um crônico descompasso entre a predisposição da militância em buscar alternativas de ação política e o republicanismo jurídico do partido que embarcou na “cruzada anticorrupção” na qual os governos Lula-Dilma levariam o troféu “do país que mais combate a corrupção”.

Sem perceberem que, enquanto jovens juízes eram catapultados para cursos e bolsas nos EUA nos quais o combate ao terror se confundia com repressão a lavagem de dinheiro e corrupção, os EUA construíam sua hegemonia planejando a atual ação da guerra híbrida nas diversas “primaveras” ao longo do planeta. E hoje, a prisão de Lula se converteu no maior troféu.

(b) Uma potente e certeira bomba semiótica que lembrou a técnica ativista do empate, muito usada por ativistas seringueiros como o falecido Chico Mendes. Tática intermediária entre o pacifismo e o belicismo para criar um impasse institucional.


Estratégia que reverteria em altos ganhos simbólico na resistência de Lula no sindicato de São Bernardo, com as ruas ao redor repletas de manifestantes. Uma ação de força repressiva e invasão resultaria em severo prejuízo simbólico na midiosfera nacional e internacional: a guerra híbrida revelaria seu lado sujo, violento, bem longe das assépticas togas e data vênias que dominam a narrativa da grande mídia.

Características de uma bomba semiótica


Até aqui as ações políticas de ataque simbólico foram solitárias, curtas e reticentes. Como a do então prefeito de São Paulo Fernando Haddad: sem mais paciência para aguentar os escândalos que o historiador Marco Antônio Villa arrancava na leitura diária da agenda de Fernando Haddad, o prefeito de São Paulo aprontou uma “pegadinha” - disponibilizou uma agenda trocada (na verdade, a do governador Geraldo Alckmin), cheia de espaços em branco. “Está em branco! Em Branco! É a incapacidade de alguém pouco afeito ao trabalho!”, gritou o historiador no microfone da Rádio Jovem Pan. Certamente, enquanto o prefeito se rachava de rir.

Mas a rápida ocupação do famigerado triplex por ativistas abriu uma expectativa de que finalmente as lutas políticas da esquerda também sejam travadas no campo simbólico da sociedade – opinião pública + midiosfera. Não mais restrita a uma galhofa solitária, mas agora uma ação coletiva organizada.

A iniciativa do MTST e Frente Povo Sem Medo teve todas as características de uma bomba semiótica:

(a) Criou um acontecimento comunicacional: um evento-surpresa com logística rápida e contundente. Uma “blitzkrieg semiótica”;

(b) A mídia corporativa sentiu o impacto. Pegou a grande mídia de surpresa que, também rapidamente, avaliou o potencial impasse institucional que a ocupação criaria se fosse prolongada. Principalmente pelo leitmotiv da invasão ao triplex: “Se o triplex é dele [do Lula], ele já disse mais de uma vez que o povo poderia entrar lá e ocupar. Estamos autorizados pelo proprietário. Pela primeira vez o MTST faz uma ocupação consentida pelo proprietário. Se o triplex não é dele, o juiz Sérgio Moro vai ter que vir se explicar por que prenderam o Lula por um apartamento que não é dele", disse Guilherme Boulos.

(c) Dessa maneira, ficou evidente o principal indício de como a grande mídia acusou o golpe, como apontou a análise linguística das manchetes realizada pela “Madrasta do Texto Ruim” no Jornal GGN: os jornais abandonaram o genitivo (caso gramatical que indica relação principalmente de posse) pelo locativo ou advérbio: “MTST ocupa triplex no Guarujá”; “MTST invade tríplex supostamente atribuído a Lula”; “MTST invade Triplex no Guarujá que levou Lula à prisão” etc. Desapareceram expressões como “Triplex do Lula” ou conectores como “Lula e o Triplex”. Afinal, se o caso se arrastasse, quem pediria a reintegração de posse do imóvel: Lula? Moro? OAS? Caixa? – clique aqui.

(d) Simplesmente a mídia corporativa não podia ignorar ou fazer vistas grossas em relação ao que acontecia no Guarujá. Afinal, uma das lideranças da ocupação era um presidenciável. Jamais a belicosa mídia poderia perder a oportunidade de demonizar um candidato de esquerda. E tentativas de demonização não faltaram, como divulgar uma foto de um morador do condomínio. Foto icônica pela óbvia alusão pela sua gestalt a famosa sequência de perseguição do filme O Iluminado – veja o comparativo abaixo. Mas... morderam a isca e deram visibilidade ao empate institucional.


(e) Mas o melhor estava por vir. Depois de quatro horas ocupando o midiático imóvel do balneário paulista, os manifestantes foram retirados sob a ameaça de prisão comum por flagrante, sem a necessidade jurídica de reintegração. Mas o objetivo principal foi alcançado. Aquilo que nenhum jornalista investigativo da mídia corporativa (ávida em promover congressos acadêmicos sobre o assunto e apoiar agências de checagem de notícias, “fact-checking”) ousou em fazer: filmar o interior do famoso tríplex para ver, em loco, os supostos R$ 1,2 milhões investidos em reforma pela OAS para presentear Lula.

(f) Nesse momento, o vídeo do interior do tríplex roda o mundo, criando uma dissonância entre a narrativa que condenou Lula (um apartamento avaliado em dois milhões de reais por Moro) e as imagens: uma piscina pré-fabricada que mais parece uma banheira, péssimo acabamento, minúsculas suítes com armários em MDF, apertadas e perigosas escadas em caracol de concreto – provavelmente também pré-fabricadas. Nada que demonstre luxo ou, no mínimo, os milhões supostamente gastos pela OAS com a reforma.


Hoje, o tríplex está em leilão público promovido pela justiça. E está encalhado! Nenhuma das mais de 22 mil pessoas que visitaram a página do canal de lances judiciais fez uma proposta: está à venda por R$ 2,2 milhões – valor jogado para cima para legitimar a sentença de Moro. Mas pelo vídeo, o valor real nem deve chegar a R$ 800 mil...

Em síntese, a ocupação do triplex foi uma perfeita bomba semiótica porque:

1- Detonação (impacto, repercussão, viralização); 
2- Letalidade (grande mídia acusou o golpe); 
3-Dilema midiático (marketing de guerrilha – mídia não pode deixar de dar visibilidade ao evento. Boulos foi a isca); 
4- Dissonância cognitiva (o vídeo do interior do triplex como produto final).

Uma ação tão bem-sucedida em todos aspectos (político, midiático e semiótico) que deveria inspirar as lideranças a criar uma espécie de Grupo de Inteligência Semiótica (GIS) com a finalidade de explorar novas oportunidades de empates, criação de impasses institucionais, trolagens e pegadinhas para ridicularizar a mídia corporativa. E mais vezes sentir golpes como esse da ação no Guarujá

Datafolha com Lula preso: o que a pesquisa projeta para a eleição, por José Roberto Castro.

16 Abr 2018
(atualizado 17/Abr 18h51)

Ex-presidente segue na liderança. Seu provável impedimento abre disputa por votos de centro-esquerda. Percentual de eleitores sem candidato é recorde

Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
Apoiadores de Lula protestam em Curitiba, onde o ex-presidente está preso
 
O jornal Folha de S.Paulo divulgou em sua edição de domingo (15) o resultado da primeira pesquisa do instituto Datafolha após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrida uma semana antes, em razão do cumprimento da pena da condenação por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex em Guarujá.
Além de ser o primeiro levantamento com Lula preso, foi também o primeiro depois de 7 de abril, data-chave da eleição, a partir de quando quem não estiver filiado a um partido não pode mais concorrer. Além disso, é quando governadores, prefeitos e ministros que querem disputar a eleição têm de deixar seus cargos no Executivo.
O fim do prazo para a filiação ou para a renúncia aos cargos produziu o seguinte: o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se filiou a um partido; Luciano Huck, não; Geraldo Alckmin, governador paulista, e Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, deixaram seus cargos de olho no Palácio do Planalto.
As entrevistas do Datafolha foram realizadas entre quarta-feira (11) e sexta-feira (13), com 4.194 eleitores em 227 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O resultado dos cenários apresentados mostra que Lula terá papel central na disputa, sendo candidato ou não, estando ou não preso.

O papel de Lula é central

Lula lidera todos os três cenários com seu nome. A pontuação varia entre 30% e 31% das intenções de voto, independemente de quem venha a ser o candidato oficial do governo, se o atual presidente Michel Temer ou se o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.
A intenção de votos no petista é o dobro da registrada pelo segundo colocado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que tem 15% no cenário principal.

Liderança

 
Os cerca de 30%, no entanto, são menores do que Lula obteve na pesquisa anterior. No final de janeiro, depois de ser condenado em segunda instância judicial no caso tríplex, o petista aparecia com cerca de 37%. Os dois números, porém, não são estatisticamente comparáveis porque os cenários simulados são diferentes, segundo o Datafolha.
A pesquisa mostra ainda que dois de cada três eleitores de Lula dizem que certamente votariam em um candidato indicado por ele. Isso significa que, de seus 31%, Lula teoricamente conseguiria entregar uma intenção de voto de cerca de 20% a alguém que venha apoiar publicamente. Essa votação seria suficiente para dar a qualquer candidato a liderança nos cenários sem Lula.

O que esperar a partir de agora

Lula venceria também em todas as simulações de segundo turno, mas é improvável que ele chegue lá. Isso porque o petista foi condenado em segunda instância em uma decisão colegiada - dada por mais de um magistrado -, e assim deve ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa.
Por enquanto, o PT mantém o discurso de que não pensa em uma alternativa, ou seja, Lula é o candidato. O registro das candidaturas deve ser feito até o dia 15 de agosto. A partir desse momento, o Tribunal Superior Eleitoral pode analisar a situação do petista. Lula será impugnado e julgado na Justiça Eleitoral.
Se Lula for cassado até 20 dias do primeiro turno, marcado para 7 de outubro, o PT poderá apresentar outro nome. Depois disso, o partido fica sem candidato ao Palácio do Planalto.
Na teoria, ele pode disputar a eleição mesmo preso, assim como pode obter liminares judiciais capazes de mantê-lo na corrida presidencial mesmo após ser impugnado. Mas esse cenário é improvável.

Sem Lula

Sem Lula nos cenários, o pré-candidato mais bem colocado é Jair Bolsonaro, deputado federal (PSL-RJ) com discurso de extrema-direta. O número de pessoas dispostas a não votar em ninguém cresce de forma significativa.

Os votos nulos e brancos estão altos

O Brasil vive uma crise de representatividade agravada pela Operação Lava Jato, que a partir de março de 2014 passou a escancarar grandes esquemas de corrupção que acabaram por atingir as principais figuras da República, além de praticamente todos os grandes partidos.
Nessa perspectiva, Lula é o único pré-candidato que mantém um alto índice de intenção de voto. Quando ele deixa a pesquisa, nos outros cenários aplicados, nem Fernando Haddad nem Jaques Wagner, candidatos alternativos do PT, ultrapassam 2%.
Um terço dos eleitores de Lula declararam, inclusive, que preferem votar em branco ou anular o voto caso o ex-presidente não consiga se candidatar. Com isso, cria-se uma legião de eleitores que não têm candidato.
Segundo o Datafolha, faltando seis meses para a eleição, o número de eleitores que não têm candidato é o maior da história.

Número inédito

 

O que esperar a partir de agora

Com mais de um quarto do eleitorado se declarando sem candidato no cenário sem Lula, começa a disputa pelos indecisos. Os candidatos identificados à centro-esquerda, como Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), aparecem entre os favoritos na disputa pelos votos dos eleitores órfãos do ex-presidente.
É importante lembrar que dois terços dos eleitores do líder petista afirmam que votariam com certeza em um nome indicado por ele. Apesar de Jaques Wagner e Fernando Haddad serem cotados como plano B do PT, uma indicação formal de Lula ainda não aconteceu.

Joaquim Barbosa é o ‘outsider’ viável até aqui

Até a data limite para a filiação, em 7 de abril, uma candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República era apenas uma especulação. No fim do prazo, sem estardalhaço, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal se filiou ao PSB mesmo sem ter a garantia de que seria candidato.
Sem nunca ter disputado uma eleição e sem qualquer atuação política, Joaquim Barbosa aparece com 8% das intenções de voto no cenário com Lula, e 9% na simulação sem o ex-presidente. O resultado acontece mesmo sem ele ter oficializado a pré-candidatura.
Barbosa foi o primeiro ministro negro da história do Supremo, indicado por Lula em 2003. Ele ganhou notoriedade, porém, quando foi escolhido relator do processo do mensalão e ajudou na condenação de alguns dos principais assessores do ex-presidente. Barbosa decidiu deixar o Supremo por conta própria em 2014 e, desde então, trabalha como advogado.
O resultado da primeira pesquisa feita depois de filiação animou seus novos companheiros de partido. O líder do PSB na Câmara, Júlio Delgado (MG), vê a candidatura do ex-ministro como irreversível depois da pesquisa. O presidente da legenda, Carlos Siqueira, acha que o novo filiado tem um potencial ainda maior do que o apresentado na pesquisa. Joaquim Barbosa aparece numericamente à frente, por exemplo, de pré-candidatos que estão em ritmo de campanha como Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT).

O que esperar a partir de agora

Apesar da animação dos líderes do PSB, a pré-candidatura de Joaquim Barbosa ainda não está oficializada. Poucos dias antes da divulgação da pesquisa, Carlos Siqueira dizia que faltava “uma eternidade” até a confirmação da candidatura do ex-ministro. Oficialmente, os partidos têm até 15 de agosto para fazer o registro.
O PSB pode optar ainda por formar uma chapa com algum outro candidato. O governador de São Paulo, Márcio França, sugeriu que o novo companheiro de partido forme uma dupla com Geraldo Alckmin. Outra possibilidade seria uma aliança com Marina Silva, que foi candidata do PSB à Presidência em 2014, antes de fundar o próprio partido, a Rede.
As alianças são importantes não apenas pela soma de forças políticas, mas também pela soma de tempo de propaganda de TV dos partidos aliados.

Marina e Ciro crescem numa eleição sem Lula

A ausência de Lula aumenta o número de brancos e nulos a um patamar inédito na história, mas parte dos votos do ex-presidente migra para candidatos de centro-esquerda: principalmente Marina Silva e Ciro Gomes.
Marina tem origem no PT. Foi filiada ao partido por décadas e foi ministra do Meio Ambiente de Lula. Ciro, com a oposição que fez ao impeachment de Dilma Rousseff e ao governo de Michel Temer, se aproximou do eleitorado de esquerda. Ele também foi ministro de Lula, ao ocupar a pasta da Integração Nacional a partir de 2003.
Os dois pré-candidatos já disputaram eleições presidenciais, são conhecidos de boa parcela do eleitorado e são os maiores beneficiados diretamente pela ausência de Lula, segundo a pesquisa.

Maiores beneficiados

 

O que esperar a partir de agora

A disputa pelo eleitor de esquerda vai depender de até quando o PT vai conseguir manter a candidatura de Lula e, principalmente, da capacidade de transferência de votos do ex-presidente preso.
O Datafolha mostra que nenhum dos candidatos alternativos do PT tem atualmente um eleitorado significativo. Mas parte da explicação pode estar no fato de que Lula não fez qualquer movimento para indicar um sucessor.

A centro-direita patina nas pesquisas

Com ou sem Lula no páreo, o resultado da mais recente pesquisa Datafolha foi ruim para os candidatos identificados com a agenda de reformas do atual governo Michel Temer. Seja com o próprio presidente ou com seu antigo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a candidatura governista varia apenas entre 1% e 2% das intenções de voto.
Outros defensores das reformas de Temer também aparecem mal na pesquisa. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fica sempre em 1% das intenções de voto. O ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro (PSC) também tem entre 0% e 1%.
O tucano Geraldo Alckmin, que governou por 13 anos o estado mais rico do país e já foi candidato à Presidência em 2006, tem entre 6% e 8% das intenções de voto.
O PSDB ajudou na ascensão de Temer durante o impeachment de Dilma, apoiou suas reformas, mas tenta se afastar de um governo impopular, apesar de ainda ter nomes no primeiro escalão do Executivo federal, como o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.
Nenhum dos candidatos da direita ou centro-direta, no momento, se aproxima de Jair Bolsonaro (PSL). O deputado de extrema-direita tem entre 15% e 17% em todos os cenários testados.

O que esperar a partir de agora

Com resultados ruins nas pesquisas de intenção de voto, não se sabe quantas nem quais candidaturas governistas vão conseguir se viabilizar. O MDB de Temer e Meirelles não tem voto, no momento, mas como uma das maiores bancadas do Congresso pode emprestar seu tempo de televisão a um aliado.
O mesmo vale para o DEM, de Rodrigo Maia. O partido diz oficialmente que quer lançar uma candidatura, mas apoiou todos os candidatos do PSDB desde 1994.
Alckmin aparece como provável beneficiário de uma união da centro-direita. Ele seria o cabeça-de-chapa em caso de uma aliança mais ampla. Depois, surge um outro desafio: os votos do PSDB são, atualmente, divididos com Bolsonaro, em especial no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil e principal reduto eleitoral dos tucanos.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Quatro hipóteses sobre uma disputa não encerrada, por Antonio Martins

on 08/04/2018Categorias: Brasil, Destaques, Políticas

Preso político do regime pós-2016, Lula não poderá disputar as eleições. Seu encarceramento busca, sobretudo, consolidar a agenda de retrocessos. Mas o triunfo dos conservadores não se consumou
Textos e vídeos da Redação de Outras Palavras*

1.
O gargalhar das hienas

Condenação de Lula expressa, ao mesmo tempo, força e fracasso. Bloco pró-golpe mantém-se coeso e tem poder – mas precisa de um espetáculo para tentar ocultar ruína de seu projeto
Como tudo muda, em tempos de crise civilizatória e de impasse nos projetos de esquerda. No final da II Guerra, em meio a um mundo devastado e à “ameaça” da União Soviética, as elites ocidentais promoveram um movimento notável de entrega dos anéis para poupar os dedos. Firmaram-se novos pactos sociais. Os salários cresceram, houve pleno emprego, surgiram o Estado de Bem-Estar Social, as redes igualitárias de Saúde e Educação. Abriu-se espaço para grandes processos de urbanização e industrialização da própria periferia – como no Brasil. Setenta anos depois, tudo mudou – e a condenação infame de Lula precisa ser enxergada nesta perspectiva mais ampla.

Porque o enorme retrocesso brasileiro, este ataque incessante aos direitos, esta ameaça concreta de fascistização, é parte de um processo global. Ao contrário do pós-guerra, o sistema respondeu à crise do 2008 aprofundando suas características mais antidemocráticas e retrógradas. Golpes de Estado ou eleições frandadas, como no Brasil, Egito, Honduras, Paraguai. Morte de milhares pelas milícias, como nas Filipinas. Militarização, como no México e agora no Rio de Janeiro. Destruição dos Estados nacionais, como no Iraque, Líbia, Yêmen, Síria. Regressão dos direitos sociais, como em toda a Europa. E algo comum, em todos os casos: a política é substituída pelo espetáculo. Não há mais democracia real alguma; tirou-se das sociedades o direito de decidir sobre seu futuro. Por isso, é preciso deleitá-las com sensações.
A prisão de Lula não visa apenas afastá-lo da disputa à Presidência – o que poderia ser feito muito mais facilmente por meio da Justiça Eleitoral. Ela pretende, além disso, impor uma nova narrativa, nos meses decisivos que nos separam de outubro. Além da “guerra ao crime”, supostamente disparada na intervenção militar no Rio de Janeiro, estaríamos vivendo agora uma “guerra à impunidade”. Foi este o teor do voto proferido, de olho nas câmeras, pelo ministro Luís Barroso, na sessão do STF na última quarta-feira. É esta a fala martelada, incessantemente, nas mensagens dos comentaristas da TV, dos “especialistas” jurídicos, dos editoriais.
Há, porém, uma fragilidade dupla neste script. Primeira: a realidade que ele busca esconder manifesta-se todos os dias, diante de milhões de brasileiros. O discurso essencial do golpe de 2016 fracassou. Garantia-se que o afastamento da esquerda devolveria ao país à prosperidade e a ordem. Produziu-se, ao contrário, desemprego, legiões dormindo nas rua, perda de direitos, desmonte dos serviços públicos, venda do país, aumento nítido da insegurança e da violência.
Segunda: o golpe, obviamente, não foi uma decisão técnica, mas um pacto político entre os conservadores. Por isso o próprio discurso do “combate à impunidade” é um farrapo, um guarda-chuva esburacado incapaz de esconder o caráter partidário das decisões judiciais. A procuradora-geral, que pediu a prisão imediata de Lula, é a mesma Raquel Dodge que comandou o arquivamento de inquéritos contra José Serra, está livrando Alckmin das denúncias da Camargo Corrêa e mandou soltar em tempo recorde os aliados de Michel Temer envolvidos com corrupção bilionária no Porto de Santos. De Sérgio Moro, são notórias as relações com Aécio Neves. De Carmem Lúcia, os encontros fora da agenda com o presidente.
Certos analistas de esquerda precipitam-se em dizer que não haverá eleições em outubro. Curiosamente, difundir esta crença – ou ao menos criar incertezas desmobilizadoras – é o objetivo essencial dos que promoveram o golpe; que o radicalizaram, a partir da intervenção militar no Rio; e que gargalham como hienas diante da condenação de Lula. Porque cancelar as eleições seria, no cenário atual, a única forma de superar as duas enormes debilidades do projeto ultra-conservador em curso no Brasil. É o que veremos no próximo capítulo.

2.
Ainda estão rolando os dados

Prisão-espetáculo busca blindar agenda de ataques aos direitos sociais e ao país. Mas enorme impopularidade dos golpistas mostra que há espaço para garantir as eleições e lutar
Três fatos destacados marcaram uma mudança profunda no cenário nacional nos últimos quatro meses. Não há provas – mas pode-se ter forte convicção – de que os responsáveis por eles agiram articulados entre si. Juntos, estes acontecimentos tiraram o governo Temer da insignificância a que estava relegando, restituindo ao presidente a iniciativa política. Também interromperam, pelo menos temporariamente, o forte movimento que se formava em favor da revogação das políticas adotadas após o golpe de 2016. Por fim, transformaram as eleições nacionais de outubro – cujo prognóstico era uma ampla vitória de Lula – numa loteria cujo resultado é hoje imprevisível.
Eis os três fatos. Em 13 de dezembro do ano passado, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região marcou o julgamento do recurso de Lula, contra a condenação por Sérgio Moro, para 24 de janeiro último – quando todos previam que ocorresse no meio do ano. Foi uma decisão arbitrária, que quebrou todos os recordes anteriores de celeridade do tribunal e significou interferência dos desembargadores do TRF-4 na fila cronológica de análise dos processos. Julgado seis semanas depois, Lula teve sua pena aumentada. Os desembargadores certamente combinaram previamente a sentença. Ao fixarem-na, todos, em exatos 12 anos e um mês, tornaram ainda mais sumário o julgamento, cerceando o direito da defesa a recorrer por meio dos chamados “embargos infringentes”. O efeito na agenda nacional foi imediato. O debate político sobre o sentido das políticas do golpe, que crescia, foi substituído pelas expectativas em relação ao futuro de Lula.
Em 16 de fevereiro, veio o segundo grande fato. Ainda com popularidade próxima de zero, ridicularizado em centenas de blocos de Carnaval pelo país e no sambódromo do Rio de Janeiro, Temer decretou intervenção federal-militar naquele Estado. Foi mais um raio despolitizador. Nas semanas seguintes, e até hoje, a segurança pública avançou para o centro das preocupações nacionais. Foram fundamentais para isso o massacre midiático e, em grau menor, à resistência histórica da esquerda a refletir e produzir propostas sobre o tema.
Enfim, em 21 de março, o ato final. Pressionada por seus própios pares por reter, durante meses, o julgamento da possibilidade de prender pessoas que ainda têm direito de recurso à Justiça, a presidente do STF, Carmen Lúcia, colocou o tema em pauta de forma capciosa. Não aceitou discutir o mérito da questão (que diz respeito a uma garantia constitucional de todos). Agendou o debate o pedido de habeas corpus de Lula (para que fosse apresentado como a defesa de um privilégio para os poderosos). Duas semanas depois, fato consumado: pedido negado, carta branca a Sérgio Moro para decretar a prisão. Mais espaço para que a TV e os jornais afastem o debate do que importa nas eleições e foquem nas acusações contra Lula.
Foram três vitórias dos conservadores, em quatro meses. O cenário mudou. E no entanto, ainda estão rolando os dados: nada indica que consolidação da agenda de retrocessos seja definitiva. Há uma razão básica para isso. Temer e o bloco estratégico que promoveu o golpe – grandes empresários, máfias parlamentares e mídia – retomaram a iniciativa, mas continuam tão impopulares quanto antes. Nenhum de seus candidatos prioritários à Presidência (Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia) conseguiu chegar a 10%. Pesquisas do Datafolha mostram que a população segue contrária às privatizações e às contra-reformas da Previdência e Trabalhista.
A tentativa de despolitizar as eleições, de submetê-las aos espetáculos da intervenção no Rio de Janeiro e do “combate à impunidade” segue um scritp global. Nas democracias de fachada, ninguém debate ideias, apenas produtos. Mas o Brasil se renderá a esta lógica? Por que, então, em todas as pesquisas, Lula mantém folgada dianteira (ainda que perseguido), Ciro Gomes aparece como uma alternativa poderosa, Guilherme Boulos e Manuela Dávila têm chances de crescer? Tudo indica que não estamos condenados a Bolsonaro, nem ao cancelamento do pleito. Mas por que caminhos retomar a ofensiva contra a agenda de retrocessos? É sobre isso que especularemos, na terceira parte desta análise

3.
Procura-se o anti-Temer

Com Lula afastado da disputa eleitoral, surge um imenso vácuo. Para ocupá-lo, será preciso denunciar radicalmente a agenda de 2016 e propor sua revogação. Quem se atreverá?
A grande praga das democracias de fachada que marcam o século XXI é o apagamento das diferenças. Em quase nenhum caso há disputa de projetos. Amparados pela mídia, os partidos de centro e direita sugerem agendas cada vez conservadoras e submissas aos mercados. Por temer o confronto, a velha esquerda iguala-se. Quem cresce são os outsiders de extrema-direita: Trump, o Brexit, Marine Le Pen, o filipino Rodrigo Duterte, a Alternativa para a Alemanha e tantos outros.
Há exceções – poucas porém notáveis. Na Espanha, em poucos anos, o partido-movimento Podemos desafiou o sistema político (a “casta”) e, ainda assim, obteve mais de 20% do apoio popular. No Chile, o mesmo ocorreu com a Frente Ampla. Por enquanto, o exemplo mais notável é o de Jeremy Corbyn, na Grã-Bretanha. Lançando-se desde uma posição marginal no acomodado Partido Trabalhista, aproveitou brechas democráticas na estrutura da organização, empolgou sua militância, aproximou-se da juventude e se tornou um fenômeno. Enfrenta a mídia de mercado, defendendo ideias hostilizadas por ela (os serviços públicos de excelência, mais impostos para os ricos, a reversão das privatizações). É provável que se converta no próximo primeiro-ministro do país. Algo semelhante seria possível no Brasil?
Há muitos sinais de que, com ou sem Lula, a resposta é sim. Nos dois anos em que pôde apresentar e defender sua candidatura – de março de 2016, quando foi coagido a depor e saiu-se com o discurso da jararaca viva, até agora –, o ex-presidente figurou como um fenômeno. A mídia o demonizou sem tréguas. Cada delação premiada de seus detratores, cada pronunciamento do juiz Sérgio Moro, convertia-se num factóide político, trombetado em múltiplos minutos nos jornais televisivos. Mas ao invés de despencar, como o pensamento tradicional esperaria, o apoio a Lula cresceu incessantemente. Chegou a 37%, nas últimas pesquisas de intenção de voto. Caso não fosse perseguido, tudo indica que se elegeria com folgas, talvez já no primeiro turno.
A força de Lula reside na empatia, na inteligência, em sua trajetória de resgate das maiorias, em seu carisma de plebeu capaz de sensibilizar os seus iguais. Algumas destas características são irreprodutíveis. Mas há um núcleo que transcende o indivíduo. Ele é composto pelo resgate do país e dos direitos.
O ex-presidente nunca quis transformar estas ideias em programa. Seu estilo, para o bem e para o mal, é sua personalidade. Porém agora, sabido que Lula não poderá se candidatar, será preciso procurar, para as mesmas propostas, outros caminhos – ligados menos a carismas, e mais a propostas.
Apresentar o anti-Temer – e principalmente o pós-Temer – parece um caminho politicamente mobilizador e eleitoralmente viável. Os índices ridículos de popularidade do presidente (4,8%) indicam algo. O país está farto de corte de direitos, das decisões sem consulta alguma à sociedade, do governo apoiado nas máfias parlamentares, da venda do patrimônio nacional, da humilhação.
Como construir, sem Lula, o contraponto a tudo isso – que ele representava pela própria evocação de seu governo e de sua trajetória pessoal? Será preciso furar o bloqueio da mídia, que fará tudo para demonizar propostas heterodoxas. Mas há uma trilha clara: ir muito além das “reformas fracas” que, segundo André Singer, o lulismo expressou. Compreender, como Jeremy Corbyn, que em tempos de ataque aos direitos sociais e de anulação da política, é preciso dizer não resolutamente; assumir a revolta popular conta a política sequestrada; politizar este movimento.
Passar da resistência às alternativas. Que Reforma Tributária, para manter e ampliar os direitos previdenciários, o SUS, uma Educação Pública de excelência? Que Reforma Política, para estabelecer mecanismos de democracia direta e participativa. Quais políticas para a Reforma Urbana, as cidades para todos, uma Segurança Pública cidadã, um novo modelo agrícola, uma política energética que valorize as fontes limpas que o país tem em abundância, o combate ao racismo e ao patriarcalismo?
Na construção de um novo projeto de transformações, há um mundo a desbravar – e ele vai muito além das eleições. Mas para construí-lo, talvez, seja necessária uma nova esquerda. É o que veremos na parte final de nossa análise.

4.
Parem de falar em “apatia popular”

Depois dos atos gigantescos por Marielle Franco, resistência à prisão de Lula volta a demonstrar que há multidões dispostas a agir. O que falta é quem ocupe o papel que os partidos abandonaram
O impasse dos projetos de emancipação que marcaram os séculos XIX e XX é um drama central de nossa época. Diante da miséria social e ambiental provoca pelo capitalismo, há intensa revolta. Mas faltam novos projetos, formas de organização e ação. Surte uma questão. As respostas do sistema à crise são cada vez mais destrutivas. Pense, por exemplo, na invasão das comunidades do Rio de Janeiro pelo exército, ou no desmonte dos sistemas públicos de Saúde e Educação, na Europa. No entanto, como não há uma alternativa real, as chances da própria reistências diminuem. Exaustas, as sociedades, enfim, submetem-se.
No Brasil, disseminou-se recentemente uma explicação oportinista para tal problema. Estaríamos vivendo uma “apatia social”. Confrontadas em seus direitos, as maiorias, por alguma razão nunca explicada, teriam deixado de lutar. Segundo esta hipótese, o fenômeno teria deixado a esquerda institucional sem opções.
Talvez valha a pena examinar uma hipótese oposta a esta. É mesmo possível falar em passividade? Isso não significa deconhecer, por exemplo, as lutas dos secundaristas, dos sem-teto, dos vários feminismos (inclusive o das mulheres periféricas e negras?). E se o problema estiver no polo oposto da equação? E se a explicação para a “falta de respostas” diante da ofensiva neoliberal estiver não no cansão das multidões, mas na demissão de suas supostas lideranças?
Considere dois fenômenos recentes. Embora tenha resultado em mobilização menos numerosa, a prisão infame de Lula gerou comoção nacional e internacional. Semanas antes, a execução de Marielle Franco levou centenas de milhares às ruas. É evidentemente impossível falar em “passividade”, diante de tais fatos.
Mas o que se propôs a estas multidões? Que tipo de ação autônoma ela puderam executar na sequência, de forma articulada? Nem os partidos de esquerda, nem as frentes Brasil Popular e Povo em Medo, ousaram oferecer uma resposta. A energia levada às ruas dispersou-se.
Sim: a emergência, entre outras, da consciência negra mobilizadora, dos novos feminismos, das lutas secundaristas – que também evidenciam o protagonismo das meninas – representa alvo muito novo e promissor: o ponto de partida principal. Mas como dar-lhe universalidade? Em outras palavras, como propor a uma secundarista em luta caminhos para transformar não apenas seu ambiente escolar, mas o mundo que levou à devastação do ensino público, em especial após a Emenda Constitucional 95?
A resposta não é fácil, e não está pronta – nem no Brasil, nem em lugar algum. Há muitas dúvidas. Ainda são possíveis os grandes projetos que enxergam o mundo em sua totalidade? Se não eles, o quê? A mera multiplicação dispersa das lutas particulares? Mas como, se as forças desumanizantes parecem cada vez mais poderosas, articuladas e implacáveis?
Estamos em busca de respostas. Para encontrá-las, será preciso generosidade, diálogo, desapego político. Algo, porém, parece claro: chega de falar em “apatia social”. Trata-se de uma resposta fácil e pobre. Transfere responsabilidades, mascara problemas, aplaca artificialmente certa angústia. Não conduz a nada. Quem quer de fato mudar o país e o mundo precisa assumir sua própria responsabilidade de enxergar o novo e encontrar as respostas que ainda não temos – em vez de sair à caça de respostas fáceis.

* Esta série de textos e vídeos reflete um debate interno, do qual participaram André Takahashi (Outras Palavras), Antonio Martins (OP), Cauê Ameni (Autonomia Literária), Gabriela Leite (OP), Juliano Vieira (Brasil de Fato), Lívia Ascava (Matrioshka) e Michelle Coelho (Rizoma Livros). Texto final: Antonio Martins | Vídeos: Gabriela Leite

Por que as elites apelam ao golpe Por Róber Iturriet Avila e João Santos Conceição.

on 05/04/2018Categorias: Brasil, Destaques
Em 13 de Março de 1964, João Goulart fala no Comício da Central e defende as Reformas de Base. Dezoito dias depois, estaria deposto
Num país dividido em Casa Grande e Senzala, poucos governos ousaram elevar salários e cobrar impostos dos ricos. Nenhum deles permaneceu de pé
Por Róber Iturriet Avila e Pedro Vellinho Corso Duval
As destituições presidenciais ocorridas em 1964 e 2016 possuem distinções em termos de método, instrumento e velocidade. Um olhar mais cuidadoso, entretanto, é capaz de identificar nestes epifenômenos causalidades nos interesses políticos dos respectivos grupos sociais representados e contrários aos então presidentes. Este breve texto, de forma simplificadora, busca quantificar e qualificar algumas dessas causas através da variação real do salário mínimo, da incidência tributária e das políticas sociais distributivistas interrompidas ou restringidas.
No curto espaço de tempo da forma de governo presidencialista da gestão de João Goulart, houve a proposição das Reformas de Base. Nelas, estavam incluídas as seguintes reformas: agrária, bancária, fiscal, educacional, urbana e administrativa. Tais proposições alterariam com profundidade o quadro de distribuição de renda no País.
A reforma agrária previa a autorização de desapropriações, para que a terra servisse a sua função social, ampliaria os direitos do trabalhador rural e permitiria o fortalecimento sindical. Já a reforma bancária tinha o intuito de ampliar a concessão de crédito. A reforma educacional almejava a valorização da magistratura e a erradicação do analfabetismo. A reforma urbana visava diminuir a especulação imobiliária e o déficit habitacional.
A reforma fiscal, entretanto, parcialmente implementada, possuía impactos redistributivos relevantes. Além da ampliação da alíquota máxima de imposto para a faixa de 65%, havia previsão de impostos sobre ganhos especulativos de imóveis, implementação de tributos diferenciados de acordo com o setor das empresas, estímulo à reinversão de lucros, etc. Aliada a esses fatores houve uma valorização real do salário mínimo, em 18,76%. Esse foi um dos fatores de instabilidade do governo Goulart, que encontrava crescente resistência dos grupos econômicos dominantes (SOUZA, 2010; MOREIRA, 2011). O governo subsequente, de Castelo Branco, reverteu rapidamente as políticas implementadas por Goulart.
Na destituição de 2016 é possível elencar semelhanças e diferenças. Sabidamente, as gestões petistas tinham seu elo fundador nas políticas sociais que visavam à redução das desigualdades do País. Seja através da valorização real de 90,55% do salário mínimo, seja através de políticas sociais como: minha casa minha vida, farmácia popular, cotas sociais e étnicas nas universidades, bolsa permanência a estudantes carentes, programas de agricultura familiar, bolsa família, etc.
Na área fiscal, o governo Lula tentou realizar uma reforma tributária no seu primeiro ano de governo. Dentre as propostas, havia a ampliação de impostos sobre doações, heranças e sobre a aquisições de imóveis. Contudo, o projeto encontrou resistências no Congresso Nacional, especificamente nos grupos empresariais e conservadores. (SALVADOR, 2014).
O governo Dilma acenou para volta da tributação sobre os dividendos e para o aumento das alíquotas do imposto sobre heranças e doações, além de tentar instituir a taxação sobre grandes fortunas e retomar a CPMF. Esses acenos nunca foram encaminhados ao Congresso Nacional, motivada pela sinalização de que não seriam aprovados.
Ambos os governos conviveram com a desaprovação dos grupos sociais de renda mais elevados, não apenas por desgostarem das políticas, mas fundamentalmente porque os ganhos sociais representam a redução relativa da apropriação de renda das camadas superiores e, eventualmente, redução do lucro empresarial. O Gráfico 1 (logo abaixo) explicita uma trajetória de elevação da participação dos salários no PIB a partir de 2004 e, consequentemente, uma queda do excedente operacional bruto sobre o produto no mesmo período.
Nota: Foram excluídas as receitas governamentais e o rendimento de autônomos. No rendimentos do trabalho foram inclusas contribuições sociais
A variação do salário mínimo tem relação direta com o aumento dos ganhos sociais. O gráfico 2 indica a concomitância dos valores salariais elevados e acentuados conflitos políticos. No governo de Castelo Branco, posterior ao golpe, a variação real do salário foi negativa. Houve queda de 36,03%. No governo de Michel Temer, a variação do salário mínimo seguiu a regra previamente estabelecida, mas a reforma trabalhista implementada rebaixa os ganhos dos trabalhadores, uma vez que viabiliza uma jornada de trabalho menor do que 44 horas. Adicionalmente, é uma clara precarização das relações de trabalho.
Cabe destacar que ambas destituições tiveram aberto apoio de grupos empresariais, dos grandes grupos midiáticos, das federações de bancos e das agremiações ruralistas — em um termo, das elites. As políticas regressivas adotadas nos governos sem a legitimidade das urnas, mas apoiados pelas elites, demonstram a dificuldade desses grupos conviverem com políticas distributivistas. Fenômeno mais intenso do que em países desenvolvidos, os quais possuem, em sua maioria, políticas fiscais e sociais mais redistributivistas. Além de mais conservadora, a elite brasileira parece ser mais autoritária, dispensando a democracia em momentos que seus interesses estão em jogo.
Gráfico 2 – Variação real do salário mínimo 1940-2018 e destituições de João Goulart e Dilma Roussef
Nota: A preços de 2018, deflacionado pelo INPC. Elaboração própria
Do ponto de vista do método, é também possível identificar semelhanças em meio às diferenças. Quando o retorno do capital é ameaçado, há uma rápida articulação entre grupos empresariais, midiáticos e amplos setores da classe média, que se mobilizam com a mesma narrativa. Dessa forma, observa-se a técnica, bem-sucedida, de associar governos moderados à esquerda radical, abrindo espaço à extemporânea retórica anticomunista. O discurso anticorrupção se presta a conquistar corações e mentes. Dessa maneira, nos termos de Santos (2017), tal método disfarça “que as prioridades dos governos usurpadores não têm sido o combate a corrupção, mas, isso sim, notável, a adoção de medidas estancando políticas favoráveis aos destituídos”.
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Os autores agradecem as contribuições de João Batista Santos Conceição, Pedro Sofiati de Sá e Mário Lúcio Pedrosa, eximindo-os das posições aqui firmadas 
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REFERÊNCIAS
MOREIRA, Cássio da Silva. O projeto nação do governo João Goulart: o Plano Trienal e as Reformas de Base (1961-1964). 2011. 406. Tese (Doutorado em Economia). Faculdade de Ciências Econômicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.
SALVADOR, Evilasio. As implicações do sistema tributário nas desigualdades de renda. 1. Ed. Brasília, 2014.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A Democracia Impedida: O Brasil no Século XXI. Rio de Janeiro: FGV, 2016.

Entrevista com Mujica: "vivemos o império da solidão no meio da multidão", Gonzalo Arias.

Presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, o senador José 'Pepe' Mujica está muito preocupado pelo que ocorre no Brasil com seu amigo Lula e o impacto disso na região

18/04/2018 12:08
 

Perto de completar 83 anos (no mês que vem), dos quais passou 14 como preso político, o senador José “Pepe” Mujica, agora atua como senador, depois de ter sido ministro da Agricultura e Presidente nos anteriores governos da Frente Ampla, que governa o Uruguai desde 2005. Segue sendo uma figura fundamental na política no mundo, que observa desde a sua pequena chácara na periferia de Montevidéu, a mesma onde recebeu a equipe jornalística do Página/12.

Página/12: A Argentina está debatendo atualmente a possibilidade de aprovar um projeto de despenalização do aborto. O Uruguai o discutiu e aprovou em 2012, quando você era presidente.

José “Pepe” Mujica: Desde que o mundo é mundo há abortos. Quanto mais oculto e menos reconhecido, mais prejudicial para as mulheres pobres, que são duplamente castigadas. Para dar o passo na direção da legalização parte desta constatação, e sempre é preciso olhar a questão social, apoiar a mulher na decisão que ela tomar. Se nós deixamos isso continuar a ser um fenômeno clandestino, vamos estar alimentando uma situação inviável. (O Uruguai dá) uma atenção social e psicológica para a mulher quer interromper a gravidez. Creio que isso acaba salvando mais vidas, assim, reconhecendo esse direito, do que negando, do que dizer não ao aborto. Mas o problema continua existindo, porque somos hipócritas, se nos omitimos diante de uma sociedade de mercado que faz disso um estupendo negócio para alguns, e caro. Mas claro, as mulheres que têm a necessidade de abortar e que têm poder econômico vão resolver o problema clinicamente, bem atendidas. As mulheres que estão na base da pirâmide social vão arriscar a sua vida. Por isso nós decidimos o que decidimos. Não é uma questão de gostar ou não. No Uruguai, é uma velha forma de pensar.

Página/12: Ou seja, se trata de uma questão de realismo?

Mujica: Não se pode esconder um problema que existe. Isso nos levou a que, em 1912, houvesse um governo deu o direito ao divórcio às mulheres por sua própria vontade, sem precisar de justificativas, e que reconheceu a prostituição como um trabalho registrado. Porque eu gosto da prostituição? Não, mas porque eu sei que ela existe, é tão velha quanto o mundo. Porque não adianta um governo fingir que ela não existe que nem por isso ela vai deixar de existir. O mesmo aconteceu com as bebidas alcoólicas. Em 1915, houve um governo aqui que não pensou em Lei Seca, como nos Estados Unidos. Não: nacionalizou a produção de álcool, para garantir que fosse de boa qualidade. Daí tirava recursos para atender a saúde pública, entre eles as consequências do alcoolismo. Essa filosofia sempre esteve presente no Uruguai. Não podemos negar a evidência da realidade, e sim tentar organizá-la o melhor possível. Eu me considero um humilde herdeiro dessa tradição. A maconha é uma maravilha? Não, é um problema, eu creio que nenhum vício é bom. Se podemos legalizar, pelo menos teremos um elemento de controle e damos um golpe no narcotráfico pelo lado de quebrar o mercado ilegal. Há uma certa situação de causa e efeito: não negar a evidência da realidade e aceita-la, sabemos que se deve organizar o melhor possível para que isso funcione corretamente.

Página/12: O Brasil está vivendo um dos terremotos políticos mais importante da região nos últimos anos. Que impacto você acredita que pode ter na democracia brasileira e sul-americana o possível cenário de que um candidato como Lula seja proibido de concorrer, sendo o claro favorito nestas eleições?

Mujica: Não sei se posso medir o atual contexto, mas não é a primeira vez que o Brasil aparece delineando o terror. Basta recordar o suicídio de Getúlio Vargas. Curiosamente, deve ser o povo mais alegre da América Latina, um povo de samba, belo, mestiço. Se acontecesse na Argentina o que fizeram com um líder como o Lula haveria um terremoto social. Virariam Buenos Aires do avesso. Isso pelas tradições que o povo argentino tem. O Brasil não é assim, é diferente, não tem essa tradição de lutas coletivas, de massas, de múltiplas organizações sociais que se movem. Em que isso vai desembocar? Não sei. Porque já fizeram tantas barbaridades, recordemos o que fizeram com a Dilma. E não parece que vão parar por aí. De qualquer forma, não vai ser fácil. Parte da opinião a favor de Lula é a consequência sociológica das reformas conservadoras que estão fazendo. Colocaram o Lula em cana, mas os efeitos das reformas conservadoras são sentidos pelo povo. E o povo expressa politicamente. O PT, quando o Lula caiu, já estava destroçado. E o PT sem o Lula é muito pouco, mas com o Lula é muito, porque é um símbolo que está no núcleo da resistência.

Página/12: Qual é o seu pensamento a respeito do tema da corrupção?

Mujica: O fenómeno da corrupção golpeia toda a América latina, mas existe no mundo inteiro. Mas é uma coisa curiosa, porque na América Latina nós jogamos contra nós mesmos. Entre outras coisas, quebramos todas as nossas empresas. A Volkswagen, a maior empresa de fabricação de carros do mundo, cometeu um erro sideral, e não tem ninguém na cadeia, e continua fabricando carros. Pagou as multas. A banca Morgan foi resgatada com uma grana alta, 3 bilhões, 4 bilhões de dólares de multa. Pagaram e ficou tudo certo. E assim sucessivamente. Nós destroçamos tudo, inclusive a empresa (e quem diz isso sou eu, que tenho uma visão socializante), como a de construção social. Se as poucas que temos nós estamos destruindo, quem estamos favorecendo? As multinacionais. Eu prefiro não matar a empresa, porque a empresa é um esforço coletivo, e uma acumulação de conhecimento, de experiência, de funcionamento, isso é uma loucura.

Página/12: Este fenômeno da corrupção é interessante, porque atravessa a esquerda e a direita por igual, e hoje parece ser uma preocupação de toda a sociedade. Sob o risco de parecer ingênuo, você se arrisca a dar uma fórmula de como se combate a corrupção?

Mujica: Está se cultivando a ideia de que vencer na vida é ter dinheiro, estamos vendendo isso como um modelo, de que o triunfador é aquele que tem muita grana, e a partir desse princípio, como vamos nos assustar com a corrupção? É uma consequência do modelo que estamos plantando! E em todas as classes sociais. E o guri que nasce na pobreza e sai da favela sofre dessa mesma doença ideológica. E o burocrata que tem um cargo importante no Estado sofre dessa mesma doença ideológica. É uma consequência dessa cultura, não há porque se assustar. Então, colhemos o que plantamos. Agora, não se trata de cultivar uma sociedade de santos, e sim de se preocupar por uma sociedade solidária. Tampouco deixar que seja uma sociedade do “você faz o teu e com isso vai ser mais feliz”. É um problema de filosofia de vida.

Página/12: Qual seria essa filosofia?

Mujica: O capitalismo precisa todos estejamos sempre ambicionando, querendo, comprando coisas novas e desejando. Gerar desejos. Paralelamente, temos que fazer esta pergunta: por que há tantos psiquiatras? Por que tanta doença da cabeça? Parece que entramos no século das doenças dos neurônios, o que mostra que algo está muito errado. “Pobre é aquele que precisa de muito”, é a velha definição de Sêneca. Ou a definição dos aymaras: “pobre é o que não tem comunidade, condenado a estar cercado de solidão”. Este ideal de vida significa que comprar mais do que precisa, e que o sucesso depende da riqueza, é uma prisão que não tem fim, e que deixa muita gente pelo caminho. Para mudar isso precisamos cultivar os afetos, e isso requer tempo.

Página/12: Por que você fala cada vez mais sobre o tempo?

Mujica: As relações pessoais requerem tempo. Os afetos, porque o ser humano é muito emotivo, primeiro sentimos, depois pensamos. E os afetos requerem tempo. Mas se o tempo da nossa vida se gasta na luta por ter dinheiro, para pagar as dívidas que temos, que tempo temos para os nossos afetos? Aí você ouve dizer: “eu não quero que meu filho passe necessidade”. Mas aí vai faltar você, que jamais tem tempo para o seu filho! E você acha que vai substituir os afetos com brinquedos? As coisas não são assim. Porque as coisas inertes não emocionam. As emoções são consequência das cosas vivas. Isso é tão elementar que, tacitamente, todo o sistema nos leva por um caminho que é muito contrário ao nosso sentir. Na verdade, quando você compra, não está comprando com dinheiro. Está comprando com o tempo da sua vida que tivesse que gastar para ter esse dinheiro. Veja, eu não faço apologia da pindaíba. Toda coisa viva tem necessidades materiais e se você tem necessidades materiais tem que trabalhar para enfrenta-las, e o que não trabalha está vivendo do suor de alguém que trabalha. Mas a vida não é só trabalhar. Aqui há um conceito de limite que nos faz perder esta civilização. Há um tempo para trabalhar. Mas a vida não se faz só para trabalhar. A vida tem sentido para ser vivida, porque é a única coisa que realmente temos. Gasto tempo para ter grana para comprar. Mas não posso ir ao supermercado e comprar tempo de vida. Mas isso é o conceito de limite, o velho conceito grego de “nada deve ser demais” é uma forma de defender a liberdade. Porque, quando você é livre? Quando está submetido à lei da necessidade você não é livre. É livre quando tem tempo e o utiliza naquilo que você quer, no que gosta, no que te motiva.

Página/12: Quer dizer que a cultura do consumismo foi o que devastou os valores sociais?

Mujica: Claro! A cultura consumista golpeia todos os dias o seio dos nossos lares, de manhã, de tarde e de noite, estamos praticamente submersos. E isso é funcional ao sistema. O sistema necessita que estejamos devendo, que tenhamos quotas para pagar. E necessita que andemos desesperados por não poder comprar tudo o que precisamos, porque somos agentes do mercado. E os economistas agarram suas cabeças se o mercado interno não cresce. Mas isso é como uma onda, a direita tampouco sabe como explorar isso. Depois vem o refluxo, é inevitável. Creio que é um movimento pendular, e se tivesse que esquematizar, há tempos que parece que são mais de acumulação, e tempos onde a prioridade é o compartilhamento: nenhum desses momentos é definitivo, nem eterno. O grande problema que nós latino-americanos temos é que, por chegar tarde na festa do capitalismo, temos as veias abertas. Ou seja, boa parte dos nossos períodos de eventual prosperidade nós perdemos porque necessitamos recorrer ao investimento direto estrangeiro, depois temos que pagar a amortização e a ganância, além dos desequilíbrios que podem nos afetar. Temos pouca capacidade de gerar economia com o esforço próprio, porque estamos aprisionados pela nossa própria cultura e essa cultura nos faz também, como países, eternamente demandantes. Sem percebermos, queremos viver como o primeiro mundo, vivemos admirando o consumo do primeiro mundo, mas não somos primeiro mundo. Porque eles acumularam muito saqueando a África, saqueando a Índia. Há uma história de 200 anos atrás de nós, estivemos sempre aí, no pelotão dos saqueados.

Página/12: Há uma crise no processo de sucessão dos líderes mais fortes?

Mujica: Os homens transcendentes são muito importantes, mas não podem substituir o poder das formações políticas. É preciso ter a humildade estratégica de reconhecer que nós passamos, que a luta é eterna e permanente, e que no fundo é para melhorar a civilização humana, não só por uma quota de poder, entender que temos que contribuir para fazer girar a roda da história, e que depois são os coletivos que continuarão a fazer o que nós fizemos antes. O melhor dirigente não é aquele que faz mais, ou o que grita mais forte, ou o que tem o cartaz mais chamativo, ou mais palanque, ou mais aplausos, nada disso. O melhor dirigente é o que produz uma turma que, ao substitui-lo, está em vantagem em comparação com ele mesmo quando começou. Porque a nossa vida vai acabar, mas as causas continuam vigentes, e ainda há muito pelo que lutar. Porque a luta não é sequer conjuntural, a luta é o caminho eterno da vida.

Página/12: Isso em caso de triunfo ou em caso de fracasso?

Mujica: Nunca há um triunfo total, porque tampouco existe uma derrota total. Porque antropologicamente somos gregários. Sozinhos somos insignificantes, por mais poderosos que pareça que somos. Temos que pensar um pouco nas consequências de sermos gregário. A construção da civilização humana é a herança mais importante que recebemos quando nascemos. Desde aqueles que descobriram o fogo e a roda, até os que descobriram a biologia molecular. Quando nascemos, recebemos, sem perceber, a herança desse formidável esforço intergeracional. Quer dizer que o que se acumulou é a destilação de gerações e gerações, até chegar na nossa, e isso é construção coletiva. Isso joga contra o indivíduo? Não, é o que ampara o indivíduo. O coletivo é o único que permite que o indivíduo não esteja só e possa enfrentar a vida com outras possibilidades. No direito antigo, nas tradições antigas, depois da pena de morte, a pena mais rigorosa era que te expulsassem da comunidade, porque você tinha que sair e viver num mundo feroz, sem apoio coletivo. Nesta etapa atual da civilização, o que se tenta fazer é atomizar as pessoas, individualiza-las. Vivemos na megalópole, às vezes num bloco de apartamentos, onde sequer dizemos “oi” aos nossos vizinhos. É o império da solidão no meio da multidão. Porque quanto mais sozinhos estamos, mais manipuláveis somos. A gente tende a acreditar na ideia de que conseguimos isso ou aquilo pelo esforço pessoal... Não quer dizer que esse esforço não tenha importância, claro que tem, mas só tem porque faz parte de um cosmos coletivo que o rodeia e o impulsa. Eu posso fazer muito bem o que faço, mas quando tiver um ataque cardíaco vou precisar de um cardiologista que me socorra, e isso quem me dá é a sociedade. Se saio com o fusca e o motor morre, precisarei de um mecânico que o atenda. E em muitas outras coisas que faço preciso dos meus amigos, não faço sozinho. Tudo isso é a sociedade. Não poderíamos viver sem isso. Entretanto, parece que nos esquecemos disso. É tão elementar que queima os nossos olhos. Por isso temos que construir projetos coletivos. Mas também há outra coisa: mudar o mundo não é brincadeira, e às vezes custa caro, e não falo de dinheiro. E como uma avenida onde os carros passam, vão e voltam, e não se pode evitar que eles passem, mas temos que cruzar a avenida sem deixar que eles nos atropelem. A avenida é a vida. O cruzamento é o grau de independência que temos aqui. Se temos consciência, a luta é para que esta sociedade exigente não nos submeta. Porque creio, e este é um problema que a esquerda (ou isso que chamamos de esquerda, ou progressismo, ou do nome que se queira usar) tem que incorporar: não basta com buscar o desenvolvimento econômico, é preciso se preocupar com a felicidade humana, porque esta vida não dura para sempre.  

Página/12: Em 2016, você disse que “se a esquerda está perdendo terreno, deve aprender com essa perda”. Qual você acha que são as “lições” que a esquerda tem que aprender e colocar em prática no processo político atual?

Mujica: O duelo entre direita e esquerda compõe a história humana, é um ir e vir constante. A forma que toma é contemporânea, mas esse duelo é a cara eterna da humanidade. Triunfar na vida não é chegar a um objetivo. Triunfar na vida é se levantar e começar de novo cada vez que seja necessário. Então, se a luta é contínua, tem que ser coletiva, porque só o coletivo pode ser herdado. Além do mais, os erros e a falta de humildade, o pensar que temos a verdade absoluta revelada e que somos absolutamente imprescindíveis nos leva a perder a capacidade de negociação entre nós mesmos. As pessoas de esquerda tendem a se dividir por ideias e as de direita tendem a se unir por interesses. As de esquerda são poéticas demais, as outras são mais realistas e imediatistas. Para enfrentar isso, é preciso que haja união em coletivos grandes. Para se reunir em coletivos grandes, temos que aprender a lidar com as diferenças e chegar a pontos em comum. Mas somos frequentemente tão soberbos intelectualmente que deixamos pelo caminho tudo o que disseram, e queremos as coisas mastigadinhas e perfeitas, que só existem nas nossas cabeças. A vida não é assim. Perdemos muito das nossas energias para enfrentar os desafios impostos pela unidade da direita (embora esta também tenha suas contradições). Creio que isso tem sido um constante.

Página/12: Há um conceito que você costuma repetir, de que “é preciso defender uma república baseada com a ideia de que os seres humanos são iguais, pelo menos perante a lei”.

Mujica: Todos sabemos que alguns são muito mais iguais que outros. Quem tem muita grana tem advogados muito melhores, e esse é só um exemplo. Mas é uma afirmação de princípios que devemos defender. Devia ser um caminho ideal pelo qual lutar. Apesar dos defeitos que esse sistema mostra, não quer dizer que tenhamos que voltar ao absolutismo. Mas creio que aqueles que lutamos pelo lado da esquerda, ou que temos sentimentos solidários, não devemos nos desligar nunca da nossa forma de viver, e viver como vive a maioria do nosso povo, e não como vive a minoria privilegiada.

Página/12: Como seria isso na prática?

Mujica: A esquerda tem que cultivar uma conduta. Às vezes temos que frequentar a missa que os senhores nos convidam para sentar e falar sobre os seus interesses, mas temos que não deixar de lado a consciência de que essa não é a nossa mesa. Nossa mesa é a mesa comum, do povo comum. Temos que viver como pensamos, porque caso o contrário terminamos pensando como vivemos. A esquerda do futuro deve defender isso, e deve se preocupar disso. Eu não posso mudar a realidade de muita gente que está muito ferrada, e se não posso fazer, tenho que viver na linha em que vive a maioria das pessoas na minha sociedade. Porque isso é a República, essa coisa do republicanismo. Então, eu digo que os que gostam muito da grana não devem estar na política. Na política devem estar gente simples, sóbria. Não quero usar nunca mais a palavra austeridade, porque é mal aplicada, serve para defender políticas que deixar o povo sem emprego, é isso que chamam de austeridade hoje em dia. Frequentemente se perde essa fronteira. Quando você é um modelo, não pode cometer esses erros porque o homem da rua vê essas coisas. E se perdemos a confiança daqueles que defendemos, somos uns impostores. Não creio que temos que ser monges e fazer voto de pobreza, não é isso, basta viver como a maioria da sociedade, como a imensa maioria. E ser coerente com um discurso visando igualdade, a distribuição, a equidade e a ideia de que não se pode solucionar todos os problemas, mas que é preciso ao menos tentar. Eu acho que, frequentemente, a esquerda na América Latina se equivocou nesse caminho. Se deixou levar um pouco pelos tapetes vermelhos, por ser convidada de honra dos grandes círculos, e terminou aceitando uma série de instituições que se assemelham ao feudalismo, infiltradas dentro dos governos para criar armadilhas. Sou um velho desconfiado. Naquela época do Nikita Khrushchov, eu fui à União Soviética e me levaram a um hotel. Havia tapetes vermelhos que faziam cócegas nos meus tornozelos. Então eu perguntei: “para que fizeram este hotel, com este luxo, numa revolução proletária?”. Não gostei, e comecei a observar, até perceber que começava a se criar uma classe acomodada. Pensa bem: a forma de viver também tem a ver com o que você pensa. E também tem a ver com o conceito que se tem de liberdade: se você anda pela vida com uma bagagem leve, terá que se preocupar menos com as coisas materiais. Mas se tudo é complicado e difícil, muitos empregados, servos, muitas coisas que ficar de olho porque não pode deixar que te roubem em casa... Esquece isso, é possível viver tranquilo com muito menos. A sobriedade e a simplicidade, no fundo, são a melhor forma de ter comodidade.