quarta-feira, 5 de abril de 2017

Devaneios sobre a cultura do olhar, por Maria Bitarello.

on 04/04/2017Categorias: Arte e Literatura, Cultura, Destaques
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A troca de olhares, no Brasil, é como na Índia, na Etiópia, no Peru. A gente olha, é flagrado e não se constrange. A roupa, a bunda, a cara, a conversa da mesa ao lado
Por Maria Bitarello | Imagem: Amrita Sher-Gil, autorretrato
Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.
Há quem fique embaraçado diante de uma encarada. Os americanos são assim. E sim, estou generalizando americanos. De modo geral, o americano médio vai sorrir e dizer alguma amenidade pra amaciar o desconforto e quebrar o silêncio que envolve a troca de olhares com um desconhecido. Dá pra ver no corpo deles a agitação. Já os franceses, também de forma grosseiramente generalizada, reagem com mais agressividade. Uma troca de olhares sustentada durante certo tempo pode ser percebida como uma afronta, uma provocação. E daí pode surgir um bate-boca. O comportamento no Brasil se aproxima mais do observado em países menos formais, muitas vezes ditos subdesenvolvidos. Onde as pessoas não têm vergonha de se olhar e onde isso não é, a princípio, um desrespeito. Na Índia é assim, no Nepal; também no Benim, na Etiópia; aqui ao lado na Bolívia, no Peru.
Talvez sejamos mais cara-de-pau, porque a gente olha mesmo. Olha, é flagrado olhando e não se constrange. Continua a olhar. A roupa, a bunda, a cara, presta atenção na conversa da mesa ao lado. A gente disfarça menos nossa curiosidade. Mas, seguindo a dica do meu padastro, há, sim, distinções regionais. Tomemos São Paulo. Aqui, como em outras megacidades cosmopolitas, convivemos com pessoas muito diversas o tempo todo. Tem gente do Brasil todo, do mundo todo, pertencente a uma enormidade de tribos urbanas diferentes, o que muda o guarda-roupa, o código social, o corte de cabelo, o vocabulário, a linguagem corporal. É difícil chocar alguém em São Paulo: aqui se vê de tudo. Talvez por isso o olhar do outro pareça até meio desinteressado e blasé, porque afinal é difícil competir com aquela pessoa que desce a Augusta de madrugada vestida de Edward Mãos-de-Tesoura.
Esse anonimato que a multidão paulistana confere pode ser o desespero de muitos recém-chegados; muitos dos quais desistem da cidade por essa razão mesma. Outros se refestelam nessa liberdade. Porque ninguém te conhece, pode-se estar a só, entregue ao devaneio, à observação, lá no meio da multidão, sem patrulha. Numa cidade menor é o contrário: há sempre alguém conhecido; essa delícia do anonimato parece intangível. Penso que pode ser esse olhar “vigilante” do interior a que meu padastro se referia. Ele, que é gringo no país e na cidade, embora já esteja no Brasil faz tempo, sente esse olhar que é curioso e, ao mesmo tempo, espia. É o que acho.
Sampa é uma cidade gigantesca e organizada em bolsões regionais e culturais, agrupada em comunidades. Essa cidade só é possível porque reiteramos todos um acordo tácito de conviver nesse espaço. E aqui dentro também o olhar varia de bairro pra bairro. Na Vila Madalena, onde morei nos últimos cinco anos, durante os dias de semana a onda é hipster/cool. Cada pessoa transmite mensagens muito específicas com suas roupas, tatuagens, piercings, bicicletas e bigodes. Ocorre uma troca de olhares muito afirmativa de sua identidade, muito diferente da que se nota na Av. Paulista no fim da tarde, quando saem dos edifício comerciais batalhões de homens de terno e mulheres de tailleurs. Esse é um olhar apressado; o spam de atenção dura um segundo.
Ambos, por sua vez, nada têm a ver com o do Bixiga, pra onde estou me mudando essa semana. Ali ainda tem uma pegada de interior apesar de estar bem na região central da cidade, na muvuca. Churrasquinho na esquina, crianças em bando, pelada de rua, todo tipo de ofício e pequeno comércio, restaurantes com comida boa e barata, casinhas operárias, e o olhar familiar, comunitário. Lembra Minas.

Arquitetura, a dura poesia concreta das metrópoles, por Mariany Araujo.

on 01/04/2017Categorias: Cidades, Destaques, Mobilidade Urbana, Periferias e Centro
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Na imagem, São Paulo. “A Arquitetura imprime no meio físico um discurso, e levanta o questionamento a respeito de como, e com qual intenção, estão sendo contornados nossos espaços”
Toda construção expressa um conflito e uma forma – às vezes oculta – de resolvê-lo. Para criar cidades menos alienadas é preciso um outro olhar sobre os espaços públicos
Por Mariany Araújo
As grandes cidades se veem na tentativa de equilibrar um complexo jogo formado por tensões de naturezas bastante antagônicas: interesses coletivos e individuais, públicos, privados, históricos, vanguardistas, filosóficos e morais que, de tão constantes e aparentemente indissolúveis, se tornaram quase premissas para a convivência – ou ao menos a tentativa de convivência – na metrópole. Este jogo normalmente exige uma escolha individual, uma tomada de posição que não vem acompanhada da clareza necessária sobre qual caminho leva, de fato, à construção de um lugar melhor para todos.
Diante da dúvida, a virtualidade dos encontros parece um escape tangencial: o homem moderno acreditou que a ciência e a tecnologia o libertariam da dependência direta dos lugares pelas vivências virtuais. Distâncias diminuídas, noção de tempo e espaço completamente alterada, neste lugar meio não-lugar se chega tão rápido quanto se parte, e sem necessariamente levar a cabo o motivo que te fez ir até lá. Mas, quando até o virtual tornou-se objeto concreto de análise, o caos ambiental é que ironicamente devolveu à questão espacial sua devida relevância. Não houve escapatória: lidar com os lugares que ocupamos e seus limites se coloca também como mais uma condição inerente da vida em sociedade.
O espaço público é palco de múltiplas manifestações, numa espécie de descompressão coletiva do estresse cotidiano; onde da rua se assiste ao surgimento de religiões, dietas, festas, obras de arte, apropriações e reapropriações, saraus e manifestos políticos. A grande beleza do espaço público se revela em, justamente, ser público; de todos, e por isso conformado por limites um tanto, digamos, enevoados. O virtual e o físico encontram-se e se permeiam, confundem-se. Torna-se difícil ter certeza de onde estamos, quais são os contornos, onde eles nos cercam, onde nos permitem e onde nos proíbem. O limite se instala entre realidades, não pertencendo a nenhuma delas mas, ao mesmo tempo, pertencendo às duas; é um jogo duplo que marca a ruptura mas também a união, inícios e finais, portas e transições, como duas faces que olham em sentidos opostos. E é muito importante não perder a dimensão de que neste jogo existem sempre os dois lados separados-unidos pela fronteira, e que por mais confortável que seja o lado de dentro – onde estamos -, também tem o lado de fora, ou seja, o outro, que se colocando a uma distância razoável de nós, se faz visível. É imprescindível para a cidadania enxergar esse outro, mas para isso é preciso sair da centralidade de si mesmo, é necessário olhar em volta.
Em meio a tanto vizinhos, vêm se criando os chamados “condomínios virtuais”, com muros quase invisíveis. Bem, os muros na arquitetura nada mais são do que limites virtuais trazidos à materialidade e que impõem a ruptura a um espaço antes contínuo; tal limite sempre é pensado antes de ser construído, e justamente por ser princípio de qualquer construção é que o pensamento rígido e intolerante pode segregar tanto e até mais do que qualquer fronteira física.
De qualquer maneira, a arquitetura exerce um papel social essencial enquanto conformadora dos limites concretos e simbólicos que tratamos aqui: ela imprime no meio físico um discurso, e levanta o questionamento a respeito de como, e com qual intenção, estão sendo contornados nossos espaços. Praças, condomínios, escolas e cortiços: nenhum deles existe sem estar inserido em um amplo contexto que abarca todos nós, e como a existência de um fato arquitetônico não confere automaticamente uma licença ética para que ele exista, é preciso perceber o alcance destes projetos para além de suas paredes; pois este é o alcance do espaço na arquitetura.
Construir é inevitável, e construir é sempre uma decisão política. Qualquer obra, mais que decisão técnica, é sempre política, e há de se questionar a respeito desta intervenção do espaço que, tantas vezes, é feita maneira violenta e deixa cicatrizes não só no tecido urbano como na vida e história das pessoas que vivenciam esse lugar, que construíram suas vidas tendo este cenário, e neles desenvolveram uma relação de troca, de identidade e conformação mútua.
A busca de um outro olhar sobre nossos espaços construídos pode criar uma cidade melhor, mais inclusiva e civilizada; que nos proporcione a humanização das relações, que reverta esse cenário urbano de hoje, tão cheio de coisas e vazio de significados, e que, por fim, nos ofereça também o acolhedor conforto da estabilidade do lugar – a tão helênica stabilitas loci – na era do efêmero e da mudança.

Reforma da Previdência: financiadores x eleitores, por Charles Alcantara.

Somente a pressão dos eleitores pode conter e reverter a pressão dos financiadores

Protesto da Força Sindical durante reunião de comissão da Câmara em fevereiro.
Protesto da Força Sindical durante reunião de comissão da Câmara em fevereiro. Câmara dos Deputados


A Proposta de Emenda Constitucional 287 de 2016, que dispõe sobre as regras para aposentadoria e propõe alterações na seguridade social, revela a face absolutamente pró-mercado e antissocial dos seus artífices, no Executivo e no Legislativo.
Os números e os critérios que o Governo do presidente Michel Temer utiliza para apoiar a versão do déficit são de uma fragilidade constrangedora — para não dizer de uma falsidade escandalosa — seja porque desconsideram as variadas fontes de financiamento do Sistema de Seguridade Social previstas na Constituição Federal, seja porque ocultam os efeitos da agressiva e, muitas vezes, irresponsável política de renúncia fiscal, seja porque cristalizam a condescendência estatal com a criminosa sonegação fiscal, ou porque sacralizaram o mecanismo da Desvinculação das Receitas da União (DRU), ou seja, por fim, porque fazem da base de cálculo atuarial uma peça tão catastrófica quanto obscura.
À medida em que perde terreno no debate público, o Governo acentua a narrativa do caos e o recurso da chantagem, como se viu na recente declaração do presidente Temer de que o Brasil vai parar se a reforma não for aprovada. Ademais da chantagem, o Governo aumenta a pressão sobre a sua base parlamentar, em resposta à cobrança que vem sofrendo daqueles que o sustentam: os agentes do mercado, em especial o financeiro, que rondam os potenciais clientes, como um carcará ronda a frágil presa.
A PEC 287/2016 expõe com muita nitidez os dois lados desse embate: de um lado, o mercado, os financiadores da maioria política, os predadores dos direitos mais elementares da cidadania, os vorazes sugadores do orçamento público, via, por exemplo, sonegação tributária, renúncias fiscais e privatizações; e do outro, os contribuintes de fato, os eleitores, os que vivem de salário, os que dependem dos serviços públicos e da assistência do Estado.
É nesse mar turvo, refratário ao diálogo e à transparência, que se ergue uma onda de conscientização da sociedade frente aos seus direitos. Refiro-me à crescente mobilização popular — multifacetada e multicolor — em defesa da Previdência Pública e, por óbvio, contra ao que propõe o texto da PEC 287.
Recente pesquisa encomendada pela Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco) — realizada pelo site jornalístico Congresso em Foco, em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) — buscou a opinião de líderes e presidentes de partidos, presidentes de comissões permanentes e de inquéritos para aferir as tendências predominantes nas duas casas legislativas quanto ao relacionamento com o Governo Federal e às políticas públicas, bem como a influência de grupos organizados e instituições na pauta parlamentar.
Os resultados apontam evidências animadoras e indicam que a sociedade pode virar o jogo em defesa de seus direitos e na contracorrente do que pretende o governo.
Realizada a partir de entrevista estratificada com 44 parlamentares — senadores (15% dos entrevistados) e deputados (85% dos entrevistados), entre líderes influentes, sendo quase três quartos (74%) de parlamentares da base do Governo atual, a pesquisa revela que o Governo não conta com uma maioria tão sólida quanto desejava e quanto necessária para a imediata aprovação da PEC da Reforma da Previdência.
Perguntados sobre se "As contas da Previdência Social informadas pelo governo estão corretas", 31% dos entrevistados responderam que "Concordam Plenamente" e 23% que "Concordam Parcialmente", enquanto 31% responderam que "Discordam Plenamente" e outros 9% responderam que "Discordam Parcialmente". Trocando em miúdos, menos de 1/3 dos entrevistados confia totalmente na versão oficial sobre o rombo da Previdência. Em um universo em que 74% dos entrevistados fazem parte da base do Governo, esse resultado é, no mínimo, desolador para as pretensões do presidente Temer.
Frente aos caminhos e questionamentos que se abrem, um Governo de viés democrático não apenas se permitiria escutar a voz da sociedade, como abrir-se-ia para corrigir rumos. Não é o caso do atual que, diante do clamor popular, ignora as dúvidas e angústias daqueles que criticam e alertam, reagindo com desdém e soberba.
Não será fácil resolver tal dilema. E é importante que não o seja. Afinal, o caixa da Previdência Social no Brasil precisa de fato ser aberto e exaustivamente discutido. O Governo tentará impor o que deseja a passos largos e rápidos, sob pesados custos. Mas os eleitores emitem sinais claros aos eleitos de que não aceitarão pagar mais essa conta.
O que nos anima e ao mesmo tempo perturba os financiadores é que a sociedade resolveu entrar no jogo com disposição de ganhar.
Se é legítimo que os donos do dinheiro pressionem os políticos para aprovarem a Reforma da Previdência conforme os seus interesses, é ainda mais legítimo que nós — os donos dos votos — pressionemos os políticos a votarem conforme os nossos interesses. Afinal, o fundamento que dá sentido a um país que se declara e pretende democrático, segundo o qual "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente..." (CF, Art. 1o, Parágrafo único), não pode seguir sendo mera figura de retórica constitucional.
Mais do que nos darmos por satisfeitos com a opinião de 74% dos líderes políticos que consideram que a PEC 287 precisa de mudanças substanciais para ser aprovada, é preciso intensificar a luta popular para que o texto em discussão na Câmara dos Deputados seja rejeitado pela maioria do Congresso Nacional.
Somente a pressão dos eleitores pode conter e reverter a pressão dos financiadores.
Esse foi o recado dado aos políticos. Quem não quiser entender, que pague para ver.

O assédio sexual dos bastidores não passou na Rede Globo, por Carla jomenez.

José Mayer assédio
O ator José Mayer


O relato da figurinista que acusa o ator José Mayer de assediá-la fala com crueza sobre o que as mulheres ouvem todo dia de anônimos dentro de uma cultura covarde e desprezível

A esta altura, o Brasil inteiro já sabe que um galã da principal rede de televisão do país foi acusado publicamente por uma figurinista de tê-la assediado nos estúdios da TV Globo. Susllem Tonani, de 28 anos, relatou detalhes das insistentes investidas do ator José Mayer em um texto em primeira pessoa, publicado, em princípio, na madrugada do dia 31, no blog “Agoraéquesãoelas” do jornal Folha de São Paulo. Com o inequívoco título “José Mayer me assediou”, trouxe de volta a eterna temática do assédio sexual à pauta nacional. Desta vez, envolvendo um senhor que entrou na casa dos brasileiros reiteradamente nas últimas décadas, desde quando Mayer era apenas um jovem ator promissor.
A estampa do galã famoso e bem sucedido, no entanto, embaralha a mente de quem o imagina soltando um despretensioso (?) “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”, como relatou Susllem, a jovem que viveu uma rotina contínua com ele durante o período que durou a novela “A Lei do Amor”. Segundo ela, foram oito meses de convívio profissional em que começou a ouvir elogios de Mayer, que passaram a cantadas e até chegar ao impulso macho de um homem das cavernas. “Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália.” Entende-se pelo texto de 879 palavras que depois disso ela parou de falar com ele. Contrariado, a chamou de “vaca” na frente de outras pessoas. Foi a gota d’água para que ela fosse ao RH da Rede Globo e à ouvidoria contar o que aconteceu.
O relato da figurinista foi polêmico desde o início, não só pela empresa e o personagem envolvidos, mas até pela forma como veio a público. O duro desabafo ficou no ar por algumas horas no blog, e depois retirado do ar. Diante de uma acusação tão forte, era preciso ouvir o outro lado, no caso a rede Globo e o próprio acusado. No final da tarde de sexta, o texto voltou a ser publicado, e a Folha deu a matéria completa. Ao jornal, ele disse, por meio de nota, que respeita as mulheres, “meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço que não misturem ficção com realidade”. “As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não são minhas!”, mencionando o vilão escroque que interpretou na novela que acaba de terminar.
Estaria ele insinuando que Sullem misturou ficção e realidade e que assédio é coisa de personagens malvados? Seria ela tão ‘suicida’ de inventar uma calúnia e se expor dessa maneira? E se é inocente, por que o ator não fala abertamente, em vez de escolher uma fria nota como meio de comunicação?
A TV Globo, por sua vez, disse à Folha que “o assunto foi apurado e as medidas necessárias estão sendo tomadas”, lembrando que repudia toda forma de desrespeito, violência ou preconceito. É uma saia justa e tanto para a emissora que exporta novelas para o mundo. Mas, tudo indica que não é o primeiro caso. Segundo a colunista de TV Keila Jimenez, do portal R7, “os casos de assédio são tantos que a emissora criou até um departamento para cuidar só disso.”
A empresa só não esperava que Sullen fosse tomada de uma coragem rara entre as mulheres. Não só por denunciar um homem muito mais poderoso que ela, protegido por um aparato midiático, mas pela crueza de suas palavras no texto. “Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”, reitera ela em seu relato. Na terra em que se emprega a expressão “caralho” a três por quatro, a palavra “buceta” é algo quase chocante. Por que ela não optou por “vagina”? Bem, talvez porque a verdade precisa ser contada sem rodeios, na linguagem que ela se apresenta. “sua bundinha”, “seu peitinho”... que mulher não ouviu isso a vida inteira de estranhos na rua, no ônibus, ou até no confessionário de uma igreja... (sim, eu ouvi de um padre numa igreja do bairro Vila Mariana, quando tinha somente 12 anos).
A jovem figurinista tocou, ainda, em outra ferida cruel do machismo no Brasil, ao citar a presença de duas testemunhas femininas quando Mayer a tocou: a anuência de muitas mulheres que naturalizam esse comportamento masculino, diferenciando o papel dos gêneros. “Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.”

A continuação deste episódio, vale dizer, já tem um roteiro conhecido. O aparente assédio de Mayer, na cabeça de muitos, será taxado como coisa de feminista histérica. Ele é perfilado pela mídia que cobre televisão como um homem bem casado, filhos, que gosta de cuidar de plantas e curtir a família. Empatia total com o público da rede Globo. Contrasta com o imaginário sobre assédio e o machismo, que seria obra de homens maus, escondidos na virada da esquina de uma rua escura esperando uma mulher passar de minissaia ou decotes provocantes. Não, ele também pode vir de um ator em posição dominante, de um parente, de um chefe, de um funcionário que vai consertar a TV na sua casa, como contou Rita Lee em su biografia, lembrando o episódio que a marcou na infância.
O tal assédio nosso de cada dia é muito mais grave do que pode parecer, e precisa ser explicado inclusive às crianças. Faz bem a mãe e o pai que alertam filhas e filhos para o que sempre existiu e ninguém admite, ou custa a acreditar.
Felizmente, ao reconhecer essa doença social, muitas mulheres do Brasil também começam a fortalecer o caminho da cura. Não se pode naturalizar essas grosserias, não se pode deixar de denunciar, de falar, de contar, de dar nome aos bois, venha o assédio de onde vier, inclusive da rede Globo. A maior emissora do país podia aproveitar o ensejo e usar seu poder de comunicação para abraçar melhor a primavera feminista que varre o Brasil nos últimos tempos. Assédio não é normal, como lembra o blog AgoraéqueSãoElas. É covarde e desprezível.

As três guerras de Donald... e as que estão por vir, por Moises Naim.

A diversidade, intensidade, periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos causados por Trump não são normais

Donald Trump durante uma reunião na Casa Branca em 31 de março. AP

É normal que os presidentes se confrontem com seus opositores políticos e que tenham rusgas com outros países. Também é comum, e bastante saudável, que os governos e os meios de comunicação não se deem bem. Ou que os presidentes tenham de enfrentar a burocracia pública que, segundo afirmam, não executa com entusiasmo as políticas que eles prometeram aplicar.
Isso tudo é normal. Mas não são nada normais a diversidade, a intensidade, a periculosidade e, às vezes, a banalidade dos conflitos gerados pelo novo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump, porém, não é, com efeito, um governante normal.
Presidentes costumam gozar de um período de alta popularidade no início de mandato. Trump, ao contrário, tem o mais baixo índice de aprovação jamais registrado nesse tipo de pesquisa de opinião. As tentativas de concretizar as suas principais promessas de campanha estão naufragando; ele enfrenta investigações criminais ameaçadoras sobre membros de sua equipe –alguns dos quais já foram obrigados a renunciar—e não consegue preencher postos que lhe permitiriam ter uma gestão melhor. Os vazamentos de informações a partir da Casa Branca são constantes. A China está ocupando rapidamente os espaços de liderança mundial que os Estados Unidos estão abandonando e a Rússia de Putin cresce e procura influenciar as eleições europeias como fez com as presidenciais norte-americanas.
Em vista de tudo isso, caberia pensar que Trump tentaria estabilizar a situação e formar alianças. Mas o presidente está fazendo exatamente o oposto. Em vez de conciliar, busca o confronto; em vez de fechar frentes de batalha, abre novas; e, em vez de unir, está dividindo. Eis as três principais guerras internas de Donald Trump.
A guerra contra o seu próprio partido: Todas as organizações políticas têm facções, e o Partido Republicano não é exceção. Suas divisões internas impediram que se aprovasse a lei que desmantelaria a reforma realizada por Barack Obama na área da saúde. Qual foi a reação de Trump? "Devemos combatê-los", afirmou, referindo-se aos membros de seu partido que foram contrários à sua proposta. E também disse que, nas eleições parlamentares de 2018, apoiará candidatos que possam derrotar e impedir a reeleição dos congressistas que não o apoiarem. As reações dos republicanos dissidentes não se fizeram esperar: "A intimidação não funciona", "essas ameaças podem dar certo na escola primária, mas o nosso governo não funciona assim"... Embora as duas partes se esforçarão para mostrar que as divergências foram superadas, a realidade irá demonstrar que essas divisões têm efeitos duradouros. Trump continuará em guerra contra os que não apoiarem as suas iniciativas. Mesmo que isso implique lutar abertamente contra os líderes de seu próprio partido.
A guerra contra as agências de inteligência: Os serviços de inteligência dos EUA empregam mais de 100.000 pessoas, que trabalham em 17 diferentes organizações. Embora rusgas entre essa comunidade e a Casa Branca tenham existido no passado, nunca o conflito foi tão forte como agora. O presidente Trump afirmou que essas agências são tão desonestas quanto os meios de comunicação que divulgam notícias falsas. Chegou a chamá-las também de "nazistas". As agências de inteligência, de seu lado, soltaram um relatório cuja conclusão é de que o Kremlin influenciou as eleições nos EUA e que Vladimir Putin tem uma predileção explícita por Trump. James Comey, diretor do FBI, confirmou que a sua instituição está investigando a possível ligação de membros da equipe de Trump, durante a campanha eleitoral, com agentes de inteligência russos. O presidente disse que agora confia mais nas agências de inteligência, e explica o motivo: "Já pusemos pessoal nosso lá". Sem dúvida. Mas existem cerca de 100.000 pessoas que ainda não são do "pessoal" de Trump.
A guerra contra a Reserva Federal: Esta guerra contra o Banco Central dos EUA ainda não começou, mas é possível vê-la se aproximando. Presidentes gostam que as taxas de juros sejam mais baixas, o que costuma estimular o consumo, a atividade econômica e o emprego. Mas, se o déficit fiscal e o dinheiro em circulação aumentam e os preços começam a subir, é dever do banco central aumentar as taxas de juros para amenizar os riscos de uma inflação elevada e outros males econômicos. Mais uma vez, essa tensão entre a presidência e o banco central, comum em todos os países, pode se agravar, no caso de Trump, até se tornar um conflito com consequências econômicas graves. Ainda como candidato, o atual presidente expressou sua opinião sobre a diretora da Reserva Federal, Janet Yellen. "Ela devia ter vergonha de si mesma", disse Trump. Por quê? Porque Yellen havia dito que talvez tivesse que promover uma alta nas taxas de juros.
Estas são as três guerras internas de Trump, mas a sua beligerância também se expressa nas relações internacionais de seu país. E o maior perigo é que as derrotas domésticas o levem a procurar por confrontos do lado de fora. Não seria o primeiro líder de um país a usar um conflito externo para desviar as atenções de seus problemas internos. Putin pode lhe dar muitas lições sobre isso.

Teoria da Terra Plana renasce mais uma vez em tempos difíceis, por Wilson Roberto Vieira Ferreira



A Terra é um disco plano e cercada por um muro de gelo que chamamos de Antártida. O Sol e a Lua são apenas discos luminosos que giram sobre o plano terrestre e os planetas não existem. São apenas estrelas firmadas em uma abóboda. E a NASA esconde tudo simulando viagens espaciais e fotos da curvatura terrestre. Acredite, essa teoria que cada vez mais ocupa espaço na Internet com textos e vídeos com um crescente número de seguidores. Mas teoria da Terra Plana não é nova na era moderna. É recorrente na História em momentos de crise política e econômica, como hoje. Por exemplo, teorias da Terra Oca e Plana foram adotadas pelo Nazismo para se opor à “ciência materialista” e injetar magia e misticismo na Política por meio de sociedades secretas como a Vril e Tule, antes da Segunda Guerra. A Ciência transforma-se em fundamentalismo religioso, expressão da polarização e intolerância política do momento. Mas os terraplanistas acertam em um ponto: toda cartografia é uma representação político-imaginária.

“Boa noite, senhoras e senhores... essa noite terei o privilégio de fazer uma estonteante revelação que mudará a maneira de compreender a natureza do Universo desde Newton e Einstein, uma descoberta que mudará radicalmente a percepção do tempo e do espaço, a verdade escondida por muito tempo pelo establishment da indústria militar e espacial: a Terra é... PLANA!”.

Essa era a abertura dos shows em 1984 do músico e produtor musical Thomas Dolby promovendo seu segundo álbum The Flat Earth. Com o seu “nerd sinthpop”, bem sucedido depois do sucesso de “She Blind Me With Science” do álbum anterior, Dolby abria os shows com essa parodia que procurava ridicularizar o criacionismo e as pseudociências.

Eram os anos 1980, tempos do triunfo do neoliberalismo da era Reagan-Thatcher. Época da retomada econômica dos EUA e da Inglaterra com as medidas neoliberais e da financeirização cujo maior ícone foram os jovens yuppies e o maquiavélico Gordon Geko no filme Wall Street. Tudo ia muito bem num confiante capitalismo que acreditava que a História tinha acabado na Razão. Restava parodiar no liquidificador da cultura pop tudo aquilo que era obscuro e anti-científico.

Mas tudo mudou: a guerra anti-terror e o derretimento dos blocos econômicos como a Zona do Euro trouxeram insegurança social, desemprego, crashs financeiros e a catástrofe humanitária dos refugiados.

Thomas Dolby

Resultado: a ascensão da extrema-direita anti-imigração e anti-integração, fundamentalismo religiosos e o crescimento de uma percepção conspiratória de uma suposta ordem “politicamente correta”, uma bizarra conspiração gay-feminista-sionista-comunista que exigiria uma imediata intervenção militar ou mesmo a ação de milícias de “cidadãos de bem” armados.

Pensamento crítico cede ao ressentimento


Como nos ensina a História, nesses momentos o anti-intelectualismo, o irracionalismo e os fundamentalismos ganham força. Por trás de tudo isso, a desconfiança de que por muito tempo contaram somente mentiras para nós. O pensamento crítico cede lugar à fé cega e ao ressentimento.

A bizarra teoria da Terra Plana é um desses ao mesmo tempo curiosos e preocupantes fenômenos antropológicos. A paródia trash dos anos 1980 de Thomas Dolby foi substituída atualmente por um crescente números de adeptos fieis de uma visão do mundo que humanidade acreditou por muitos séculos. Até chegarem os filósofos e matemáticos gregos como Aristóteles e Eratóstones onde, através da lógica e trigonometria rudimentar, abriram o caminho para a comprovação da esfericidade terrestre.

Hoje, terraplanistas comprovam suas teorias da forma mais empírica possível: um homem que supostamente conseguir provar que a terra é plana com uma régua (sem comentários...); alguém que subiu num balão e, a 34 km de altura, não viu a curvatura terrestre (altitude insuficiente num planeta que possui 400.000 km de circunferência); os mapas de navegação são planos e não esféricos (o que ignora um simples princípio semiótico: o mapa nunca será o próprio território, é apenas uma representação) etc.


E a NASA é a agência que lidera a conspiração, divulgando fotos montadas sobre a curvatura do planeta e, principalmente, mantendo a farsa de que o homem pousou na Lua – na verdade, Lua e Sol são pequenos discos que giram sobre a superfície plana da Terra.

A recorrência da Terra Plana


A Terra Plana é uma recorrência histórica. Quando em 1925, na Alemanha e na Áustria, os carteiros entregaram uma carta a todos os cientistas e intelectuais avisando de que Hitler não só “limparia a política”, mas expulsaria a “falsa ciência” (e que eles deveriam escolher entre “estar conosco ou contra nós), surgiu o movimento de reação à “ciência sionista”, “burguesa” ou “materialista”. Uma nova Astronomia, Cosmologia e Física que demonstravam que a terra era oca (e que nós habitamos o interior iluminado por um “Sol interno”) e de que era plana, contida por uma abóboda da qual jamais sairíamos.

Os alemães seriam descendentes da raça-mãe da Atlântida e que recuperariam essa ascendência superiora através de uma guerra contra a conspiração das teorias científicas das raças inferiores – e os alemães recuperariam os antigos poderes que os homens somente atribuíam aos deuses.

Teorias pseudocientíficas e antigas concepções místicas alimentaram o nazismo em um momento de polarização política e catástrofe econômica com a hiperinflação e desemprego pós-guerra.  Em momentos como esse, sempre o intelectualismo surge de forma franca. E na época, sociedades secretas como a Vril, A Loja Luminosa e a Tule se transformaram em seitas que misturavam Teosofia, magia neopagã com uma solenidade oriental e terminologia hindu – um vasto movimento de renascimento do mágico no interior da própria Política - leia PAUWELS, Louis e .BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos, Difel, 1990 e AMBELAIN, Eobert. Os Arcanos Negros do Histerismo, José Olympio, 1995.

Como nos tempos atuais, de tão desgastada e sem credibilidade pela corrupção e mentiras, no período que antecedeu a Segunda Guerra, a Política levou uma infusão mística, mágica e mitológica para novamente galvanizar as massas... e deu no que deu...

Nazismo: a ascensão das teorias da Terra Oca e da Terra Plana

À espera de uma tradução política


A questão é que esse submundo pseudocientífico sempre existiu, sempre à espera de uma tradução política que o fizesse sair à luz do Sol. Como demonstra a trajetória de Samuel Shelton (1903-1971), fundador da Flat Earth Research Society (IFERS) em 1956.

Na década de 1920 estava convencido que iria revolucionar os meios de transporte com a “nave estacionária” uma nave que apenas se elevaria e flutuaria no ar e o movimento da Terra faria o resto – assim que o planeta girasse o bastante, a nave pousaria em outro local na mesma longitude...

Como não viu o projeto decolar (desculpe o trocadilho) Shelton foi contaminado pela atmosfera mágica das teorias da Terra oca e plana. Em 1956 fundou a IFERS, que sempre sobreviveu com um pequeno grupo de adeptos – até o músico Thomas Dolby quis participar, desde que fosse o membro 0001... uma certidão de sócio cairia muito bem à sua imagem “nerd synthpop”.

Mas recentemente, houve um crescimento exponencial no número de seguidores com vídeos e textos disseminados pela Internet.

Embora os teóricos da Terra Plana não consigam explicar o porquê dessa conspiração da Terra Esférica, acreditam em algum fator financeiro – a NASA e outras agências espaciais lucrariam bastante com o financiamento do Governo para simular fotos e viagens espaciais.

O problema não parece ser a teoria em si – muitos membros da sociedade veem a teoria como uma espécie de exercício epistemológico para neófitos nas discussões em metodologia científica ou também um exercício de filosofia solipsista para iniciantes.


Cartografias imaginárias


A questão é que historicamente, pela recorrência, essas pseudociências têm se demonstrado como sintomas de radicalizações políticas sérias. O apego a epistemes antigas e medievais como fossem a própria expressão do atual radicalismo político e conservadorismo. Como mostramos em postagem anterior sobre um autêntico bestiário de ideias que supostamente teriam sido superadas pela Ciência e que retornam na atualidade: neodarwinismo, malthusianismo, antropologia criminal etc. – clique aqui.

Mas numa coisa os teóricos da Terra Plana têm razão: há uma natureza político-imaginária nas representações cartográficas do planeta. A cartografia não é um simples representação de um território, mas uma  expressão de poder, da divisão de classes e reprodução de hierarquias.

Por exemplo, nos primeiros mapas portugueses na época das grandes navegações do século XVI o mundo é representado invertido – forma de expressar que os navegadores não se dirigiam para baixo (o Inferno ou os abismos) mas para cima, em direção aos céus. Com institucionalização do império marítimo e as colônias, Portugal e Espanha são colocados na parte superior do mapa, expressando superioridade em relação às colônias, abaixo.


Modelo hierárquico mantido, primeiro com o império britânico nos séculos XIX-XX. E hoje com o modelo de globalização norte-americano.

Mapas são maneiras arbitrárias e convencionais de organizar o espaço. Não existe o “em cima” e o “em baixo”.

A representação cartográfica da ONU, por exemplo, procura a igualdade ao organizar o planeta posicionando o Polo Norte no centro e os continente espalhados em uma representação plana – o que só incendeia a imaginação conspiratória dos terraplanistas: a ONU estaria revelando a verdade, mas de forma cifrada...

Ou como Thomas Dolby falava na música Flat Earth: “A Terra pode ter a forma que você quiser”.

"Guerra Total" na crise política com os filmes "Polícia Federal" e "Real", por Wilson Roberto Vieira Ferreira.


Espera-se para esse ano o lançamento de dois filmes nacionais que aproveitam a atmosfera da atual crise política. O thriller judiciário “Polícia Federal: A Lei é Para Todos” e um “thriller econômico” - “Real: O Plano por Trás da História”, sobre o Plano Real e a derrota da hiperinflação. “Esculhambação da Polícia Federal e do Judiciário” (pelo fato da PF ter cedido equipamentos, gravações de vídeos e informações sigilosas para uma produção privada sobre uma investigação ainda em andamento) e “propaganda tucana” foram algumas reações das esquerdas. Qual é a surpresa? Como em toda a História, os conquistadores chegam ao poder determinados a exterminar os vencidos. Desde o nazi-fascismo esse extermínio tornou-se simbólico por meio da “Guerra Total”: a conquista de corações e mentes através do cinema e audiovisual. Assim como o Governo dos EUA fornece armas, aviões e soldados reais para as produções patrióticas hollywoodianas, a PF transforma sua sede de Curitiba em “laboratório de interpretação” para os atores. Dentro do espectro político, quanto mais nos dirigimos à direita vemos uma aplicação mais eficiente das armas da comunicação. Como demonstrou Donald Trump na semana passada em suas incursões pela Internet e redes sociais nas madrugadas.

Desde as grandes manifestações de 2013-14, os movimentos que resultaram no impeachment e a posse do desinterino Michel Temer funcionaram com a precisão de um relógio suíço ou como fosse uma tacada certeira num jogo de sinuca – uma bolinha bate na outra até todas caírem nas caçapas.

Começou com ondas de choque na opinião pública por meio de bombas semióticas detonadas pela grande mídia (sobre o conceito de bombas semióticas clique aqui), a crise econômica autorrealizável, o impeachment de Dilma, o “tic-tac” preciso das decisões do STF, a desconstrução do sistema partidário pela Operação Lava Jato deixando o poder vago para ser ocupado pela Polícia Federal, as reformas trabalhistas e previdenciárias a fórceps e o desmonte dos setores estratégicos do País como a engenharia, petróleo e energia nuclear.

Esse grande arco golpista político-jurídico-midiático não está para brincadeira, cuja ação se assemelha a uma blitzkrieg planejada aqui e fora do País com tempos de antecedência – sobre isso clique aqui.


Tanto é verdade que o próximo passo é o da própria legitimação através da narrativa ficcional cinematográfica. Tática com um claro ardil: toda narrativa ficcional é caracterizada pela suspensão da descrença, tornando irrelevante para roteiristas e espectadores saber se a história contada é real ou não.

O que torna o filme uma perfeita peça de propaganda pela possibilidade de esconder por trás da ficção intenções políticas ou mercadológicas.

Cinema e percepção pública


É esperado para junho e julho desse ano duas produções nacionais, claramente ferramentas muito mais do que de engenharia de opinião pública, mas de percepção pública – reforçar predisposições anteriormente criadas pelas sucessivas ondas de choque no contínuo midiático dos últimos anos.

A  primeira produção é sobre investigações ainda em andamento pela Polícia e Justiça Federal no âmbito da Operação Lava Jato: Polícia Federal: a Lei é para Todos do diretor Marcelo Antunez; e a segunda, chamada Real: O Plano por trás da História, filme com o propósito de inventar, por assim dizer, uma “cosmogênese” - o marco inicial da história brasileira recente a partir da derrota da hiperinflação pelo Plano Real nos anos 1990, perpetrado pelos economistas da mesma banca financeira que atualmente é a eminência parda do golpe político.

"Real: O Plano por Trás da História": super-heróis da banca financeira

E ainda é esperado para o ano que vem uma série Netflix sobre a Operação Lava Jato cujo diretor brasileiro José Padilha (Tropa de Elite e o seriado Narcos) já antecipa em entrevistas seu posicionamento: "Temer e Dilma foram eleitos com dinheiro de caixa dois e de corrupção, aportado na sua campanha por uma quadrilha que achacou o estado. Desde sempre estiveram ilegais na Presidência da República. Todos nós sabemos disso”.

Pelo menos Padilha é sincero e não simula isenção e apartidarismo como os diretores das produções que serão lançadas nesse ano.

“Esculhambação”


As esquerdas vêm denunciando as circunstâncias das produções desses filmes como uma grave amostra da “esculhambação” em que se tornou a Polícia Federal e o Judiciário: como pode ser lançado um filme sobre investigações ainda em andamento no qual certamente a narrativa tomará partido? Como a Polícia Federal cede imagens gravadas sobre a condução coercitiva de Lula para a produção do filme Polícia Federal? E mais: como o juiz Sérgio Moro permite o livre acesso de atores e produtores aos cárceres de Curitiba e ainda entregando dados sigilosos do inquérito de Lula?

Segundo o ator Ary Fontoura (que interpretará Lula), tudo aconteceu “para que pudesse trabalhar melhor o personagem”. Atores fazendo “laboratório de interpretação” nas carceragens e tendo acesso a processos supostamente sigilosos? Confraternizações entre produtores e atores com delegados da Polícia Federal e procuradores?
Ary Fontoura: fazendo "laboratório" na PF

Qual a surpresa?!?! Esse é mais um movimento calculado de uma estratégia sistemática que, parece, só o PT e os governos lulopetistas foram pegos de surpresa, resultado de anos de displicência em relação às políticas de comunicação social.

Se, como falam, o juiz Sérgio Moro é o “homem das camisas pretas”, numa referência às camisas pretas dos fascistas italianos e à inspiração de Moro na Operação Mãos Limpas italiana, deveriam saber que esse passo cinematográfico do golpe em andamento é uma histórica e conhecida tática de propaganda iniciada com o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial.

O consórcio formado pela mídia, judiciário, política e banca financeira (para ficar apenas dentro do Brasil) chegou ao Estado. E agora, procurará se legitimar por meio de uma narrativa audiovisual que o coloque em alguma lugar na História.

O gênio do nazi-fascismo no cinema


No passado os povos conquistadores sempre dominavam os vencidos seja através puro extermínio, pela “limpeza étnica” (estupros ou rapto de mulheres), pela escravização ou o domínio das almas através da sistemática destruição de todo traço cultural ou histórico – monumentos, arte, roubo de fortunas ou a apropriação de simbolismos religiosos ou pagãos.

O gênio do nazi-fascismo foi substituir tudo isso pela conquista de corações e mentes não só por meio das armas, mas também pelo cinema – a essência da noção de blitzkrieg ou “guerra total”. A guerra não é só travada no campo de batalha mas principalmente no campo do imaginário e da estetização da política.
Hitler e Mussolini: obcecados pelo cinema

Tanto Hitler como Mussolini eram obcecados por cinema. Depois de nazistas e fascistas promoverem e financiarem ativamente filmes americanos que promoviam valores arianos e fascistas como Capitain Courageous (1937) ou The Eternal City (1922, no qual o próprio Mussolini tinha participação) lançado no mesmo ano da Grande Marcha dos fascistas (com camisas pretas) sobre Roma, tanto Alemanha como Itália investiram nas  produções próprias.

Benito Mussolini inaugurando a versão hollywoodiana italiana, a Cinecittà – Mussolini afirmou na inauguração e lançamento do filme Camicia Nera (Camisa Negra) que “o cinema é a arma mais forte do regime fascista”; e Hitler estimulando financeiramente a produtora UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft), com produção de filmes com temas nacionalistas, exaltação ao herói ariano, militarismo e anticomunismo. 

Como mostrou o filme Bastardos Inglórios (2009) de Tarantino, após cada invasão relâmpago nazista em países como a França, junto com os oficiais seguiam rolos de filmes alemães para serem assistidos compulsoriamente pelos vencidos.

Da Cinecittà a Hollywood


A mundialização das produções hollywoodianas no pós-guerra foi a continuidade da estratégia nazifascista. Apenas que agora não temos mais oficiais levam rolos de filme para o front, mas empresas distribuidoras – apesar de ações no campo de batalha como ocorreu na cidade de Cabul ao ser invadida pelas tropas norte-americanas na guerra do Afeganistão pós-9/11: carros com autofalantes circulavam na cidade tocando músicas de FMs dos EUA.
Calloni: mais um "laboratório" na PF

Enquanto as esquerdas ficaram atreladas ao economicismo e a tese de que a consciência de classe evoluiria juntamente com as “condições objetivas da História” (ou de que as políticas neodesenvolvimentistas dos governos petistas, fazendo as massas ascenderem ao mercado de consumo, criariam inclusão e cidadania), a extrema-direita e governos conservadores mantiveram  o agudo apreço pela comunicação – compreenderam a essência da propaganda nazifascista.

Trump e o Twitter


Um exemplo foi dado na semana passada pelo presidente norte-americano Donald Trump. No seu perfil do Twitter, em algum momento depois da meia-noite, aparentemente Trump navegava pela Internet até cair em um blog que é uma das referencias cinematográficas do Cinegnose: o 366 Weird Movies, um blog especializado em “filmes estranhos”, cult e surrealistas.

Tuitou a seguinte mensagem: 
“me deparei hoje com o @366 weird movies. É nisso que os liberais estão perdendo seu tempo. Triste”.
Por que Trump gastava seu tempo e indignação com um blog de tão baixo tráfego devotado a filmes que certamente ele tem interesse zero? Logo depois, temos a resposta: 
“Por que o 'Labirinto do Fauno' está na lista e não 'Ghosts Can’t Do It'? Que perdedores! Eles não sabem mesmo o que é estranho”.
O presidente estava se referindo ao filme Fantasmas Não Transam (1989) com Bo Derek e Anthonny Quinn, no qual ele tem uma participação interpretando a si mesmo. Ficou indignado porque “seu” filme estava fora da lista dos “filmes estranhos” do blog - veja abaixo cena com Donald Trump no filme.

Esse episódio não foi mera idiossincrasia de um folclórico Trump, mas parte de uma planejada ação em redes sociais. Como sempre, Trump demonstra seu interesse estratégico em mídia, seja atacando-a, seja se aproveitando dela.

“A história real é mais entediante”


A atual estratégia de legitimação do golpe por meio do cinema e audiovisual (afinal, depor uma presidenta eleita para impor uma agenda de reformas radicais que jamais venceria uma eleição é uma ação séria e de longo prazo) através de uma bateria de filmes e séries (segundo os produtores do filme Polícia Federal, a intenção é transformá-lo posteriormente em série) é uma manobra difícil.

Afinal, um thriller judiciário e outro econômico não é exatamente uma temática fácil e popular para diretores cuja experiência foi dirigir comédias de apelo popular como Até Que a Sorte Nos Separe ou Qualquer Gato Vira-lata. Como disse o diretor Marcelo Antunez, “a história real da Lava Jato é muito entediante”, para explicar seu desafio em transformá-la em thriller.

Porém, como evidencia essa safra de lançamentos de filmes e séries de eventos que ainda estão em desdobramento, o atual golpe político brasileiro tem natureza e gênese muito mais ampla, estratégica e calculada do que se possa imaginar. 


Uma aposta golpista tão séria que é difícil pensar que permitirão que as eleições de 2018 desfaçam tudo que foi tão astutamente planejado.