sexta-feira, 21 de julho de 2017

HOMEM-PAREDE, por ALEXANDRE MEIRA (Poema)



Quem é você Homem-Parede,
que sob estampidos nega tua história,
marchando no caos e alimentando gritos,
cuspindo medo e balas de borracha?

Quem é você que brinca de morte
e liberta orgulhoso os monstros de si?
Que pelo silêncio corta as línguas!
Que pela censura martela os dedos!

Por que não tira logo, moleque,
essa toga, que te faz sem juízo?
Ditando regras se nunca as teve,
brincando de Deus, no Juízo Final!

Já que o terror te saliva,
ou o golpe, sem remorso,
sacia de vez a sede com lágrima,
o pavor que nasce da "libertina".

Pois és libertária, sim, a menina do povo,
já mulher parida de alma escarlate,
que briga por teus cegos olhos,
e o olhar de quem nem tem sorte.

Mas esbarra em você 
inocente Leviatã,
cujo cabresto não se vê,
de tua alma charlatã!

Pois aquele que te faz filho
bastardo, pra morrer na luta,
adora te ver felar, 
e tu felas!
Filho da puta!

Te faz de menina sem alma escarlate,
esse fascio vazio que não amedronta.  
Vai, sufoca a criança com o gás
de sua inexorável lacrimogênese,
até apodrecer tua mão covarde 
nascida para erguer,
só por erguer,
a merda de um cassetete.







quarta-feira, 19 de julho de 2017

CORAÇÃO PÚRPURA, por Mália Morgado (Poema)

 
Eu carrego esse coração púrpura no peito

Íris de boca aberta com um centro

De leão


Ou como


Bico de pássaro


- dizem que todos são filhos de Deus .


Um manto


Vestal


Mínimas vezes.


Uma aura mística


Intermitente


Como vaga-lumes na moita ou


Fogo-fátuo.


Mas


Esse coração é violáceo


Ora violento


Ora violeta


Veludo vivo nos teus


Ásperos dedos

Entenda, definitivamente, por que “racismo reverso” não existe, por Joacine Katar Moreira.

Acreditar no racismo dos oprimidos para com os opressores exigiria que entrássemos numa máquina do tempo que revertesse a História

racismo reverso não existe
Joacine Katar Moreira*, Público
A atenção. “Attenção: Vende-se para o mato uma preta da costa de idade de quarenta e tantos anos, muito sadia e bastante robusta, sabe bem lavar e cozinhar o diário de uma casa, vende-se em conta por haver precisão, no beco Largo, n. 2. Na mesma casa vende-se uma tartaruga verdadeira.
O protesto. “Protesta-se com todo o rigor das leis contra quem tiver dado, e der coito a escrava do abaixo assignado, fugida de seo poder na freguezia do Queimado desde 7 de fevereiro do corrente anno; e gratifica-se, conforme a trabalho da captura, á quem a prender, e levar ao dito seo senhor ali, ou mete-la nas cadêas da capital. […] Levou uma filha de sua côr, que terá pico mais de anno de idade. O padre Duarte.
A fuga. “Escravo fugido. Acha-se fugido desde o dia 3 de março passado, o escravo de nome Joaquim, de nação Congo, edade 61 annos, mais ou menos, côr preta, cabelos brancos, tanto os da barba como os da cabeça, olhos grandes, bons dentes, bastante baixo, tendo o dedo grande da mão direita mutilado.
Estes excertos, expostos no Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro, em Cacheu — importante entreposto comercial de escravizados na Guiné-Bissau —, ilustram a forma como as relações raciais, fruto do colonialismo e da Escravatura, passaram da “diferença negativa à coisificação do Africano” (Isabel C. Henriques), comparado, tratado e marcado como animal doméstico, de carga e de serviço, retirando-lhe toda e qualquer dignidade e submetendo-o às mais brutais violências e, com o tráfico negreiro, sujeito a uma desumanização de difícil equiparação na História mundial. A vida média de uma pessoa uma vez escravizada era, aliás, de dez anos, como observou António Carreira em Notas sobre o Tráfico Português de Escravos, de 1978.
O comércio transatlântico de pessoas escravizadas foi legal e sujeito a impostos como qualquer outra transação. A Igreja Católica suportou religiosa e moralmente a Escravatura, que tinha propósitos essencialmente comerciais e políticos. Mais tarde, a Revolução Industrial, cujo motor foi o algodão (Sven Beckert) — algodão este cultivado por gente escravizada nas Américas, como recordou Noam Chomsky —, originaria o fim legal do tráfico, mas não o da Escravatura, que servia a industrialização e o desenvolvimento a Ocidente por mais algum tempo. Marcus Rediker destaca a centralidade da Escravatura e do trabalho forçado no surgimento do capitalismo, considerando que “os navios negreiros foram o vector da produção das categorias de ‘raças’”. E é deste contexto que surge o que denominamos de racismo, uma opressão histórica, violência sistémica, uma relação de poder e de profunda desigualdade. E é por isso que o racismo está intrinsecamente, e historicamente, ligado à inferiorização dos negros (e não dos brancos).
Neste quadro, acreditar na existência de “racismo reverso”, ou seja, no racismo dos oprimidos para com os opressores, exigiria, como ironizou o comediante Aamer Rahman, que entrássemos numa máquina do tempo que revertesse a História e alterássemos as posições de poder. Mas não há forma de reverter a História, mesmo com tentativas várias de naturalizá-la, de negá-la ou de manipulá-la. Torna-se pois importante ter atenção ao tempo em que vivemos, onde se continua a insistir em paradigmas do passado, recusando-se mudanças estruturais.
Avalizar o “racismo reverso” é tentar boicotar o movimento anti-racista, silenciar as vozes negras e subalternizadas que legitimamente se levantam, tentando também reduzir o racismo a uma questão de “natureza humana”, portanto natural. Em tal equação toda a gente pode ser racista com toda a gente, esquecendo que nesse “toda a gente” há gente que oprime e gente que é oprimida; há gente que detém o poder e gente que luta pela visibilidade dentro das sociedades em que se encontra; e há gente que usufrui ainda hoje do privilégio da herança escravocrata e gente que, pelo contrário, carrega esse fardo, que se traduz na segregação racial, na pobreza e na exclusão social.
A atenção. As associações de afrodescendentes caracterizam o “racismo reverso” como “uma tentativa de legitimação do contínuo controlo exercido sobre povos que sofreram séculos de opressão, por medo de uma hipotética retaliação” (AFROLIS); “uma construção daqueles que pretendem fugir à discussão do verdadeiro problema: o racismo estrutural” (DJASS); “um modo de mascarar o racismo perverso e silencioso em que vivemos” (FEMAFRO); “uma reação por parte de quem deseja preservar uma estrutura racista que lhe confere certos privilégios” (PLATAFORMA GUETO). Sintetizando: “o racismo reverso não existe”, sendo que o que existe é ”uma resposta de ‘auto defesa’ de quem sofre a discriminação racial” (SOS RACISMO).
O protesto. O racismo implica uma expressão colectiva marcada pela história, pelo poder e pelo epistemicídio africano, o que faz com que mesmo quando é protagonizado por um só indivíduo, este fá-lo com base num contexto que sustenta e demarca historicamente o seu comportamento. Um negro pode discriminar e ser preconceituoso com um branco, mas não pode ser racista com ele, porque este último não tem estruturas (históricas, politicas, econômicas e sociais) que o oprimam com base no seu fenótipo.
A fuga. Aos que acreditam na falácia do “racismo reverso” ou na subtileza do racismo em Portugal, repito o exercício que Jane Elliot fez com a plateia de uma conferência nos EUA: quem gostaria de ser tratado como os negros são tratados neste país, que se levante!

Historiadora negra dá resposta brilhante ao ser questionada “se faz faxina”, por Luana Tolentino.

“Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina...”. Mestranda, historiadora e professora responde de maneira precisa questionamento oriundo do nosso racismo institucional enraizado

historiadora mestre negra faxina preconceito racismo luana tolentino
Luana Tolentino (reprodução)
Luana Tolentino, via Facebook
Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina.
Altiva e segura, respondi:
– Não. Faço mestrado. Sou professora.
Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa.
Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade.
O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura.
No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.
É esse olhar que fez com que o porteiro perguntasse no meu primeiro dia de trabalho se eu estava procurando vaga para serviços gerais. É essa mentalidade que levou um porteiro a perguntar se eu era a faxineira de uma amiga que fui visitar. É essa construção racista que induziu uma recepcionista da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, a questionar se fui convidada por alguém, quando na verdade, eu era uma das homenageadas.
Não importa os caminhos que a vida me leve, os espaços que eu transite, os títulos que eu venha a ter, os prêmios que eu receba. Perguntas como a feita pela senhora que nem sequer sei o nome em algum momento ecoarão nos meus ouvidos. É o que nos lembra o grande Mestre Milton Santos:
Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre, (…) não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico.”
É o que também afirma Ângela Davis. E ela vai além. Segundo a intelectual negra norte-americana, sempre haverá alguém para nos chamar de “macaca/o“. Desde a tenra idade os brancos sabem que nenhum outro xingamento fere de maneira tão profunda a nossa alma e a nossa dignidade.
O racismo é uma chaga da humanidade. Dificilmente as manifestações racistas serão extirpadas por completo. Em função disso, Ângela Davis nos encoraja a concentrar todos os nossos esforços no combate ao racismo institucional.
É o racismo institucional que cria mecanismos para a construção de imagens que nos depreciam e inferiorizam.
É ele que empurra a população negra para a pobreza e para a miséria. No Brasil, “a pobreza tem cor. A pobreza é negra.”
É o racismo institucional que impede que os crimes de racismo sejam punidos.
É ele também que impõe à população negra os maiores índices de analfabetismo e evasão escolar.
É o racismo institucional que “autoriza” a polícia a executar jovens negros com tiros de fuzil na cabeça, na nuca e nas costas.
É o racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas da mortalidade materna.
É o racismo institucional que alija os negros dos espaços de poder.
O racismo institucional é o nosso maior inimigo. É contra ele que devemos lutar.
A recente aprovação da política de cotas na UNICAMP e na USP evidencia que estamos no caminho certo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Xadrez da guerra final entre Temer e a Globo, por Luis Nassif.


A ópera do impeachment vai chegando a uma segunda onda decisiva, com o vale-tudo que se instaurou envolvendo os dois principais personagens da trama: a organização comandada por Michel Temer; e a organização influenciada pela Rede Globo.
Do lado da Globo alinha-se a Procuradoria Geral da República e a Lava Jato. Do lado de Temer, o centrão, o Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), alguns grupos de mídia, como a Rede Record, e provavelmente políticos jogados no fogo do inferno, como Aécio Neves.
No pano de fundo, o agravamento da crise, com um plano econômico inviável aplicado por economistas radicais valendo-se do vácuo político. E, fora das fronteiras, ventos complicados ameaçando botar mais lenha na fogueira.
O caos – que irá se ampliar nos próximos dias – é resultado direto da quebra da institucionalidade, com a Lava Jato e o impeachment. No mínimo servirá para que cabeças superficiais, como o Ministro Luís Roberto Barroso, se deem conta da imprudência que cometeram ao cederem às pressões especialmente da Rede Globo.
Aliás, quando os pecados da Globo estiverem à mostra, não se espere do bravo Barroso nenhuma declaração de fé irrestrita no combate à corrupção e de apuração até o final, doa a quem doer. Voltaremos a conviver com um garantista, cuja sensibilidade em defesa dos direitos será enaltecida pela Globonews, o espelho, espelho, seu.
Os próximos capítulos contêm pólvora pura:

Peça 1 – a Globo sob pressão

Pela primeira vez, desde a redemocratização, a Globo encontra um poder à sua altura, isto é, sem nenhum prurido, disposto a se valer de todas as armas à mão para encará-la. Uma coisa foi aliar-se ao Ministério Público Federal (MPF) para conspirar contra Lula e Dilma e sua incapacidade crônica de se valer dos instrumentos de poder. Outra coisa, é enfrentar pesos-pesados, pessoas do calibre e da falta de escrúpulos de um Eliseu Padilha, Aécio Neves.
Temer e sua quadrilha tem a força da presidência. E quem os colocou lá foram justamente a Globo, a Lava Jato e a PGR. Agora, a mão e as verbas do Planalto estão por trás dos ataques da TV Record à Globo. Ou julgaram que o pior grupo político da história aceitaria ir para o patíbulo sem se defender?
Não apenas isso.
Ontem, a Justiça espanhola emitiu uma ordem de prisão e captura contra Ricardo Teixeira, ex-presidente de CBF, por corrupção praticada no Brasil. E, no centro da corrupção, a compra dos direitos de transmissão da Copa Brasil pela Globo, com pagamento de propina.
O carnaval feito pela Globo, com a delação da JBS, visou justamente abafar a divulgação de seu envolvimento com o escândalo, levantado pelo Ministério Público Espanhol e pelo FBI.
No “Xadrez de como a Globo caiu nas mãos do FBI” detalhamos esse caso, mostrando como, no início da Lava Jato, já havia indícios de que o FBI já tinha a Globo nas mãos, a partir da delação de J.Hawila, o parceiro da emissora na criação do know-how de corrupção de compra de direitos de transmissão, posteriormente levado por João Havelange para a FIFA.

Peça 2 – o nó da cooperação internacional e o PGR

Encrenca grande também aguarda o PGR Rodrigo Janot, em visita aos Estados Unidos.
Nos próximos dias deverão aparecer pistas de operações de cooperação com o FBI onde ficará mais claro a montagem de uma parceria supranacional que afronta explicitamente a noção de soberania nacional. É possível que o PGR tenha pedido ajuda do FBI contra um presidente da República. Se confirmado, cria-se uma crise aguda, com o atropelo inédito à soberania nacional, mesmo que na ponta investigada esteja um político desqualificado como Temer.
Além disso, exporá ainda mais a cumplicidade da PGR com a Globo, especialmente se nada for feito em relação a Ricardo Teixeira. Poderia um PGR entregar um brasileiro para ser julgado pela Justiça de outro país, por crimes cometidos aqui? Pelos princípios de soberania nacional, de modo algum.
Mas como se explicaria o fato dos crimes jamais terem sido apurados no Brasil, nem no âmbito da cooperação internacional? E, ao mesmo tempo, se ter valido da cooperação internacional contra presidentes da República?
Como se explicaria a enorme blindagem de Ricardo Teixeira que, no fundo, significa a blindagem às Organizações Globo?
Quando começou a ficar claro a falta de regras e de limites para a cooperação internacional, prenunciamos aqui que mais cedo ou mais tarde o PGR seria submetido a um julgamento por crime de lesa-pátria. O exemplo maior foi trazer dos Estados Unidos documentos destinados a torpedear o programa nuclear brasileiro.

Peça 3 – a desmoralização final da República

E, agora, como ficará a PGR ante a exposição da Globo a diversas acusações? Do lado da Espanha e do FBI, o caso CBF-Copa Brasil. Do lado de Temer, os ataques às jogadas fiscais da Globo. E, de sobra, as suspeitas de que a Lava Jato estaria impedindo a delação do ex-Ministro da Fazenda Antônio Palocci, justamente por poder atingir a aliada Globo.
A impunidade da Globo significará a desmoralização final do MPF, da Justiça e de qualquer veleidade de se ter uma nação civilizada, na qual nenhum poder é intocável. O enfrentamento da Globo, mesmo por uma quadrilha como a de Temer, trinca a imagem de intocabilidade da empresa. Finalmente, quebrou-se o tabu.
Por outro lado, uma eventual vitória de Temer significará a entronização, no poder, de uma organização criminosa.
Finalmente, um acordão significaria um pacto espúrio que não passaria pela garganta da opinião pública.
Não há saída boa.
Todo esse lamaçal foi ocultado, até agora, pelo estratagema de construção de um inimigo geral, Lula e o PT. Foi a repetição de um golpe utilizado em vários momentos ultrajantes da história, do incêndio de Reichstag ao macarthismo, dos processos de Moscou ao golpe de 1964: a criação de um grande inimigo externo, para justificar todos os abusos do grupo vencedor.
Agora o álibi se desgastou como um balão furado, com o nível do rio baixando e expondo todos os dejetos.
A sentença de Sérgio Moro condenando Lula não foi endossada publicamente por ninguém.
Na Folha, o corajoso Elio Gaspari precisou colocar uma enorme ressalva - de que nos Estados Unidos Lula estaria condenado – para admitir que o Código Penal brasileiro não autoriza a condenação de Lula. Esqueceu de lembrar que nos EUA as estripulias de Moro e do MPF não teriam passado da primeira rodada.
Já o advogado Luiz Francisco Carvalho competente penalista, admitiu que não há nenhuma prova sustentando a sentença de Moro, aceitou que Lula não é corrupto. Em vez da condenação dos abusos de Moro, preferiu concentrar-se nas críticas às reações de Lula. Ou então a demonstração de equilibrismo de Carlos Ari Sundfeld, que não é nem contra, nem a favor, muito pelo contrário.
Todas as deformações trazidas pelo golpe ficarão claras, agora.
As ondas trazidas pela quebra da institucionalidade criaram movimentos incontroláveis.
O grupo do impeachment esfacelou-se em mil pedaços, o grupo de Temer, o grupo da Globo, um PSDB partido ao meio, um PGR que enfiou o MPF em uma aventura irresponsável, a Lava Jato esvaindo-se nos seus próprios exageros.
E agora, José? No inferno, Eduardo Cunha dá boas gargalhadas e prepara seu tridente.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O que Palocci tem a dizer sobre a Globo na delação premiada?, por GGN.



Jornal GGN - Há alguns dias, a revista Veja divulgou uma nota informando que a delação premiada de Antonio Palocci tem um "anexo que entra e sai" exclusivamente dedicado à Rede Globo. O que o ex-ministro da Fazenda tem a dizer sobre o império erguido pela família Marinho, que esteve bem perto de quebrar no início dos anos 2000?
Diante de Sergio Moro, em abril passado, Palocci deu uma dica: poderia colaborar com a Lava Jato entregando negociações que ocorreram nos bastidores de Brasília para "salvar" empresas de comunicação que, sem a ajuda do governo, corriam sério risco de quebrar. 
Reportagem veiculada pela Record, no domingo (16), mostra que a Globo se beneficiou da edição da lei 12.996, que abriu uma brecha para que a emissora pudesse pagar parte da dívida que tem com a União, com 100% de desconto em multa. Ou seja, o grupo devolveu R$ 1 bilhão referente a impostos sonegados aos cofres públicos, mas deixou de pagar outro R$ 1 bilhão em multa, diz a matéria. 
 
 Palocci poderia, entre outros pontos, revelar a eventual pressão exercida pela Globo para conseguir essa janela e se beneficiar do não pagamento de multas.
 
Ainda segundo a reportagem, o governo passou a investigar a Globo, através da Receita federal, em meados do ano 2005. As autoridades haviam descoberto o esquema da emissora para comprar direitos de transmissão de grandes eventos esportivos da Fifa sem pagar nenhum imposto no Brasil. 
 
A "operação fraudulenta" acontecia através da empresa com nome Empire, que a Globo abriu em um paraíso fiscal para adquirir os direitos de transmissão. "Assim que a Empire ficou com o direito da Copa do Mundo, ela foi dissolvida e transferiu os bens para a Globo. Só com essa manobra, Globo deixou de pagar R$ 170 milhões em impostos no Brasil."
 
A Receita chegou a acusar a Globo de simulação, multou em 150% sobre o valor do imposto sonegado e pretendia processar a emissora criminalmente. À época, o valor devido em multa e juros passava dos R$ 615 milhões.
 
Mas às vésperas do processo ser entregue ao Ministério Público, uma funcionária da Receita que estava em férias furtou o processo. Ela foi condenada a 4 anos, mas não passou uma semana na cadeia. Teve habeas corpus do Supremo Tribunal Federal. Hoje, ela, que mora em um condomínio luxuoso no Rio de Janeiro, responde em liberdade, diz a reportagem da Record.
 
O veículo ainda mostrou os negócios da Mossak Fonseca e abordou a pressão sobre os procuradores da Lava Jato para não aceitarem a delação de Palocci sobre a Globo.
 
Na sentença em que condenou Palocci a 12 anos de prisão, Sergio Moro deu um sinal de que a delação não deve ser negociada, afirmando que a promessa de cooperação mais parecia uma "ameaça", um recado àqueles que podem ser atingidos, para que dessem um jeito de ajudar o ex-ministro.

Enquanto os EUA correm para o abismo o mundo tenta se salvar, por Noam Chomsky.

"A mudança para o neoliberalismo fez com que decisões da arena pública fossem transferidas para o mercado", diz Noam Chomsky em entrevista ao Russia Today


Russia Today.
"Nós estamos indo na direção de um penhasco e o pior penhasco para o qual estamos nos encaminhando é símbolo dos  sistemas de mercado, " observa Noam Chomsky durante a entrevista que concedeu ao jornalista Chris Hedges, do programa On Contact,  na sua sala do MIT – o Massachussets Institute of Tecnology - onde ele, aos 88 anos de idade, continua dando aulas como professor emérito. Os dois rastrearam a história do neoliberalismo que vem sendo aplicado desde as suas origens, na década de 1970, tanto à esquerda como à direita, até a atual era de Donald Trump.
 
"A mudança para o neoliberalismo fez com que as decisões da arena pública fossem transferidas para o mercado,", disse Chomsky, cujo livro com o título Requiem for the American Dream foi lançado no início deste ano. "É uma ideologia que afirma expandir a liberdade quando de fato aumenta a tirania".
 
‘’O interesse do capital e, especificamente, das corporações transnacionais e das instituições financeiras criou uma "redução democrática" e uma  estagnação ou declínio dos salários para a maioria das populações", analisa o filósofo e lingüista, que defende uma melhor distribuição salarial.

‘’O neoliberalismo coloca os trabalhadores do mundo concorrendo uns com os outros. Deste modo, permite a liberdade do capital e um alto grau de proteção para ele. Por exemplo, os direitos de propriedade intelectual são um imposto enorme sobre a população.’’ Ele observou o domínio exercido pela Microsoft em patentes tecnológicas e os esquemas de evasão fiscal da Apple.

Co-autor do célebre estudo de mídia, de 1992, Manufacturing Consent, ele também diz que essas mudanças foram marcadas pelo "doutrinamento" de adversários que foram marginalizados, alguns até mesmo demitidos de cargos, no seu trabalho, e taxados de "antiamericanos".

"Além dos EUA, eu não conheço nenhum outro país que não seja totalitário ou autoritário onde este conceito surpreendente ainda exista.  Se você criticar a política será rotulado de antiamericano, o que só ocorre nas ditaduras", observa Chomsky cuja fama acadêmica se consolidou com a publicação da sua teoria da gramática universal. Atualmente, ele está particularmente preocupado com as mudanças climáticas e, em particular, com a recente retirada dos EUA do Acordo de Paris assinada pelo então presidente Barack Obama, em 2015.
 
"A posição do grupo da ala selvagem do capitalismo americano, o Partido Republicano, é realmente chocante. O pessoal desse grupo está correndo em direção a um precipício. Os EUA correm para o abismo enquanto o mundo tenta fazer algo para evitar a destruição da vida humana. ’’

O famoso acadêmico e ativista conversou também com Hedges para o site Russia Today – RT - sobre a mudança neoliberal que fez do mercado um déspota e sobre como os EUA silenciam os seus críticos.

Russia Today: Existem dez diretrizes que mostram a concentração de riqueza e poder apontadas em Requiem para o sonho americano, baseado em um documentário que você produziu. A primeira é "reduzir a democracia". O que você quer dizer com isso?
 
Noam Chomsky: Primeiro eu devo dizer que a construção desses dez pontos é o resultado de uma contribuição dos editores do livro. Trata-se da consolidação bastante eficaz de horas e horas de entrevistas e discussões entre nós e que foi organizada dessa forma por eles. "Reduzir a democracia" significa a marginalização gradual da população. A redução do papel da população em geral, no que diz respeito à tomada de decisão na arena pública, foi uma consequência esperada e previsível da introdução da transição para os ditames neoliberais dos anos 70 em diante. Há, basicamente, duas fases da história socioeconômica americana pós-guerra. A primeira, às vezes chamada de capitalismo regulado, o liberalismo incorporado dos anos 50 e 60. Foi um período de crescimento muito elevado, de crescimento igualitário e de alguns movimentos que apontavam para a justiça social, na década de 60. Então, houve um aumento substancial da participação democrática e as pessoas se envolveram de verdade na arena pública. Tudo isso teve vários efeitos. Um efeito foi a redução, a queda da taxa de lucro. Segundo efeito, as pessoas se tornaram interessadas e se envolveram nos assuntos públicos.

RT: É o que Samuel Huntington chamou de "excesso de democracia"?


NC: "Excesso de democracia". Duas publicações muito importantes surgiram no início dos anos 70, ambas apontando para essa teoria. Interessantes, porque eram extremos opostos do espectro político, mas basicamente chegaram à mesma conclusão embora com estilos retóricos um tanto diferentes. Um deles foi o memorando The Powell escrito por um advogado corporativo trabalhando para as corporações de tabaco que mais tarde se tornaram alvo da Justiça, na Suprema Corte, sob a administração Nixon. Ele escreveu um memorando, que deveria ser confidencial, mas que vazou para o grupo empresarial da Câmara de Comércio dos EUA. A retórica é bastante fascinante. Powell expressou a sua visão, o que não é incomum entre os que realmente possuem o poder mundial, de que o controle deles teria sido ligeiramente diminuído. Comparava esta situação a uma criança de três anos de idade que não recebe um doce. E isso significaria que o mundo estaria chegando ao fim.
 
RT : Um ataque ao sistema americano da livre empresa, não?

NC: O mundo dos negócios, então, se encontrava sob forte ataque liderado por Ralph Nader e Herbert Marcuse. Um ataque a tudo o que é significativo na vida americana. O memorando diz: "Bem, cuide de nós porque nós, os empresários, basicamente possuímos tudo. Nós somos as grandes empresas que mantêm as universidades e nós não podemos deixar essas crianças que estudam correrem de uma forma selvagem como fazem hoje. Nós podemos delimitar a mídia. Afinal, nós somos detentores do poder. ’’ E ele pede a mobilização do mundo dos negócios para que esse se defenda.

RT: Qual foi o impacto do memorando?

NC: Ele teve um grande impacto no crescimento dos grupos de reflexão de direita, de grande parte da ideologia da extrema direita. Esse é o lado direito do espectro. Aí, você vai para o outro extremo dele: basicamente, o liberalismo da administração Carter. Na verdade, as pessoas que administravam o governo Carter, a Comissão Trilateral com suas democracias industriais: a Europa, o Japão, os EUA - era basicamente composta de internacionalistas liberais. Eles têm uma publicação intitulada A crise da democracia. Para eles, a crise da democracia era motivada pela existência de exagerada democracia. Na década de 1960, muitas pessoas, que em geral eram passivas e apáticas, foram iniciadas na arena política e começaram a pressionar as demandas  dos chamados interesses especiais – grupos de jovens, de pessoas idosas, de agricultores, trabalhadores, ou seja, de todos. Exceto o setor corporativo. Ele não é mencionado porque seria, segundo eles, de interesse nacional. Mas esses ‘’interesses especiais’’ colocaram muita pressão sobre o estado. Dizia-se: precisamos ser mais moderados nessa questão da democracia e as pessoas têm que voltar a ser mais passivas e apáticas. Com alguma nostalgia, Samuel Huntington se referiu ao período em que, como afirmou, Truman conseguiu dirigir o país com a colaboração apenas de alguns advogados e executivos de Wall Street. Então, nessa época, não houve crise de democracia.
 
RT: Vamos então ao seu próximo item: "moldagem da ideologia". Você fala sobre a diferença entre Madison e Aristóteles. Ambos entendiam que se houvesse desigualdade, haveria tensões entre os ricos e os pobres. Madison pedia para o governo reduzir a democracia. Aristóteles, no entanto, diz que a solução, que você obviamente apóia, é reduzir a desigualdade. Seu segundo ponto então é este: ‘’moldando a ideologia’’. Mencionamos o Powell Memo, mencionamos a Comissão Trilateral. Eles, para ser preciso, seccionaram vários segmentos da sociedade. Você comenta sobre a forma como eles criaram projetos arquitetônicos para colégios, por exemplo, de tal modo que grandes manifestações não eram possíveis de serem organizadas nesses espaços. E preconizavam a destruição das instituições públicas. Fale sobre esse processo para que possamos (re)configurar essa ideologia no formato de neoliberalismo.

NC: Eu sugiro que a Comissão Trilateral tenha liderado esses desenvolvimentos. Havia, em certa medida, uma articulação do consenso de elite liberal sobre essas questões. Por essa razão, é bastante interessante examinar a doutrinação dos jovens porque, segundo a ideologia, as instituições responsáveis %u20B%u20Bpelo doutrinamento dos jovens estavam falhando no seu dever.
 
RT: Essa é uma maneira interessante de descrever as instituições educacionais.
NC: É semelhante ao comentário nostálgico sobre Truman ser capaz de dirigir o país com poucos advogados corporativos... Mas esse foi e é o ideal a ser alcançado. Segundo esse ponto de vista deve existir um processo de doutrinação: os alunos não devem ser livres para pensar. Eles não dizem isso às claras, mas insinuam que não devem ser livres para perguntar, pensar e desafiar. Devem apenas aprender o tipo de coisas que estão inscritas no sistema educacional tradicional e que os jovens seriam encorajados a estudar nas escolas e nas universidades. Mas isto é perigoso, porque eles podem questionar muitas verdades eternas, incluindo a de que tem que existir um domínio e um controle por parte da elite. Isso é expresso durante todo o processo educacional.
 
RT: Você acha que eles foram bem sucedidos?

NC: Eles estavam articulando o consenso que depois se desenvolveu. Foram razoavelmente bem sucedidos, sim. Por exemplo, um tipo de modelo de negócio começou a ser imposto em faculdades e universidades. Houve um enorme crescimento da burocracia, passando o equilíbrio do controle da faculdade para o controle burocrático. Houve um aumento acentuado do valor da taxa de matrícula, que teve e tem um efeito disciplinar muito forte. Na década de 1960, o jovem poderia dizer: "Ok, eu vou dar um tempo durante um ano para me envolver no movimento antiguerra ou em um movimento feminista, ou algo assim, e depois volto para estudar e continuar a minha vida". Você não pode mais fazer isto caso tenha um peso enorme de dívidas sobre a sua cabeça.  Se você faz Direito vai pensar: "Eu adoraria ser um advogado de interesse público, mas eu tenho que pagar 200 mil dólares de dívida contraída na faculdade." Então, para pagá-la você tem que procurar trabalhar em um escritório de advocacia corporativo e acaba absorvendo essa cultura. Há muitas maneiras diferentes de impor disciplina...
 
RT: Você também fala sobre como as críticas repentinas do império americano ou do capitalismo americano foram marcadas com o antiamericanismo.

NC: O antiamericanismo é um conceito muito interessante. É um conceito que só existe nos estados totalitários. Por exemplo, se alguém na Itália, digamos, criticasse o governo Berlusconi, ele não seria acusado %u20B%u20Bde ser antiitaliano. Mas na antiga União Soviética, você poderia ser condenado porque seria considerado anti-soviético. E na ditadura militar brasileira você poderia ser tido como um antibrasileiro. Mas, além dos EUA, não conheço nenhum outro país não-totalitário, não autoritário, onde o conceito ainda exista. Esse é um conceito peculiar. Se você é um crítico da política você é antiamericano. Na verdade, isso tem uma origem bíblica muito interessante. O primeiro uso desse conceito foi o rei Acabe, o rei do Mal Supremo, na Bíblia. Ele chamou o profeta Elias e perguntou por que ele contestava Israel, que era a mesma coisa que condenar os atos do Rei do Mal. Esse conceito é básico: se você desafia a autoridade, você se opondo à sociedade, à cultura e à comunidade.



Créditos da foto: .