segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Transição à ditadura, por Luis Felipe Miguel.



Assim como sofremos um golpe de novo tipo, estamos vivendo o início de uma ditadura de novo tipo – a palavra “ditadura” pode parecer excessiva, mas é exatamente disto que se trata.


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 Entrei na universidade no mesmo mês em que um civil voltou à presidência da República no Brasil. Depois de mais de vinte anos de regime autoritário, estávamos frente à possibilidade de reconstruir um governo baseado na soberania popular. Esta conjuntura impactou o ambiente em que eu estava entrando; em toda a minha formação acadêmica, da graduação ao doutorado, um tema central de debate, se não o tema central do debate, foi a transição à democracia. Pois na quadra atual da vida brasileira, uma nova agenda de pesquisa se abre: a transição à ditadura.
 A palavra “ditadura” pode parecer excessiva, mas é exatamente disto que se trata. Sem discutir extensamente o conceito, é possível afirmar que “ditadura” remete a dois sentidos principais, aliás interligados. Por um lado, como oposto de democracia, indica um governo que não tem autorização popular.  Por outro, em contraste com o império da lei, sinaliza um regime em que o poder não é limitado por direitos dos cidadãos e em que a igualdade jurídica é abertamente desrespeitada. O Brasil após o golpe de 2016 caminha nas duas direções.
 A destituição da presidente Dilma Rousseff, sem respaldo na Constituição, representou um golpe de novo tipo, desferido no parlamento, com apoio fundamental do aparato repressivo do Estado, da mídia empresarial e do grande capital em geral. Foi um golpe sem tanques, sem tropas nas ruas, sem líderes fardados. Mas foi um golpe, ainda assim, uma vez que representou o processo pelo qual setores do aparelho de Estado trocaram os governantes por decisão unilateral, modificando as regras do jogo em benefício próprio.
 Assim como sofremos um golpe de novo tipo, estamos vivendo o início de uma ditadura de novo tipo. Alguns talvez prefiram o termo “semidemocracia”, mas eu não acredito nesse eufemismo. O regime eleitoral já é uma “semidemocracia”, uma vez que a soberania popular é muito tênue, muito limitada. Estaríamos entrando, então, numa “semi-semidemocracia”. “Ditadura” é mais direto, corresponde ao núcleo essencial do sentido da palavra e tem a grande vantagem de sinalizar claramente a direção que tomamos: concentração do poder, diminuição da sensibilidade às demandas populares, retração de direitos e ampliação da coerção estatal.
 Essa ditadura não será o regime de um ditador pessoal, até porque nenhum dos possíveis candidatos ao posto tem força suficiente para alcançá-lo. Não será uma ditadura das forças armadas, ainda que sua participação na repressão tenda a crescer. Provavelmente, muitos dos rituais do Estado de direito e da democracia eleitoral serão mantidos, mas cada vez mais esvaziados de sentido.
 Ou seja: a transição que vivemos é de uma democracia insuficiente para uma ditadura velada. As debilidades do arranjo democrático anterior, que era demasiado vulnerável à influência desproporcional de grupos privilegiados, não serão desafiadas, muito pelo contrário. Ao mesmo tempo, alguns procedimentos até agora vigentes estão sendo cortados, seletivamente, de maneira que mesmo o arranjo formal da democracia liberal vai sendo desfigurado.
 A Constituição não foi revogada, mas opera de maneira deturpada e irregular. O caso mais emblemático certamente é a decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no dia 22 de setembro, concedendo ao juiz Sérgio Moro poderes de exceção. O tribunal alegou que as características excepcionais das questões nas quais está envolvido Moro tornam facultativo, para ele, o respeito às regras processuais vigentes. É a própria definição de exceção. Na prática, as garantias constitucionais ficaram suspensas para qualquer um que seja alvo do juiz curitibano. Em suma, lei e Constituição vigoram – ou não – dependendo das circunstâncias e da interpretação que alguns, dotados desse poder, delas fazem.
 Duas semanas depois, no dia 5 de outubro, o Supremo Tribunal Federal decidiu permitir o encarceramento de réus sem que os recursos tenham sido esgotados, anulando o princípio constitucional da presunção de inocência. Vendida como medida para impedir a impunidade dos poderosos, amplia o poder discricionário de um Judiciário que é notoriamente enviesado em suas decisões. Apenas como ilustração, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro afirmou em nota que mais de 40% de seus recursos ao STJ têm efeito positivo. É, portanto, um contingente muito expressivo de pessoas que começariam a cumprir penas depois consideradas injustas.
 No mesmo dia, o STF ratificou e normatizou decisão anterior, permitindo que a polícia invada domicílios sem mandado judicial. Isso se vincula ao aumento generalizado da truculência policial, contra manifestantes, contra estudantes, contra trabalhadores. É algo que vem desde o final do governo Dilma, estimulado pelo clima político de avanço da reação – e também, é necessário ser dito, pela legislação que o próprio governo Dilma aprovou.
 Cumpre assinalar também a volta da tortura a prisioneiros, com motivação política. O encarceramento por tempo indefinido, com o objetivo expresso de “quebrar a resistência” de suspeitos (pois nem réus são) e levá-los à delação, tornou-se rotina no Brasil e é uma forma de abuso de poder, de constrangimento ilegal e, enfim, de tortura. (E antes de que alguém lembre que a tortura a presos comuns nunca se extinguiu no Brasil, cabe ponderar que a extensão da prática em nada melhora a situação dos presos comuns; ao contrário, pode piorá-la.)
 Fica claro que o poder judiciário não está cumprindo o papel de garantidor das regras, o que já fora demonstrado durante o processo de impeachment ilegal. Como sabemos, parte do judiciário foi partícipe ativa do golpe, parte foi cúmplice silenciosa, mas não se encontra ninguém, nas cortes superiores, que tenha se levantado em defesa da democracia brasileira.
 Continuamos a ter eleições. No entanto, as condições da disputa, que sempre foram desiguais, dado o controle dos recursos materiais e dos meios de comunicação de massa, estão ainda mais assimétricas, com a campanha incessante de criminalização do Partido dos Trabalhadores e de todo o lado esquerdo do espectro político. Para as eleições presidenciais de 2018, a grande questão que se coloca à esquerda é se o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva terá condições legais de concorrer. Em relação a seus potenciais concorrentes à direita, todos atingidos por denúncias de corrupção mais graves e com evidências mais sólidas do que aquelas apontadas contra Lula, tal preocupação não existe. E a delegação de poder por via eleitoral foi desmoralizada com a destituição da presidente legítima. Caminhamos para uma situação de disputa eleitoral quase ritualística, com cerceamento das opções colocadas à disposição do eleitorado e tutela dos eleitos.
 Essa criminalização do PT e da esquerda em geral é alimentada pelos meios de comunicação empresariais e pelos poderes de Estado, com destaque agora para a campanha do governo Temer sobre “tirar o país do vermelho”. A agressividade crescente dos militantes da direita, produzida de forma deliberada, tenta emparedar as posições à esquerda, progressistas e democráticas, ao mesmo tempo em que a cassação de registros partidários torna-se uma possibilidade mais palpável.
 O cerco ao ex-presidente Lula, em que uma parte importante do aparelho repressivo do Estado vem sendo mobilizada com o intuito de conseguir provas de uma culpa determinada de antemão, é outro sintoma claro de que deslizamos para um estado de exceção. Quando vigora o império da lei, a investigação sucede à descoberta de evidências que sustentem suspeitas. Se, ao contrário, decide-se promover uma devassa na vida de alguém na esperança de encontrar algo incriminatório, estando depois os juízes “condenados a condenar”, como disse o próprio Lula, não temos mais a igualdade legal. O sistema judiciário funciona na sua aparência, mas perdemos a possibilidade de evocar os valores que deveriam presidi-lo a fim de garantir a vigência das liberdades.
 Em suma, a ditadura se expressa no alinhamento dos três poderes em torno de um projeto claro de retração de direitos individuais e sociais, a ser implantado sem que se busque sequer a anuência formal da maioria da população, por meio das eleições.
 O sintoma mais claro da ditadura que se implanta é a paulatina redução da possibilidade do dissenso. Ela vem aos poucos, mas continuamente. Dentro do Estado, do Itamaraty ao IPEA, não há praticamente espaço em que a caça às bruxas não seja pelo menos insinuada. Vista como foco potencial de divergências, a pesquisa universitária está sendo estrangulada. Decisões judiciais coibindo críticas – em primeiro lugar ao próprio Judiciário e seus agentes, mas não só – tornaram-se cada vez mais costumeiras. Juízes e procuradores, embalados pela onda da campanha mistificadora do Escola Sem Partido, intimidam professores e estudantes que queiram debater em escolas e universidades. O MEC se junta à campanha, exigindo, como fez na semana passada, que estudantes mobilizados sejam denunciados pelas administrações universitárias. É todo um processo de normalização do silenciamento da divergência que está em curso.
 O avanço da censura está ligado à imposição da narrativa única pelos oligopólios da comunicação, parceiros de primeira hora da ditadura em implantação. Isso se dá em várias frentes. Há o estrangulamento econômico dos meios de comunicação independentes, uma política buscada deliberadamente pelo governo Temer – que, ao mesmo tempo, ampliou de forma significativa a remuneração oferecida aos grupos da mídia empresarial.
 Enquanto isso, medidas que impactam seriamente a vida nacional, mudando a lei e a Constituição, são levadas adiante sem qualquer tipo de debate – seja com a sociedade, seja dentro do próprio Congresso Nacional. É um governo que impõe sua vontade, escorado na cumplicidade dos meios de comunicação e no apoio fisiológico da maior parte dos parlamentares. Com isso, não há sequer uma pantomima para fingir que ocorre discussão no Congresso; os projetos tramitam com velocidade recorde, atropelando todos os prazos. Por vezes, praticamente só a oposição discursa – os governistas querem simplesmente cumprir o ritual, o mais rápido que possam. Não há espaço para negociação, nem necessidade de justificação pública aprofundada.
 São muitos os exemplos, mas cito apenas três. A reforma do ensino médio, apresentada sem discussão com pedagogos, professores ou estudantes, por meio de medida provisória. Sem discutir os méritos da reforma ou mesmo o fato de que ela foi justificada com a apresentação de dados falsificados do ENEM, trata-se de uma medida com profundas e complexas implicações, que não poderia prescindir de amplo debate.
 O segundo exemplo é a entrega do pré-sal a empresas estrangeiras, rompendo o consenso sobre a exploração do petróleo brasileiro, construído ao longo de décadas. Por fim, a proposta de emenda constitucional nº 241, que congela o investimento social por vinte anos. Num caso como no outro, são decisões de enorme gravidade, na contramão da vontade popular sistematicamente expressa nas eleições – jamais, na história brasileira, o entreguismo ou a ideia de redução do investimento social foram capazes de ganhar eleições competitivas. Quando chegaram ao governo, foi em períodos de exceção ou por meio de manipulação e ocultamento na campanha eleitoral.
 Seja no caso da entrega do pré-sal, seja no caso da PEC de estrangulamento do investimento público, o debate foi próximo do zero. Com os diferentes grupos da sociedade civil, não se travou nenhum tipo de discussão. Com a opinião pública, o debate foi trocado por uma ofensiva de desinformação, que culminou na equívoca campanha publicitária governamental já citada, a do “tirar o país do vermelho”. No Congresso, a base governista sequer tentou fingir que não estava apenas cumprindo o ritual da aprovação parlamentar.  Não houve qualquer engajamento em discussões com a oposição.
 O fim do monopólio sobre a exploração do pré-sal e a PEC 241 indicam, não por acaso, o programa da ditadura em implantação. A conciliação de classes que os governos do PT tentavam implementar foi rompida unilateralmente pela burguesia. Afinal, são necessários dois para conciliar – adaptando o dito popular, quando um não quer, dois não conciliam. Trata-se, então, de reverter quaisquer vantagens que as classes trabalhadoras e outros grupos subalternos tenham obtido.
 Um elemento importante é o caráter misógino do retrocesso. O golpe retirou da presidência uma mulher, e o fato de que era uma mulher não foi irrelevante. Nós vimos as faixas ofensivas à presidente Dilma Rousseff nas manifestações pelo impeachment. Nós vimos os adesivos pornográficos nos automóveis. Nós vimos as reportagens na imprensa que serviu ao golpe, requentando estereótipos sexistas contra a presidente da República. Nós testemunhamos os integrantes da elite política com suas falas desdenhosas, em que o preconceito de gênero ocupava um lugar que não era desprezível.
 Não se trata apenas do processo de construção da derrubada da presidente eleita. O governo atual está comprometido com o retrocesso na condição feminina, com o reforço de sua posição subordinada e do fechamento da esfera pública a elas. Não se trata apenas do retrocesso simbolizado no ministério formado exclusivamente por homens brancos, embora ele seja significativo. Como também é significativo o retorno do chamado “primeiro-damismo”, em que o papel concedido à mulher na política é o da bem-comportada auxiliar de seu marido, sorrindo nos jantares e patrocinando programas assistenciais. Além disso, há o recrudescimento do discurso familista, que é aquele de exaltação da família tradicional, marcada exatamente pela submissão da mulher. Esse discurso não ressurge por acaso ou apenas por algum tipo de reacionarismo atávico dos novos donos do poder, mas vinculado à política de retração do investimento social e de destruição do nosso incipiente sistema de bem-estar social. Com isso, a responsabilidade pelo cuidado com os mais vulneráveis recai integralmente sobre as famílias, isto é, sobre as mulheres, como o celebrado discurso de estreia de Marcela Temer indicou com clareza exemplar.
 A implantação desse programa exige o silenciamento das vozes contrárias a ele. Trata-se de um projeto extraordinariamente lesivo para a grande maioria do povo brasileiro. Graças à baixíssima educação política da maior parte da população e à campanha incessante da mídia, para muita gente a ficha não caiu. Mas os efeitos da redução dos salários, do aumento do desemprego, do subfinanciamento do Estado e do desmonte dos serviços públicos logo se farão sentir de forma plena. Para conter a inevitável reação popular, será necessária uma escalada repressiva e restrições cada vez maiores aos direitos.
 Essa é a agenda de pesquisa que se abre no momento. Uma dimensão é a retração dos direitos e o desfiguramento das instituições democráticas. Outra é resistência popular que certamente se construirá. Torço para que esta segunda dimensão nos dê muito material para pesquisar, o mais rapidamente possível.
(Este artigo é baseado na intervenção que fiz na mesa-redonda “Conjuntura política”, na última terça-feira, durante o 40º Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais – Anpocs.).

Esquerdas: dos escombros à reconstrução?, por Aldo Fornazieri.

Esquerdas: dos escombros à reconstrução?
por Aldo Fornazieri
As eleições municipais - primeiro e segundo turno - tiveram o efeito de uma bomba termobárica sobre o PT em particular e sobre a esquerda em geral. Com os resultados, as estruturas institucionais de poder foram drasticamente reduzidas. Isto importa perda de capacidade de articulação, de mobilização e de interação política e social. No segundo turno, a derrota do PT foi ampliada: não venceu em nenhuma prefeitura que disputou e do chamado cinturão vermelho da Grande São Paulo não sobrou nada. Em que pese as boas votações no Rio de Janeiro e em Belém, o PSol não consegui se viabilizar como a alternativa de esquerda que imaginava ser.
Das eleições emergiu um cenário que já se tornou mais ou menos óbvio: o grande vitorioso é o PSDB, com o fortalecimento de Alckmin e enfraquecimento de Aécio Neves; partidos pequenos e médios, situados ao centro e à direita, se fortaleceram, o que poderá dificultar a reforma partidária e a introdução da cláusula de barreira; com a vitória de Crivella se fortalece o projeto político da Igreja Universal e o conservadorismo no âmbito dos direitos civis e individuais e no terreno dos valores e costumes; o bloco de sustentação do governo Temer deverá prolongar a sua unidade reforçando a tendência de aprovação de reformas conservadoras; com  viabilização do governo Temer, seja pelas vitórias eleitorais do campo que o apóia seja pela aprovação da PEC 241 por ampla margem na Câmara dos Deputados, a ameaça de afastamento do presidente  pela via de decisão do TSE foi praticamente afastada.
A contraparte do avanço do conservadorismo é a desmobilização, a desorganização, a desorientação, a fragmentação e a cisão das esquerdas. O "fora Temer" perdeu a capacidade mobilizadora e se tornou uma espécie de lamento de inconformados. O combate à PEC 241 foi pífio e as esquerdas e movimentos sociais não foram capazes de apontar uma alternativa. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo vivem um momento de perda de capacidade de articulação e mobilização. Os novos movimentos sociais, dos estudantes que ocupam escolhas aos movimentos de periferia, dos grupos feministas e LGBTs aos círculos e grupos sociais, o que há é uma rejeição e críticas aos partidos de esquerda. Das lideranças democráticas e progressistas, o único que saiu ileso e relativamente fortalecido desse processo foi Ciro Gomes.
As ilusões das esquerdas e os difíceis caminhos da reconstrução
A maior ilusão do PT consiste em alimentar a crença de que um possível fracasso do governo Temer poderá significar a sua ressurreição em 2018. Muitos petistas não se deram conta do que aconteceu com o partido: ele é odiado, rejeitado pelas pessoas em geral e por parcela grande de trabalhadores e classes médias. A recuperação do PT demandará anos. A derrota eleitoral poderá se ampliar em 2018, com uma grave redução de sua bancada federal e com o quase desaparecimento de sua força no Senado. Dos 10 senadores do partido, 8 terão que buscar a reeleição nesse quadro difícil.
Convém lembrar que se o PSDB vencer as eleições em 2018, terá demorado 16 anos para voltar ao poder. O PSDB saiu do governo enfraquecido, mas não destruído. Manteve estruturas de poder e a condição de ser um dos polos da disputas presidenciais em todas as eleições. O PT enfrenta graves limitações de poder e de capacidades políticas e intelectuais. Se nada de extraordinário acontecer, terá que passar uma geração para que o partido possa adquirir maior potência política.
A grande ilusão do PSol é a de que ele poderá ocupar o espaço e a importância que o PT teve. Ocorre que o processo de ascensão do PT se deveu à combinação de uma série de singularidades, ocasiões, circunstâncias, capacidades e lideranças, força política e social e virtuosidades que dificilmente se repetirá na história. O lugar que cada ator pretende ocupar no espaço político não depende apenas da vontade, mas da ocorrência dessas singularidades. Ademais, as idiossincrasias internas do PSol também são um fator limitante ao seu crescimento. O partido deveria se dar por muito satisfeito, levando em conta o que ele é hoje, se um dia chegasse a 10% dos votos nacionais. Já o PC do B, com seu aguçando senso de realismo, parece compreender melhor o espaço político que pode ocupar.
Em que pesem essas ilusões e a paralisia dos partidos ocorrem algumas importantes iniciativas com o objetivo de encontrar novos caminhos para as esquerdas. Duas delas são confluentes numa perspectiva estratégica. A primeira delas diz respeito à ideia da organização de uma frente democrática e progressista, não só para enfrentar as eleições de 2018, mas para criar um campo unificado de partidos e movimentos sociais, mantendo as respectivas pluralidades,  tendo em vista uma perspectiva de futuro. A segunda propõe a realização de um processo de prévias, com filiados e não filiados aos partidos progressistas e de esquerda, visando definir as candidaturas para 2018 e elaborar um programa de governo. Esse processo poderia servir também como instrumento de organização de uma frente. A dificuldade dessas iniciativas reside na pouca propensão dos partidos de esquerda de se unirem, mesmo na desgraça.
Outras iniciativas articulam a estruturação de institutos de estudos e debates, grupos e movimentos políticos e reunião de entidades e movimentos visando enfrentar a pauta conservadora e construir uma agenda política em face da paralisia dos partidos. Os movimentos sociais autônomos devem continuar crescendo e se mobilizando em torno de pautas específicas. Mesmo que sejam refratários aos partidos há a necessidade de construir um diálogo democrático com os mesmos com o objetivo de elaborar um programa universalizante. Os movimentos autônomos que surgiram nos últimos anos, em vários países, foram importantes nas mobilizações, mas mostraram os seus limites nos embates contra as estruturas de poder existentes.
Os imponderáveis da conjuntura
A esmagadora vitória dos partidos conservadores poderá encontrar alguns percalços na caminhada para a sua consolidação rumo as eleições presidenciais. O maior dele são as imponderalibilidades e incertezas que podem brotar da Lava Jato, com as delações da Odebrecht e, possivelmente, de Eduardo Cunha. Essas delações podem provocar estragos nas lideranças nacionais do PSDB e do PMDB. É certo que há movimentos para frear a Lava Jato, anistiar o "caixa 2" e limitar as investigações de corrupção. Alguns desses movimentos são, inclusive, respalados pelo PT em mais um de seus equívocos na vã esperança de que poderá salvar alguns de seus líderes. Essas limitações, anistias e freios visam salvar os políticos do PSDB e do PMDB já que estes ainda não se tornaram réus. Mesmo que essas limitações e anistias venham as ser implementadas, não beneficiarão os petistas, alguns já condenados e outros já réus por imputações que não são de "caixa 2".
As esquerdas precisam distinguir o que são arbitrariedades da Lava Jato da necessidade de investigar e punir também os políticos do PSDB e do PMDB. Devem exigir a renúncia dos ministros citados e denunciar a proteção que se procura estabelecer para o atual governo. Se é verdade que a indignação contra a corrupção foi seletiva, caso não haja uma forte campanha de denúncias contra essas manobras protecionistas, o PT passará para a história carregando com exclusividade o ônus da corrupção do nosso tempo.
O segundo percalço que pode ocorrer é o fracasso do governo Temer e a cisão do seu bloco de sustentação. O programa do governo, sem dúvida, deverá aumentar o desemprego, precarizar as relações  de trabalho, reduzir direitos e provocar o fechamento de fábricas e indústrias. Este tipo de programa, mais radical do que os anos de neoliberalismo de FHC, tende a cindir a base e provocar mobilizações sociais. Dada a crise econômica, o governo tem pouca margem de manobra para enfrentar essa possível situação. O que poderá sobrevir dessas imponderabilidades é imprevisível. Não de pode descartar a possibilidade de um candidato outsider ou aventureiro triunfar em 2018.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política.

A derrota da felicidade, por Claudia Amorim.

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Por que ela, vista pela primeira vez como um ideal coletivo pela Revolução Francesa, engendrou guerra e a morte? E como, ainda assim, há — na política e na arte — aqueles que não se conformam?
Por Claudia Amorim | Imagem: Ron England
Em “O delito de viver”, artigo publicado na obra ensaística Nossa amiga feroz: Breve história da felicidade na expressão contemporânea (1993), Ronaldo Lima Lins discorre com acuidade sobre os impasses da modernidade, focalizando o engendramento da ideia de felicidade como um aspecto social e não apenas individual e o seu percurso até os dias atuais.
O enfoque toma como ponto de partida a declaração do revolucionário Louis Léon de Saint-Just, na Assembleia Nacional Francesa, no auge do processo revolucionário (fins do século XVIII) que instauraria as bases de um novo período da era moderna.
Em seu discurso na referida Assembleia, Saint-Just teria proclamado os novos tempos, nos quais a felicidade inaugurava-se como uma nova ideia na Europa. Lins observa, a partir daí, o percurso dessa utopia da felicidade, construída pela razão soberana, e sua melancólica derrocada na atualidade, em que a simples menção à palavra provoca angústia (LINS, p. 43). Nesse percurso analítico, o autor comenta, sobretudo, os motivos pelos quais, dois séculos após sua proclamação como instauradora de uma nova ordem mais fraterna, igualitária e libertária, a ideia da felicidade esvaziou-se na rigidez com que a humanidade se deteve diante do movimento, sempre resistente àqueles que, inquietos e percebendo os desvios, buscaram reordenar as rotas previamente definidas para a legitimação da felicidade na ordem social.
O caráter verdadeiramente revolucionário desse momento da história, conhecido como “Era das revoluções” foi o de realmente trazer a utopia da felicidade para a realidade desse mundo, afastando-a do caráter messiânico a qual estava associada desde a instituição do cristianismo no Ocidente.
Contudo, a instituição de uma nova ordem acionaria a necessidade de mudança e resultaria na inevitável instabilidade, sempre ameaçadora às sociedades, colocando em risco a exequibilidade do projeto. Para Lins, a “busca da felicidade, quanto maior o empenho em alcançá-la, engendrou o infortúnio, a guerra, a morte”.

Por isso, o bom senso aconselha, ao contrário, o meio-termo, o que significa algo como uma conformação cotidiana à frustração, a mediocridade escolhida como alvo prioritário da existência. Ver mas não tudo, falar pouco, ouvir o suficiente para eximir-se de compromissos – são os conselhos conhecidos de autopreservação. As decisões, que as tomem outros, ousados, que não se conformam com o que têm e se colocam em risco.” (LINS, 1993, p. 35).

O risco é a aposta de alguns poucos que não se contentam com a conformação aconselhada pelo bom senso. Contudo, esticando a corda da existência, como lembra o autor, os que sustentam o risco “registram-se na memória coletiva, favorável ou desfavoravelmente, como seres meio loucos, inquietos, gente que deseja mais, sempre mais, e que jamais se entrega à docilidade”. (LINS, 1993, p. 35). O preço do não conformismo é, quase sempre, a incompreensão e a solidão.
Nesse sentido, viver e arriscar-se parecem estar ligados a um delito, como também não escapam do delito de viver aqueles que se conformam com o estado das coisas, movidos apenas pela autopreservação.
Os poucos que se arriscaram não lograram corrigir as rotas que desviaram uma ideia de felicidade que se sustentou até bem pouco tempo. Como salienta o autor, “a felicidade sobrevoa os nossos projetos sem descer ao cotidiano das coisas, marcado pela ausência, pela carência, pela solidão”. (1993, p. 43)
Para concluir, diríamos nós, inspiradas nesse belo ensaio de Ronaldo Lima Lins, que à felicidade que sobrevoa nossos projetos, a sociedade pós-moderna do século XXI parece ter sobreposto o hedonismo, transformando a felicidade em apelo imediato, consumível e substituível por outro qualquer objeto de consumo, o que parece nos levar do delito de viver à ausência de sentido da própria vida.
Nesse sentido, o ensaio de Ronaldo Lima Lins, embora publicado no fim do século passado, mostra-se atual e leitura indispensável para se pensar os destinos humanos na nossa era pós-moderna, exercício do qual o autor não se furta nos anos seguintes, ao publicar outras obras ensaísticas que com essa dialogam como A indiferença pós-moderna (2006), A construção e a destruição do conhecimento (2009), e a recentíssima O saber e os ventos do não saber (2016).

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A história oculta dos jogos de esquerda, por Antonio Martins.

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Elizabeth Magie, a criadora de “Banco Imobiliário”, via no jogo uma forma de denunciar injustiça da gentrificação
Ela começa — acredite! — com a primeira versão de Banco Imobiliário. Passa por tabuleiros feministas está presente no Brasil contemporâneo
Por Antonio Martins
Todo bom jogo — dos esportivos aos de mesa — é uma metáfora da vida; portanto, a criação das regras promove certos valores e desestimula outros, numa espécie de luta de classes (e de projetos de futuro) simbólica. Um texto publicado há dias no excelente site norte-americano Truthout  conta a história pouquíssimo conhecida dos jogos orientados por ideias de esquerda. Conhecê-la é ainda mais importante numa época em que as gerações novíssimas são permanentemente convidadas a um mundo paralelo de games eletrônicos, vistos às vezes como mais interessantes que a vida social…
Assinado por Brian Van Slyke, o texto de Truthout traz, desde o início, revelações provocadoras. Tome, por exemplo, o jogo brasileiro Banco Imobiliário, É uma versão do norte-americano Monopoly, produto emblemático da indústria cultural, que correu o mundo e influenciou adolescentes e jovens por décadas. Em sua versão mais conhecida, estimula os participantes a ganhar dinheiro com a especulação imobiliária e, em especial, a derrotar outros amigos empenhados na mesma batalha insana.
O texto de Brian revela, com base em longa pesquisa: a versão original de Monopoly foi criada no início do século passado, por uma norte-americana quaker interessada precisamente em… denunciar a devastação social provocada pela gentrificação e pelas atitudes egoístas. Chamava-se Elizabeth Magie.
Didática, Elizabeth chegou a criar duas regras, para o mesmo tabuleiro. Numa delas, todos os participantes beneficiavam-se, quando havia criação de riqueza social. Na outra, que acabou capturada e prevaleceu, impera a lei de cada um contra todos. Mas os objetivos da criadora eram claros: “É preciso deixar as crianças perceberem claramente a enorme injustiça de nosso sistema imobiliário atual. Quando crescerem, se puderem desenvolver-se naturalmente, o mal será rapidamente remediado”, escreveu ela.
Hoje, a crítica aos valores capitalistas, cada vez mais presente nas novas gerações, levou um grupo de ativistas, ao qual está ligado o próprio autor da matéria no Truthout, a criar Co-opoly, o “Jogo das Cooperativas”. Ele pode ser encontrado aqui.
É também do início do século 20 (1909) o curiosíssimo Suffragetto. Inventado pela União Social e Política das Mulheres Britânicas (WSPU), relaciona-se à luta feminista pelo direito ao voto (sufrágio). Num tabuleiro semelhante ao de xadrez e damas, opõe dois grupos: o das mulheres reivindicantes e o dos policiais que as reprimiam nas ruas. O objetivo é capturar a base adversária. Uma cópia do jogo original foi recentemente descoberta e está exposta na Universidade de Oxford. É possível imprimi-lo e jogá-lo.
Última cópia da versão original do feminista Sufragetto. Agora, é possível novamente conhecer as regras, imprimir o jogo e praticá-lo
Última cópia da versão original do feminista Sufragetto. Agora, é possível novamente conhecer as regras, imprimir o jogo e praticá-lo
Bem mais recente é o jogo Luta de Classes. Criado em 1978 por Bertell Ollman, professor na Universidade de Nova York, tem particularidades interessantes. Os jogadores ficam sabendo no início, por um lance de dados, se serão burgueses ou trabalhadores. Os capitalistas recebem, de partida, vantagens — fazem o lance inicial e podem paralisar os oponentes, imputando-lhes dívidas. Mas os trabalhadores têm a oportunidade de contra-atacar — formando sindicatos, organizando greves, unindo-se em torno de temas como igualdade étnica e de gênero.
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A tradição de jogos questionadores e críticos está presente também no Brasil. Um de seus expoentes é o ativista Guilherme Cianfarini. Há cerca de dez anos, ele inventa jogos como Brasil — um País de Tolos (que expõe o sequestro da democracia pelas grandes corporações) e A Conta da Copa é Nossa (que mergulha os jogadores na alienação das obras urbanas tocadas sem relação alguma com as necessidades da população, porque presididas pelo interesse do esporte-espetáculo e das empreiteiras).
No mercado, a grande maioria de jogos (e de games eletrônicos) propõe valores como a guerra, a conquista, a violência a vitória individual, o lucro. Mas a história oculta dos “jogos de esquerda” revela uma brecha a ser ocupada no terreno decisivo da ética — e em especial entre as pessoas que começam a se socializar. É uma fronteira aberta, na luta por uma nova sociedade.

Boaventura: “Somos todos anticapitalistas” por Boaventura de Sousa Santos.

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Em seu novo livro, sociólogo afirma: lutas operárias já não podem libertar a sociedade; cabe à esquerda despertar múltiplos sujeitos que sistema quer manter inertes
Por Boaventura de Sousa Santos | Imagem: Eric Drooker

Este é um trecho de
A difícil democracia – reinventar as esquerdas”
De Boaventura de Sousa Santos, pela Editora Boitempo
Lançamento até 28/10, nas livrarias
O texto faz parte de entrevista conduzida por Antoni Jesús Aguiló Bonet
161025-boaventura2Os sujeitos históricos são todos os sujeitos que fazem a história. Fazem história na medida em que não se conformam com o modo como a história os fez. Fazer história não é toda a ação de pensar e agir na contracorrente; é o pensar e o agir que força a corrente a desviar-se de seu curso “natural”. Sujeitos históricos são todos os rebeldes competentes.
No século passado, ficamos muito marcados pela ideia de que o sujeito histórico da transformação socialista da sociedade era o operariado industrial. As divisões no movimento operário e a perda de horizontes pós-capitalistas, combinadas com a emergência de movimentos sociais que se apresentavam como alternativas mais radicais tanto no plano temático como no plano cultural e organizacional, criaram a ideia finissecular de que o operariado deixara de ser o sujeito histórico teorizado por Marx e que ou o conceito deixara de ter interesse em geral ou era necessário pensar em sujeitos históricos alternativos.
Temo que, assim formulada, essa questão confunda mais do que esclareça. Se atentarmos à composição sociológica dos movimentos sociais, verificaremos que em sua base estão quase sempre trabalhadores e trabalhadoras, ainda que não se organizem como tal nem recorram às formas históricas do movimento operário (os sindicatos e os partidos operários). Organizam-se como mulheres, camponeses, indígenas, afrodescendentes, imigrantes, ativistas da democracia participativa local ou dos direitos humanos, homossexuais etc. A questão importante a fazer não é a da perda de vocação histórica dos trabalhadores. É antes a de saber por que nos últimos trinta anos os trabalhadores se mobilizaram menos a partir da identidade ligada ao trabalho e mais a partir das outras identidades que sempre tiveram.
Os fatores que podem contribuir para uma resposta são muitos. Houve transformações profundas na produção capitalista, quer no domínio das forças produtivas, quer no domínio das relações de produção. Por um lado, os avanços tecnológicos nas linhas e nos processos de produção, a revolução nas tecnologias de informação e de comunicação e o embaratecimento dos transportes alteraram profundamente a natureza, a lógica, a organização e as hierarquias do trabalho industrial. Por outro lado, o capitalismo “globalizou-se” (entre aspas, porque ele sempre foi global) para se furtar à regulação estatal das relações capital/trabalho, o que conseguiu em boa parte. Era nessa regulação que se assentava a identidade sociopolítica dos trabalhadores enquanto tal.
A desregulação da economia foi, entre outras coisas, desidentificação operária. Foi um processo dialético, pois a desidentificação causada pelas alterações no nível da produção também favoreceu o êxito da desregulação. Por sua vez, a desidentificação operária abriu espaço para a emergência de outras identidades até então latentes ou mesmo ativamente reprimidas pelos próprios trabalhadores. Progressivamente, as identificações alternativas tornaram-se mais credíveis e eficazes para canalizar a denúncia da deterioração das condições de vida dos trabalhadores, do agravamento das desigualdades de poder e da injustiça social causadas pela nova fase do capitalismo global a que se convencionou chamar “globalização” ou “neoliberalismo”.
As identificações alternativas não estavam igualmente distribuídas ou disponíveis no vastíssimo campo social do trabalho, e as assimetrias se revelaram nos tipos de demanda que adquiriram mais visibilidade e nas regiões do mundo em que se mostraram mais eficazes. Em muitos casos, nem sequer é correto falar de identidades alternativas, pois os grupos sociais que se apropriaram delas não tinham tido antes nenhuma identificação assentada nos processos e na força de trabalho. Nesses casos, estamos diante de identidades originárias que em certo momento histórico se transformam em recursos ativos de identificação coletiva e reivindicativa.
Essa mudança foi propiciada por transformações no domínio cultural que, entretanto, ocorreram e que foram, também elas, resultado de relações dialéticas. Por um lado, a mobilização política a partir das “novas” identidades revelou outras formas de opressão antes naturalizadas e dotou-as de uma carga ética e política que não tinham. Revalorizou o que era desvalorizado: as mulheres eram inferiores e menos capazes de realizar o trabalho industrial mais qualificado; os indígenas não existiam ou eram povos em extinção; os camponeses eram um resíduo histórico, e seu desaparecimento seria sinal de progresso; os afrodescendentes eram o resultado infeliz, mas marginal, de um processo histórico globalmente portador de progresso; a preocupação com o meio ambiente era reacionária, porque celebrava o subdesenvolvimento; os recursos naturais existiam na natureza, não em comunidades humanas, e eram infinitos, logo exploráveis sem limite; os direitos humanos eram uma nebulosa política duvidosa, e o que se resgatava dela eram os direitos de cidadania pelos quais o movimento operário tanto tinha lutado; os direitos coletivos eram uma aberração jurídica e política; a paz era um bem, mas o complexo industrial-militar também o era; a democracia era algo positivo, mas com muitas reservas, porque desviava as atenções e as energias necessárias para a revolução ou porque dava aos excluídos a ilusão perigosa de algum dia serem incluídos, o que, ao ocorrer, seria um desastre para a ordem social e a governabilidade.
Como afirmei, esses processos estiveram dialeticamente vinculados às transformações do capitalismo no período. Por um lado, a lógica da acumulação ampliada fez com que mais e mais setores da vida fossem sujeitos à lei do valor: dos bens essenciais para a sobrevivência (por exemplo, a água) ao corpo (homo prostheticus, prolongamentos eletrônicos do corpo, indústria do cuidado corporal, tráfico de órgãos), dos estilos de vida (consumos físicos e psíquicos “necessários” à vida na sociedade de consumo) à cultura (indústria do lazer e do entretenimento), dos sistemas de crenças (teologias da prosperidade) à política (tráfico de votos e decisões por via da corrupção, lobbying, abuso de poder). Com todas essas transformações, o capitalismo foi muito além da produção econômica no sentido convencional – passou a ser um modo de vida, um universo simbólico-cultural suficientemente hegemônico para impregnar as subjetividades e a mentalidade das vítimas de suas classificações e suas hierarquias.
A luta anticapitalista passou a ser mais difícil e precisa ser cultural e ideológica para ter eficácia no plano econômico. Por outro lado, e para surpresa de muitos, a acumulação ampliada, longe de erradicar os últimos vestígios da acumulação primitiva (as formas de superexploração, pilhagem, escravatura, confisco tornados possíveis por meios “extraeconômicos”, militares, políticos), fortaleceu-a tal como havia previsto Rosa Luxemburgo e tornou-a uma realidade cruel para milhões de pessoas que vivem na periferia do sistema mundial, tanto na periferia global (os países mais fortemente submetidos à troca desigual) como nas periferias nacionais (os grupos sociais excluídos em cada nação, inclusive nos países centrais, o que se tem chamado “Terceiro Mundo interior”). Muitos dos que vivem sob o regime do fascismo social estão sujeitos a formas de acumulação primitiva.
Esses são alguns dos fatores que vieram questionar não só o protagonismo do movimento operário, como também a própria ideia de sujeito histórico. As formas de opressão reconhecidas como tal são hoje muito numerosas, e o modo como são vividas, muito diversificado na intensidade e nas lutas de resistência que suscita. A inter-relação global entre elas é também mais visível. A pluralidade das ações e dos atores anticapitalistas e anticolonialistas é hoje um fato incontornável quando se pensa em alternativas ao capitalismo e ao colonialismo.
Não é claro o sentido hoje da expressão “alternativa socialista radical”. Primeiro, porque, como vimos, o objetivo do socialismo é vago ou contestado, e muitos dos movimentos que lutam contra o capitalismo ou contra o colonialismo não definem seus objetivos como socialismo. Segundo, porque também não é claro o que se entende por radical referido a socialismo. Uso o adjetivo “radical” quando referido à democracia porque lhe posso dar um conteúdo específico, o das lutas articuladas pela democratização em cada um dos seis espaços-tempo que citei. Além de certo limite, o êxito dessas lutas é incompatível com o capitalismo. A democracia revolucionária é a que sabe passar esse limite e impor-se além dele. Faz isso criando subjetividades, mentalidades e formas de organização tão intensamente democráticas que a imposição ditatorial do capitalismo se torna uma violência intolerável e intolerada.
O êxito das alternativas socialistas mede-se pelo grau, mais intenso ou menos intenso, com que tornam o mundo menos confortável para o capitalismo. O problema é que tal efeito está longe de ocorrer de modo linear, algo que é muito difícil de conceber em teoria e de valorizar em política. As inércias políticas e teóricas decorrem dessa dificuldade. A crença na linearidade leva-nos a continuar a acreditar em propostas e modelos há muito inviáveis, ao mesmo tempo que nos impede de identificar o valor propositivo de lutas e objetivos emergentes. As alternativas socialistas (prefiro sempre o plural) tendem a surgir de uma confluência virtuosa entre a identificação do que já não é possível e a identificação do que ainda não é possível.

Dívida, o novo pesadelo, por Michael Hudson.

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FMI admite não ver saída para a crise global. Michael Hudson explica: peso dos juros paralisa economias, exaure sociedades e amplia riscos de retrocessos. Saberemos enfrentar a aristocracia financeira?

Michael Hudson, entrevistado por Kim Brown, em The Real News Network | Tradução: Cauê Seignemartin Ameni

Como era de esperar, os jornais e TVs da velha mídia nada noticiaram. Em sintonia com o governo Temer, estavam ocupados em demonizar o tímido gasto social do Estado brasileiro. Mas em 5 de outubro, um novo relatório do FMI sobre a estabilidade financeira global lançou o alerta. Apesar de irrigado, desde 2008, por seguidas operações de “salvamento”, sempre com dinheiro público, o sistema financeiro internacional não se recuperou. Embora a grande tempestade tenha passado, “os riscos de médio prazo continuam a crescer”. E — mais intrigante — mesmo no caso de uma recuperação sustentada das economias (algo que não parece próximo), os problemas não estarão sanados.
Dias depois de lançado o relatório, o economista norte-americano Michael Hudson analisou-o, em entrevista à rede de webTV independente “The Real News“. Dedicado há décadas ao exame do sistema financeiro, colaborador de dezenas de publicações e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China, Hudson tem uma visão particular sobre o papel das dívidas, nas sociedades capitalistas contemporâneas. Segundo ele, o pagamento de juros tornou-se, na época pós-industrial, um fator crucial de extração de mais-valia e, portanto, de ampliação das desigualdades.
Hudson vê no relatório do FMI o reconhecimento de um ponto de impasse. O endividamento dos Estados e das famílias tornou-se tão vasto e opressor que passou a comprometer a própria dinâmica de reprodução do capital. Tanto os salários quanto a receita de impostos são permanentemente corroídos pelas transferências aos banqueiros e à aristocracia financeira. Em consequência, a capacidade de compra despenca. Os investimentos estancam. A criação de empregos e ocupações retrocede. Forma-se uma espiral descendente, que bloqueia as economias.
Pior: para sair do impasse, a aristocracia financeira procura, permanentemente, avançar sobre as conquistas cidadãs. Calcula que os Estados devem reduzirem o gasto social — para tornarem-se capazes de pagar mais juros… Aí está a origem das políticas de “austeridade”, da devastação do Estado de Bem-estar social na Europa e, no Brasil, de propostas como a PEC-241, que estabelece o congelamento das despesas não-financeiras do Estado.
Como escapar desta maré anticivilizatória? Em tempos anormais, é preciso propor o incomum. Hudson vê uma alternativa — pouco debatida, mesmo entre a esquerda. Ele defende políticas que promovam uma redução radical das dívidas e dos pagamentos à aristocracia financeira. O relatório do FMI jamais proporá algo com este sentido, zomba o economista. Mas ele mesmo provoca: enquando não houve coragem e força política para tal passo, permaneceremos sujeitos à estagnação, a crises e à ameaça de retrocessos. Fique com a entrevista (Antonio Martins)
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O relatório sobre estabilidade financeira do FMI diz que, apesar de os bancos serem mais fortes agora do que na crise econômica de 2007-2008, cerca de 25% do bancos norte-americanos e 30% dos europeus estão muito fracos até mesmo para se beneficarem de possível aumento nas taxas de juros — ou de qualquer auxílio para recuperação, caso a economia global sofra um novo abalo. Mas antes de entrar em qualquer tema mais específico sobre a saúde dos bancos, pergunto: nestas duas regiões, ainda estamos em recessão ou começamos a nos recuperar?
Não estamos nem numa recuperação, nem numa recessão tradicional. As pessoas pensam nos ciclos econômicos, nos quais há um boom seguido por uma recessão, para que depois os estabilizadores automáticos reanimem a economia. Mas agora, não há reanimação possível. A razão é que cada recuperação, desde 1945, estabeleceu um alto nível de endividamento. Ele está tão alto agora que estamos vivendo, desde a crise de 2008, o que chamo de deflação por dívida. As pessoas têm de pagar tanto dinheiro aos bancos que não conseguem manter o suficiente para comprar os bens e serviços produzidos. Por isso, não há novos investimentos, nem geração de emprego (exceto empregos com salários-mínimos). Os meracados estão encolhendo e as famílias estão quebrando. Por isso, muitas empresas não podem pagar os bancos.
O produto dos bancos é dívida. Eles tentam dizer aos clientes que “as dívidas são boas”, mas os clientes não podem endividar-se mais, e não há mais caminhos para que os bancos continuem seu atual plano de negocios. Na verdade, não há como os bancos serem pagos por tudo que possuem. É desse ponto que o FMI não passa. Ele não se atreve a dizer: “Os bancos estão quebrados porque o sistema financeiro também quebrou; e se isso ocorreu é porque, em seu conjunto, a ideia de tentar se enriquecer através das dívidas não funciona”.
Era um modelo falso. Estamos no final do longo ciclo que começou em 1945 e sobrecarregou as economias com dívidas. Não teremos condições de sair do labirinto até que estas seja canceladas. Mas é isso que o FMI acredita ser impensável. Não pode dizer isso, porque espera-se que represente o interesse dos bancos. Tudo que o pode dizer é que os bancos não farão mais dinheiro, mesmo que haja recuperação.
Mas na verdade não há recuperação, e não há sinais disso no horizonte, porque as pessoa têm de pagar aos bancos. É um ciclo vicioso – ou melhor, uma aspiral descendente. Basicamente, os economistas do FMI estão entregando os pontos e admitindo que não sabem o que fazer, dados os limites de seu horizonte.
Você pode nos ajudar a compreender por que o crescimento foi tão fraco nos últimos seis a oito anos?
Vamos analisar um orçamento familiar médio, estudando seus números essenciais. As pessoas pagam entre 40% a 43% de sua renda para habitação. Pagam planos de saúde, as dívidas do cartão de crédito, outros débitos. Sobram, disponíveis, apenas 25% a 35% — digamos, um terço do salário — para adquirir bens e serviços.
O problema é que quem emprega são justamente empresas que vendem bens e serviços. Elas simplesmente não estão contratando, porque os consumidores não tem dinheiro disponível para comprar esses mesmo bens e serviços. Entramos numa deflação crônica por dívida. Não há recuperação possível sem levar isso em conta. É este fato que o FMI compreendeu, mas deixa apenas implícito em seu relatório.
Ao noticiar este relatório, em manchete, o site MarketWatch afirmou: “Esqueça o [conceito de] ‘grandes demais para falir’. Os bancos estão fracos demais para sobreviver”. Na época em que eram gigantes, os bancos quase destruíram o sistema financeiro global. Bancos menores são melhores?
Pequenos bancos voltados para empréstimos ao público seriam bons. Mas os bancos, em sua maioria – o  Deutsch Bank, em graves dificuldades, é um caso típico – avaliam que não são mais capazes de ganhar dinheiro emprestando aos clientes normais. Partiram para um novo plano de negócios: emprestar dinheiro capitalistas de cassino. Isso é, emprestar para quem quer especular com derivativos.
Um derivativo é simplesmente uma aposta de que uma ação, um título de dívida ou relacionado a um ativo imobiliário irá subir ou cair. Há um vencedor e um perdedor. É como aposta numa corrida de cavalos. O maior banco envolvido nestas apostas — ou seja, não em financiar a produção, ou o investimento — era o Detsche Bank. Grandes aplicadores tomavam emprestado para jogar.
Qual é, hoje a melhor aposta no mundo? É apostar que as ações do Deutsche Bank irão cair. Especuladores tomam dinheiro emprestado do seus bancos para fazer apostas de que as ações do Deutsche Bank despencarão. Agora, ele se contorce e diz: “Oh, os especuladores estão nos matando”. Mas são o próprio Deutsche Bank e outros que fornecem dinheiro para os especuladores fazerem apostas.
O relatório do FMI diz que, na zona do euro, se os governos pudessem ajudar os bancos a se livrar de seus empréstimos ruins, isso teria um efeito positivo sobre o capital destas instituições financeiras. Qual seria o efeito sobre a população e a economia europeia?
A matemática desta proposta muito simples. Para executá-la, você teria de abolir as aposentadorias e os gastos sociais — além de aumentar os impostos. Você tem que obrigar pelo menos 50% da população europeia a emigrar — quem sabe, para a Rússia ou China… Haveria fome em massa. Muito simples: esse é o preço que alguns, na zona do euro, pensam que vale a pena pagar — e que se tentou impor à Grécia Para salvar os bancos, você teria que converter toda a zona do euro numa Grécia
Os governos teriam de vender todo o setor público — inclusive ferrovias e terras públicas. Estaríamos basicamente introduzindo o neo-feudalismo, voltando o relógio da história para trás em mil  anos e reduzindo a população da Europa para dívidas escravocratas. É a solução que a zona do euro impôs a Grécia. E a solução que os líderes e os bancos estão estão peindo para os economistas responsáveis promoverem à população em geral.
Vamos falar a respeito de outra informação divulgada pelo FMI sobre a dívida. O endividamento global chegou recentemente a cerca de 152 trilhões de dólares. Isso inclui dívidas públicas, familiares e de empresas não financeiras. O que isso significa para o sistema financeiro global e as sociedades?
Significa que a única maneira que as pessoas têm de pagar a dívida é cortando seus padrões de vida drasticamente. Significa concordar em mudar suas aposentadorias atuais — em que você sabe quanto receberá ao deixar de trabalhar — para “planos de contribuição definida”. Nestes, você investe o dinheiro e não sabe o que receberá.
Para salvar os bancos de perdas que ameaçam varrer seu patrimônio líquido, teríamos de nos livrar da Seguridade Social. Isso significa basicamente abolir o governo para entregar o funcionamento do sistema aos bancos, com a ideia de que o papel dos governos é extrair renda da economia para pagar os acionistas e os bancos.
Quando se diz “pagar os bancos”, o que eles realmente querem dizer é pagar os dententores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório, neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo.
Todos os governos, de Barack Obama até Angela Merkel, da zona do euro ao FMI, comprometem-se a salvar os bancos, não a economia. Nenhum preço é muito alto para tentar fazer o sistema financeiro ir um pouco mais longe. Ao final das contas, ele não poderá ser salvo, por causa da equação em que está envolvido. As dívidas crescem sem parar. E quanto mais crescem, mais encolhem a economia. Quando você encolhe a economia, reduz a capacidade de pagar as dívidas. É uma ilusão pensar que o sistema pode ser salvo. A questão é: por quanto tempo mais as pessoas estarão dispostas a viver nesta ilusão?
E por quanto tempo essa ilusão se sustenta antes de assistirmos a um novo colpaso econômico mundial? É algo inevitável, a que devemos simplesmente esperar? Devemos nos preparar para isso?
Ainda estamos sofrendo os efeitos do colapso que começou em 2008. Não há novo colapso, nem recuperação. Os salários dos 99% caíram, de forma constante, desde 2008. Especialmente para 25% da população que ganham menos — nos Estados Unidos, negros,  latino-americanos e outros trabalhadores. O patrimônio liquido deles ficou negativo, e eles não têm dinheiro suficiente para para pagar as contas.
Uma das maiores consultorias mundiais — a Ernst & Young — acaba de fazer o estudo sobre os muito jovens. Descobriu que 78% das pessoas que nasceram por volta da virada do século [e que têm em torno de 18 anos]  estão preocupados por imaginare que não encontrarão empregos que lhes permitam pagar seus  empréstimos estudantis. Além disso, 74% temem não poder pagar tratamento, se ficarem doentes; 79% temem ficar sem renda suficiente para viver, quando eles se aposentarem. Toda uma geração que emerge — não apenas nos EUA, mas também na Europa — que não será capaz de ter empregos assalariados que paguem bem. O único caminho é ter pais ricos o suficiente para lhes oferecer uma renda.
Seu último livro é Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy [“Matando o hospedeiro: como os parasitas finaneiros e a escravidão por dívidas destroem a Economia Global”]. Você está terminando outro, certo?
Sim, nas próximas semanas. Seu título será J is for Junk Economics. Investiga por que os economistas prometem que em algum momento haverá uma recuperação. Por que isso é basicamente uma promessa impagável [junk] e por que hoje, para ser um economista, você tem que participar desse conto de fadas segundo o qual poderemos nos recuperar e, ao mesmo tempo, conservar a saúde dos bancos. Quero mostrar por que não funciona.

Cultura Inútil: Honrados, dignos e virtuosos, por Mouzar Benedito.



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Por Mouzar Benedito.

Cadê eles? Estão no governo? No Congresso? No Judiciário? Nas redações de jornais e revistas? Nas emissoras de rádio e TV? Nas igrejas?
Nesses lugares todos tem gente posando como se tivessem essas qualidades e exigindo-as dos outros.
Na política, uma mesma coisa pode ser considerada “qualidade” e elogiada como virtude, se seu detentor for do seu partido, ou excomungada como grande defeito se for seu adversário. Por exemplo: se o cara é do tipo exigente e centralizador, para seus seguidores é um bom político, de pulso firme; para seus adversários, é autoritário, ditador. Se o político ouve outras pessoas antes de tomar uma decisão, é um democrata, segundo seus seguidores, ou um frouxo vacilante, segundo os opositores.
Nas tais “mídias sociais” isso é cotidiano. Manipulam, vociferam defendendo honra, dignidade e virtudes que os próprios vociferadores não têm. E fechando os olhos para os desmandos de seus partidários…
Um bom exemplo desses “virtuosos” está numa historinha contada pelo Barão de Itararé:
O Dr. Lins estava danado da vida porque lhe haviam passado uma nota falsa de dois cruzeiros.
— Não se pode mais ter confiança em ninguém! — dizia ele. — Foi o trocador do ônibus que me deu a nota. Que ladrão!
— Quer me mostrar a pelega? — pergunta um amigo.
— Já não a tenho mais. Passei-a adiante.

Ditados populares e pensamentos de famosos

Fui à caça do que pensadores disseram sobre essas qualidades. E também de ditados populares sobre o assunto.
Mas antes de transcrever todos eles aqui, lembro-me de um sujeito que periodicamente aparecia na minha terra e pedia comida, cada dia numa casa. Era o Barbino, com um conceito muito especial que até hoje não entendi. Ele só aceitava comida se tivesse carne. Se não tivesse, devolvia o prato, falando bravo: “Cumê sem carne, Deus num põe virtude”. Quem puder, que me explique.
Agora, aí vão pensamentos e ditados.
Millôr Fernandes: “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos”.
* * *
O povo (ditado popular): “A virtude tem muitos pregadores, mas poucos mártires”.
* * *
Henry Toreau: “Existem 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa”.
* * *
Joaquim Nabuco: “O naufrágio da honra é quase irreparável”.
* * *
Almeida Garrett: “Aí, virtude. Que homens, que leis dos homens te conhecem?”.
* * *
Hermann Melville: “Falam da dignidade do trabalho. Bah! A dignidade está no ócio”.
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Ambrose Bierce: “Epitáfio é uma inscrição num túmulo que mostra que as virtudes adquiridas pela morte têm efeito retroativo”.
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O povo (ditado): A honra é como vidro: quebrando, não solda mais.
* * *
O povo, de novo: “Não há erva tão ruim que não tenha a sua virtude”.
* * *
O povo, mais uma vez: “A mentira só é vício quando faz mal; se faz bem, é uma grande virtude”.
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Carlo Dossi: “A virtude é como o percevejo. Para que exale seu odor, é preciso esmagá-la”.
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Anatole France: “A virtude, tal como os corvos, aninha-se nas ruínas”.
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Mário Quintana: “A verdade é que os bichos, quando imitam as pessoas, perdem toda a dignidade”.
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Ludwig Borne: “As virtudes e as raparigas possuem a máxima beleza até saberem que são belas”.
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Três ditados populares: “Onde não há honra, não há desonra”. “Onde a honra é o mais, tudo o mais é o menos”. “A honra é como o vidro: quebrando, não solda mais”.
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François Chateaubriand: “Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso”.
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Rubem Alves: “Amores novos não combinam com a dignidade dos velhos”
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Aristóteles: “Não possuímos virtudes antes de as colocar em prática”.
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Camilo Castelo Branco: “A desonra que se estorce numa esteira é que nunca se reabilita”.
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Camilo Castelo Branco, de novo: “A virtude, quando há dinheiro, é azul sobre ouro”.
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Camilo Castelo Branco, mais uma vez: “Se houvessem virtudes perfeitas, essas desconheceriam os escrúpulos, que são de per si os prelúdios das imperfeições”.
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Ditados populares: “Honra e proveito não cabem num saco”. “Muitas vezes a dignidade proíbe o que a lei permite”. “A virtude remoça os velhos, o vício envelhece os moços”.
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Nietzsche: “É por nossas virtudes que somos punidos”.
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Nietzsche, de novo: “Todas as virtudes têm sua época; a quem hoje é inflexível, a sua honestidade provoca-lhe muitas vezes remorsos: porque a inflexibilidade é uma virtude que pertence a uma idade diferente da da honestidade”.
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François La Rochefoucauld: “A virtude não iria tão longe se a vaidade lhe não fizesse companhia”.
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Rochefoucauld, de novo: “As virtudes perdem-se no interesse como as águas do rio se perdem no mar”.
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Rochefoucauld, mais uma vez: “As nossas virtudes, a maior parte das vezes, não passam de vícios disfarçados”.
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Ditados populares: “Quando a miséria entra pela porta, a virtude sai pela janela”. “A fome é inimiga da virtude”. “Melhoramos em virtude quando pioramos em saúde”.
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Mahatma Gahdhi: “A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros, devem ser zeladas pelo indivíduo em particular”.
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Louis Saint-Just: “As virtudes indomáveis dão lugar a costumes atrozes”.
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Berilo Neves: “A virtude é a salvação das feias. Não custa evitar o pecado quando não se tem com quem pecar”.
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Padre João de Lucena: “Tão formosa é a virtude que aqueles que lhe querem muito nada querem dela”.
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Elizabeth Taylor: “O problema das pessoas que não têm defeitos é que, com certeza, têm virtudes terríveis”.
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Marguerite Yourcenar: “O nosso maior erro consiste em tentarmos colher de cada pessoa em particular as virtudes que elas não têm, e de nos esquecermos de cultivar as que de fato são suas”.
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Ditados populares: “Entre a honra e o dinheiro, o segundo é o primeiro”. “Mais vale merecer honra e não ter, do que, tendo-a, não merecer”. “Honra demais é orgulho”.
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Padre Manuel Bernardes: “Que são as dignidades? Essa real: por fora brasões, telas e luzes; por dentro, ripas de pinho e lixo”.
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Machado de Assis: “A virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo é pródigo”.
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Machado, de novo: “O cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói. Roer é seu ofício”.
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Ariano Suassuna: “Eu digo sempre que das três virtudes chamadas teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança”.
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Nelson Rodrigues: “O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes”.
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Madame de Riccoboni: “A aparência das virtudes é muito mais sedutora do que as próprias virtudes, e quem se vangloria de as possuir tem grande vantagem sobre quem realmente as possui”.
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Ramón Campoamor y Campoosorio: “Na sua essência, a virtude é metade opinião e outra metade aparência”.
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Manuel Bernardes: “Os olhos enfermos ofendem-se da claridade da virtude”.
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Manuel Bernardes, de novo: “O que é dotado de verdadeira virtude tem os seus males por fora, e os seus bens por dentro”.
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Ditados populares: “A honra é a bússola dos homens de bem”. “A honra se lava é com sangue”.
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Jacinto Benavente y Martinez: “Quando uma virtude acha recompensa, já começamos a duvidar que seja virtude”.
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Jacques Bossuet: “As virtudes que se ostentam são vãs e falsas virtudes”.
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Virgílio: “A virtude é mais apreciada se resplandecer num corpo belo”.
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Ralph Emerson: “O que é, afinal, uma erva daninha senão uma planta da qual ainda se não descobriram as virtudes?”.
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Gonçalves de Magalhães: “A natureza humana é tão misteriosa que uma virtude nos faz chorar e uma grande desgraça nos faz rir”.
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Medeiros de Albuquerque: “A virtude é uma palavra que só enche a boca dos que não podem gozar o vício; é a prédica dos impotentes; é a prédica dos invejosos”.
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Capistrano de Abreu: “O termômetro da dignidade poucos graus vai acima do zero; mas abaixo a graduação não tem fim”.
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Charles Darwin: “A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana”.
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Confúcio: “A humildade é a única base sólida de todas as virtudes”.
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Confúcio, de novo: “O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranquilo está perto da virtude”.
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Blaise Pascal: “Uma indiferença pacífica é a mais sábia das virtudes”.
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Platão: “As grandes naturezas produzem grandes vícios, assim como grandes virtudes”.
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Ditado popular: “Homem honrado, antes morto que injuriado”.
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Marie Eschenbach: “A virtude também é uma arte. Eis porque ela tem duas espécies de discípulos: os que a praticam e os que a admiram”.
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Miguel de Cervantes: “A virtude é mais perseguida pelos maus do que amada pelos bons”.
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Napoleão Bonaparte: “Para governar é preciso aproveitar-se dos vícios dos homens, não de suas virtudes”.
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Frei Luís de Sousa: “É tempo perdido animar para a batalha quem fica fora dela, e aconselhar virtude a quem não é primeiro em segui-la”.
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Eça de Queiroz: “Quem sem descanso apregoar a sua virtude, a si próprio se sugestiona virtuosamente e acaba às vezes virtuoso”.
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Ditado popular: “Fazer bem é virtude, mas é também egoísmo”.
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Khalil Gibran: “Quem não sabe aceitar as pequenas falhas das mulheres não aproveitará suas grandes virtudes”.
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William Shakespeare: “Uns venceram por seus crimes, outros fracassaram por suas virtudes”.
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Shakespeare, de novo: “As falhas dos homens eternizam-se no bronze, as suas virtudes escrevemos na água”.
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Ditado popular: “As chagas da dignidade nunca cicatrizam”.
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Marguerite Valois: “Seremos perfeitamente virtuosos quando já não houver carne nos nossos ossos”.
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Georges Perros: “Ócio, pai de todos os vícios e filho de todas as virtudes”.
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Clara Luce: “A coragem é a escada por onde sobem as outras virtudes”.
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Ditado popular: “Homem que com sua honra não sonha, vem-lhe de ter pouca vergonha”.
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Marquês de Maricá: “Em matérias e opiniões políticas os crimes de um tempo são algumas vezes virtudes em outro”.
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Maricá, de novo: “Todas as virtudes são restrições; todos os vícios, ampliações da liberdade”.
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Thomas Hobbes: “As duas virtudes cardinais da guerra: força e fraude”.
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Ditado popular: “A adversidade descobre a virtude”.
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Eugene Delacroix: “A adversidade restitui aos homens todas as virtudes que a prosperidade lhes tira”.
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Silva Alvarenga: “No meio é que a virtude tem firme o seu lugar; quem vai pelos extemos não a deseja achar”.
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Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
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Ditado popular: “O vício e a virtude são vizinhos”.
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Molière: “Todos os vícios, quando estão na moda, passam por virtudes”.
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Molière, de novo: “Prefiro um vício cômodo a uma virtude que fatigue”.

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.