segunda-feira, 5 de junho de 2017

DIRETAS JÁ: POR QUE VOCÊ TEM MEDO DA LUZ?, POR ALEXANDRE MEIRA


Há um antigo conto africano que ilustra bem esses tempos de Pós-Verdade. Ou tempos de mentira mesmo, se nos livrarmos de cômodos eufemismos.
A Política nacional, como bem sabemos, deu espaço à carnificina na guerra de informações. Verdades e Mentiras viraram autênticas armas não letais. A trincheira provavelmente na qual você se encontra hoje, já não parece ser mais tão segura quanto às convicções tão invictas de outrora. Enquanto isso a linha inimiga à frente segue furiosa, irredutível.
Nada seria mais urgente hoje do que uma verdadeira lufada de ar, do que um completo banho de luz, ou da mais pura água fresca da democracia. Um Golpe, sim, mas de sorte, tramado nas entranhas de cada lar da população brasileira, manifesto impiedosamente pela sua vontade nas urnas, e revelador do grito de uma maioria plena e soberana. Democracia em seu estado natural para limparmos às feridas, secarmos as lágrimas antes de retornarmos ao caminho da civilização do qual saímos, quando este país optou por ceder aos gritos primais de suas trevas internas.
Mas por que você tem medo dessa luz? Por que você não quer apreciar o rosto iluminado da democracia?
Deus, narra o conto africano, em toda sua sabedoria fez de tudo que criou um oposto que o completasse. Assim fez o dia e a noite, o direito e o avesso, a lua e o sol. E criou também a Verdade e a Mentira.
A primeira era bela, majestosa e exuberante, a segunda era desfigurada, pequena e assustadora. Ambas se iniciaram no mundo, uma para cada lado, livres. A primeira atraía multidões de todas as classes e tipos, a segunda se isolava numa floresta cada vez mais. Esta última então começou a nutrir um sentimento de ódio e vingança contra as pessoas que seguiam a Verdade, contra a forma como suas vidas eram transformadas independentemente de suas dores e cicatrizes. Não entendia, portanto, o porque das suas diferenças, e, sobretudo, a essencial diferença de suas missões. A Mentira no fundo de sua alma queria acompanhar sua irmã, a Verdade. Saudade havia, e a vontade de reencontrá-la para caminharem juntas em prol do mundo como missão de irmãs gêmeas que eram. Mas ela ressentia muito o fato de também merecer todo esse amor e não recebê-lo, por serem filhas do mesmo Deus, por conterem em si a mesma divindade. “Por que ela, e não eu?” A Mentira sofria com seu próprio ódio e achava que alguma coisa precisava ser feita. Para ela, ver criaturas humanas mais felizes do que uma deusa não fazia sentido em um mundo criado para uma deidade.
A Verdade em certa feita sentiu a mesma saudade da irmã. Angustiada embrenhou-se numa floresta cujo coração apontava. Foi quando a Mentira, irreconhecível para a irmã, ao ver uma mulher toda feita de luz, teve um medo súbito, abordou-a com violência e cortou-lhe a cabeça.
Quem tem medo da luz?

Nossas trevas internas libertas sob a forma de preconceito e ódio nunca precisaram tanto de luz. Por que você não quer ver o rosto iluminado da Democracia? O que ela teria de lhe dizer que não fosse a verdade? 
Após o país cair de joelhos revirado por sentimentos intestinos de ódio, vitaminados por campanhas ideológicas típicas de guerra por parte de oligarquias e setores financeiros, compreendemos que o que temos hoje não melhor, nem do que tivemos antes, como do que teremos amanhã, quando vencermos o medo. A tal da janela democrática para que se passem reformas “necessárias” é na verdade uma janela anti-democrática pela qual se define o futuro da sua própria vida a sua revelia. Se houve uma vítima fatal do recente golpe foi você. Foi a sua capacidade de decidir pelo seu próprio futuro que foi usurpada no momento mais necessário para que você a utilizasse: A defesa de sua própria vida, de sua própria família. Nossas instituições corrompidas se digladiam sem legitimidade, nossos representantes representam a si próprios e seus financiadores ilícitos, temos o primeiro presidente da história acusado de crime comum, e são eles que vão decidir pela sua vida mais uma vez? A sua revelia? Valendo-se da NOSSA Constituição?
“Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes diretos ou diretamente nos termos dessa Constituição.”
Há quem pese diferentemente o significado do nosso belíssimo Artigo 1º. Como interpretação, há quem atribua poder e relevância a soberania popular, há quem atribua valor legalista aos preciosos termos da Constituição. E ambas são, por que não, leituras possíveis. Mas mesmo aos legalistas - de conveniência ou não - eu pergunto: Por que o medo da luz? A quem você há de servir, se não servir à verdade?
Por que construir um país sob uma mentira se há inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, um país de verdade a ser revelado?

Quando a Emenda de Dante de Oliveira foi derrotada em 25 de Abril de 1984, após uma manobra do PDS para não se atingir quórum de aprovação, a despeito da monstruosa votação favorável, o exército posicionou-se de forma intimidadora a frente do Congresso e esplanada dos Ministérios. Neste mesmo dia uma série de blecautes literalmente jogou Brasília nas trevas. As Diretas Já haviam sido derrotadas `a força, o que se sucedeu foi que após a morte de Tancredo o mesmo grupo político conservador pró-ditadura, embora civil, liderado por José Sarney, hoje presidente de honra do PMDB, permaneceu no poder estendendo a crise por anos a fio. O Brasil da Mentira com medo da luz, cortou-lhe violentamente a cabeça.
A Verdade, mulher desesperada, começou a tatear a mata atrás de sua cabeça, e logo tateou às madeixas de uma vasta cabeleira, e os traços de um rosto reconhecível. Rapidamente recolocou a cabeça sobre seus ombros e pescoço na tentativa de recuperar os sentidos anteriores. Mal sabia que a cabeça que ela encontrara era a de sua irmã Mentira, que também cortou a sua própria na tentativa de troca-las... por pura inveja.
Ambas nunca mais se viram.
A Mentira passou a atrair olhares, mas não seguidores, mesmo com a beleza do rosto faltava-lhe algo de verdade, porque ela não se via, não reconhecia a verdade que existia nas pessoas.
A Verdade, por sua vez, continuou a atrair os mesmos olhares. Estes a estranhavam e desconfiavam da aparente mentira que havia em seu rosto. Mas quando a mulher se manifestava em sua exuberância emanava uma luz inconfundível. A Verdade sabia das pessoas, de todas elas, a Verdade as representava, as ouvia. As pessoas então seguiam a luz, democraticamente. Por que não?
A quem você há de servir?

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