terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A confirmação da estratégia prevista no Xadrez de Lula, por Luis Nassif.

A respeito do artigo “O Xadrez de Lula”, converso com um dos conselheiros não-petistas de Lula que confirma que a última avaliação feita a Lula por Marcos Coimbra, da Vox Populi, bate integralmente com o cenário antecipado no Xadrez.
O raciocínio é o seguinte.
A última pesquisa do Vox Populi apresentou os seguintes resultados:
1. Na votação estimulada (em que os nomes são informados ao pesquisado) Lula aparece em primeiro com 43% e Bolsonaro em segundo com 17%.
2. Na pergunta sobre simpatia por algum partido político:
  • 75% não tem por nenhum
  • 1% pelo PSDB
  • 2% pelo PMDB
  • 17% pelo PT
No pior momento, na saída de Dilma Rousseff, o PT tinha 12%; no melhor momento, 29%.
3. Na questão: em quem não votaria de jeito nenhum,
  • Lula: 39%
  • Alckmin:  52%
  • Bolsonaro: 75%
33% têm ódio visceral a Lula, dos quais 10% provavelmente em São Paulo.
4. Na questão: se concordam com a condenação imposta por Sérgio Moro a Lula, 52% concordam, contra 45% que não concordam.
O dado é relevante porque, antes de perguntar a opinião do entrevistado, ele é informado sobre as acusações contra Lula e a condenação. Mesmo assim, 60% consideram Lula o melhor presidente da história.
A partir daí, chega-se a duas conclusões:
Conclusão 1 - Se Lula tem 43% das preferências e o PT tem 17% de simpatia, significa que 60% do eleitorado potencial de Lula é composto por não-petistas. Logo, o discurso de campanha terá que focar prioritariamente esse contingente.
Conclusão 2 - Se 80% dos 17% De simpatizantes votarem em deputados do PT, a bancada poderá ficar entre 55 e 60 deputados. Poderá ser a maior bancada, pela primeira vez, mas ainda assim sem condições de assegurar, sozinha, a governabilidade. Daí a necessidade primordial de uma nova política de alianças.
Essas conclusões foram apresentadas a Lula na última reunião que organizou para discutir as estratégias de campanha.

Xadrez do fator Lula, por Luis Nassif, por Luiz Nassif.

Admito que este Xadrez é bastante polêmico. Os movimentos descritos a seguir ainda são incipientes e há dúvidas de monta sobre seus desdobramentos.
De qualquer modo, monto o Xadrez, alinhavo o raciocínio, encaixo as peças até para facilitar as análises e críticas. Com a narrativa estruturada, fica mais fácil identificar os pontos vulneráveis dos cenários traçados.

Peça 1 –a polarização eleitoral

Quem se der ao trabalho de conferir os Twitters ou mensagens de juízes punitivistas – como Marcelo Bretas –, ministros politicamente comprometidos – como o corregedor João Otávio Noronha, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) - ou procuradores partidários do fake prosecution. verá em comum os mesmos bordões propalados pela ultradireita MLB, mas que antecedem sua fundação.
Por exemplo, criticar a defesa de minorias, como se significasse retirada de direito das maiorias; o deboche do politicamente correto; o tratamento de desperdício a qualquer política social.
Esse pensamento simplório, porém eficaz junto aos setores mais anacrônicos, é a argamassa que une polos contrários, dos que manobram o discurso anticorrupção, à quadrilha que se valeu das manifestações para se aboletar no poder.
Esse discurso de intolerância  começou a ser explorado pela revista Veja na campanha contra o desarmamento. Ali, pela primeira vez, se percebeu o potencial comercial e político do discurso de ódio e preconceito. À medida em que foi se ampliando, embarcaram dinossauros convictos, pequenos oportunistas e organizações criminosas, como a comandada por Eduardo Cunha.
Com o tempo, a reiteração do discurso de ódio ganhou camadas mais amplas, especialmente no Judiciário e no aparelho repressivo.
Vários grupos se apressaram em dar carne fresca ao tigre e aproveitar seu potencial mobilizador: mídia, Lava Jato, juízes punitivistas, PSDB e, finalmente, a quadrilha de Cunha-Temer.
Hoje em dia há uma nítida identidade de pensamento entre esses setores, mas uma disputa entre os punitivistas do Judiciário e do Ministério Público contra o bloco de Temer.
É uma barafunda, um conjunto de peças soltas que não forma um todo. E se mostra incapaz de gerar um projeto de país.
Essa mesma incapacidade assola a equipe econômica, que se valeu do sequestro do Executivo pela quadrilha para impor um conjunto de políticas que não resistem ao primeiro teste eleitoral. E que sequer resistem ao teste da legitimidade. Só um pensamento tecnocrático tosco para apostar em algo assim.
Para as próximos eleições, os desdobramentos dessa polarização são nítidos.
Numa ponta haverá o lulismo – com ou sem Lula -, carregando os erros econômicos dos últimos anos, a estigmatização de quinze anos de campanha diária da mídia, mas com um grande acervo de políticas públicas e de avanços sociais.
Na outra, o antilulismo, brandindo exclusivamente o discurso bilioso e o preconceito em estado puro, e equilibrando-se no discurso moralista.
No meio, um enorme contingente de grupos modernos, muitos decepcionados com os rumos do lulismo mas que, nas últimas eleições, deram a vitória a Dilma Rousseff – menos por convicção, mais pelos espaços mantidos e por se dar conta de que a eleição de Aécio Neves significaria o retrocesso.

Peça 2 – os movimentos da direita moderada

A direita mais moderada – e moderna - já se deu conta de que a vitória só será possível com a consolidação do centro-democrático. Não se trata apenas da viabilidade eleitoral, mas da única possibilidade de uma pacificação nacional, que impeça a guerra interna e o caos decorrente da radicalização.
Mas não conseguiu emplacar ninguém capaz de ocupar esse centro. Doria, Huck, Joaquim, Partido Novo, Marina e o escambau, nada deu certo.
Nenhum dos candidatos a anti-Lula tem dimensão política ou consegue se desvencilhar desse cipoal de preconceitos anacrônicos. E nenhuma das tentativas de empinar uma candidatura menos pesada foi bem sucedida.
A receita tatibitate é a mesma repetida por Geraldo Alckmin na convenção do PSDB: mesmices sobre gestão (ele que não é gestor), sarcasmo sobre direitos sociais e discurso raivoso contra o “inimigo”.
O centro não quer guerra, não quer sangue, não quer radicalização.
É a partir dessa constatação que se monta o Xadrez de Lula.
A enorme dificuldade em encontrar um tertius, a radicalização representada por Bolsonaro ou mesmo por Geraldo Alckmin, a desmoralização crescente com a  atuação da organização criminosa que empalmou o poder, reforçará a percepção de que não existe saída sem Lula.

Peça 3 – os movimentos de Lula

Nos próximos meses crescerá essa percepção no meio empresarial de ponta, aquele que consegue enxergar os desdobramentos da políticos nos negócios, e mesmo no mercado e entre antipetistas.
É cedo para saber se será uma tendência vitoriosa ou se esbarrará no ainda fortíssimo sentimento anti-Lula, cuja contra-ofensiva está concentrada na atuação da mídia, dos juízes punitivistas e dos procuradores militantes dos fake prosecution.
Mas à imagem do país partido ao meio serão contrapostas as lembranças dos melhores momentos do grande pacto nacional representado por Lula, após a Carta aos Brasileiros, a luta bem-sucedida para superar a crise de 2008 e o período de bonança em que todos os setores ganharam.
Na outra ponta, continuará aceso o movimento de satanização de Lula explorando o “mensalão”,  a Lava Jato e os traumas com o governo Dilma.
Independentemente do desfecho, Lula se encaminhará inexoravelmente para o centro, aliás, de onde nunca saiu, colocando-se novamente como o avalista do novo pacto social, para decepção dos grupos que viram brotar cascavéis dos pactos com mídia e mercado.
Esta postura será inevitável por duas razões:
1.     Será a única maneira de conquistar o centro democrático e, através dele, bloquear os avanços da ultradireita morista, de impedir sua candidatura através da Judiciário.
2.     No jogo atual, com as candidaturas postas à mesa, mesmo com os pactos, apenas os grupos mais radicais à esquerda deixarão de apoiar Lula.

Peça 4 – as dificuldades do novo tempo

Não se sabe se será bem-sucedida dada a dose de estigmatização da figura de Lula e o extremo despreparo dos grupos de mídia e de setores empresariais em prospectar cenários futuros. Desde 2006, a cada traulitada na cabeça da mídia, havia uma espécie de aposta: os que apostaram que a mídia nunca aprenderia as lições e se modernizaria ganharam todas as apostas.
O pacto anterior de Lula se consolidou em um período econômico favorável, com o boom das commodities permitindo que os recursos atendessem às políticas sociais, que o mercado continuasse se esbaldando nos ganhos de arbitragem de juros e câmbio, e a indústria e os salários ganhassem com a expansão do mercado interno.
Esse tempo acabou e deixou lições nítidas sobre os erros cometidos, especialmente o não enfrentamento do poder da mídia, do mercado e das corporações públicas.
Agora, a crise fiscal obrigará a montar um pacto menos abrangente que o de 2003 e a escolher estrategicamente os aliados e, principalmente, os inimigos a serem combatidos.
Quem acompanhou o discurso de Lula sabe que, em uma eleição limpa, só param ele à bala ou à caneta de juiz punitivista.
Os desafios pré-eleição são os seguintes:
1.     Montar um pacto que permita driblar a ofensiva jurídica comandada por Sérgio Moro e pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, os braços armados da ultradireita.
2.     Colocar a campo os empresários de confiança, que mergulharam nas sombras no auge da Lava Jato.
3.     Articular a frente dos coronéis do PMDB que abominam o esquema Eduardo Cunha.
4.     Acenar para o mercado que não virão medidas drásticas.
Se eleito, os desafios serão maiores:
1.     Manter a governabilidade com a economia em crise.
2.     Montar um forte pacto com a esquerda não-petista, administrando a ansiedade dos grupos mais à esquerda.
3.     Atacar a questão da dívida pública e do livre fluxo de capitais.
4.     Conquistar corações e mentes do empresariado, em ambiente de crise.
5.     Enfrentar o desafio de enquadrar a Rede Globo.
Montar um pacto na crise é tarefa hercúlea, mesmo para um super-negociador como Lula.

Peça 5 – as probabilidades

A hipótese de avanço do Lula ainda repousa em bases muito incipientes. Importa observar os sinais iniciais desses fenômenos, que acontecerão nos próximos meses, mas ainda não se sabe em qual intensidade:
·      Afirmações  prpogressivamente mais conciliadoras de Lula;
·      Acenos dos parlamentares do PMDB e de partidos menores, especialmente os nordestinos.
·      Manifestações de empresários. Em off esse movimento já começou. Falta saber quando e se sairá da caixa.
O termômetro maior será acompanhar as manifestações dos grandes empresários e o desempenho da economia.
Temer e Alckmin apostam na recuperação da economia. A única certeza, para o próximo ano, será o estrangulamento fiscal gigante, acarretado pela PEC do Teto, que matará qualquer veleidade do blefe de nome Henrique Meirelles e do chefe Michel Temer.

Coronelismo 2.0: os novos rumos da aliança entre política e mídia no Brasil, por Helena Borges.

Os coronéis estão vivos e se adaptaram à modernidade: têm página no Facebook e conta no Twitter, além de programa de rádio e de televisão. É o que explica em entrevista a The Intercept Brasil a professora Suzy dos Santos, da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa Política e Economia da Informação e da Comunicação. Sua equipe rastreia os políticos que tenham vínculos com a mídia e busca entender como esse vínculos influenciam as pautas nos jornais e no Congresso.
Eles encontraram 168 parlamentares que têm alguma presença fixa na mídia digital ou em rádio e televisão. A lista vai de Celso Russomanno (PRB-SP) a Jean Wyllys (PSOL-RJ), abrangendo todos os matizes políticos, da esquerda à direita. Suzy conta que os políticos comunicadores não são exatamente uma novidade, mas que seu poder tem se tornado cada vez maior. Nas últimas eleições, candidatos com este perfil ficaram entre os mais votados.
O caso recente de Luciano Huck jogou luz sobre a dinâmica de poderes políticos na mídia: o apresentador afirmou ter escutado o “canto da sereia” ao considerar a candidatura à presidência, mas veio da administração da Rede Globo a voz de comando que o trouxe de volta à realidade. Se fosse para se candidatar, teria de se demitir, sem possibilidade de retorno. Afinal, onde se tem mais poder: em frente às câmeras ou por trás delas? E como um programa de entretenimento pode criar um ícone político?
luciano huck
O apresentador Luciano Huck desistiu de se candidatar a presidente em 2018, após a Rede Globo
exigir que ele se demitisse da empresa caso fosse adotar a carreira política.
Foto: Justo Ruiz (Flickr)
The Intercept Brasil: A senhora pode explicar um pouco sobre como vocês analisam a relação entre mídia e política?
Suzy dos Santos: A nossa pesquisa tenta entender quais são as interligações entre o sistema midiático e o sistema político. Estudamos como, dentro do sistema capitalista no Brasil, os meios [de comunicação] se inserem. Não nos interessa abarcar o sistema midiático como um todo, nem o político como um todo, mas onde eles têm intersecção. E a principal intersecção é o que estamos chamando de “coronelismo eletrônico”, que é o momento da vida política nacional.
A gente trabalha com [o conceito de] coronelismo porque a imagem do coronel é uma imagem muito forte para o Brasil culturalmente. Os próprios coronéis mandavam fazer o panfletinho ou tinham seu jornal. Mas o que acontece, em especial a partir de 2013, é um fortalecimento de vínculos midiáticos com a política. Então, apesar de termos donos de rádio e televisão que são políticos fortes desde os anos 1980, isso vem aumentando [nos últimos anos].
TIB: Coronéis que são personagens constantes também nas novelas…
S.S.: A personagem coronel é muito rica. Primeiro porque resgata e mantém a imagem de um grande líder autoritário. Mas o coronel nunca é vilão nas novelas da Globo. [Desde a redemocratização], a gente não teve um coronel que morreu porque era ruim, ou que foi muito ruim e que ficou preso.
O coronel é sempre humanizado. Ele é quase o avô da gente, um senhor meio atrasado, mas sempre com a tônica do humor, sempre um grande amante, sempre muito ligado à família. Os atores são sempre galãs ou pessoas que a gente não associa ao mal: Antônio Fagundes, Osmar Prado, Paulo Gracindo, Lima Duarte. O coronel é um cara, no fundo, bonzinho.
Essa figura é pontualmente dada sem observar a marca terrível que tem no Brasil o mandonismo, a quantidade de trabalho escravo vinculado aos coronéis que existem ainda hoje, a quantidade de violências que eles perpetuam nas suas comunidades, a concentração do poder, o uso patrimonial do que é público por essas figuras. Mas, na novela, o coronel é sempre uma coisa meio simpática.

TIB: E como surge o coronelismo digital?
S.S.: Em 1985, você tem um marco: é a primeira vez que um empresário de comunicação é convidado a indicar o ministro das Comunicações. A partir da hora em que Roberto Marinho indica Antonio Carlos Magalhães, o ministro se faz radiodifusor – e não era. Ele dá outorgas para ele mesmo, o próprio presidente da República se dá outorgas e constitui uma rede de televisão; todos afiliados a essa mesma grande corporação.
No último dia de mandato de Sarney e ACM, eles concedem 1.068 concessões, o dobro do que já existia antes, muitas delas vinculadas ao até então PFL. No período FHC [1995-2003], isso mais do que dobra, com [muitas concessões com] vínculos com o PSDB.
Nos 8 anos de governo Lula e nos 5 anos de governo Dilma, o PT não se tornou um grande proprietário de rádio e televisão, como aconteceu com o PFL, PMDB e PSDB nos mandatos anteriores. No entanto, nesse período, observa-se uma pulverização muito forte da Rede Record, há um investimento no aumento das redes religiosas.

Tem um certo mito no Brasil que ninguém governa sem a Globo. De que o tamanho da Rede Globo é tal que você não governa sem ela. E é mito porque não se comprova, não houve ruptura para a gente ver se governa ou não.
TIB: Como você vê a postura do PT em relação à Globo, por exemplo?
S.S.: Tem um certo mito no Brasil de que ninguém governa sem a Globo. De que o tamanho da Rede Globo é tal que você não governa sem ela. E é mito porque não se comprova, não houve ruptura para a gente ver se governa ou não. Ninguém ousou questionar. Nem um governo de esquerda, quando se esperava que esse questionamento aconteceria.
A opção do PT, em todos os seus mandatos, foi de jamais enfrentar a Globo ou qualquer proprietário. Não mudou a legislação, não criou mecanismos de diversidade. Se, em alguns outros segmentos, a gente teve mudanças de tônica, em política de comunicação não há uma mudança de tônica desde 1985. A tônica sempre foi de fazer um acordo e respeitar as vontades do circo midiático.
O exercício político no Brasil, de 1985 para cá, esteve sempre atrelado a concessões de rádio e televisão e negociações que envolvessem comunicação. O cara começa a ter um pouco de dinheiro num lugar, começa a ter um pouco de poder em qualquer município, e a primeira coisa que ele faz é contratar alguém para fazer um portal para ele. Depois, quando ele tem alguma visibilidade, consegue negociar com um deputado estadual e monta uma rádio. Depois compra uma televisão, e aí monta seu feudo. Esse sistema está profundamente arraigado e articulado de tal forma que o sistema midiático e o sistema político, hoje, não sobrevivem sem essa simbiose.

TIB: Como a senhora percebe a influência desse grupo — que é tanto político quanto comunicador — na opinião pública em geral?
S.S.: Há um aumento muito grande do que a gente chama de comunicadores políticos [apresentadores de televisão e jornalistas que se candidatam]. Eles sempre existiram no sistema midiático brasileiro. No entanto, se tornam muito presentes e muito fortes no Congresso Nacional nas três últimas legislaturas. Em especial, na penúltima e nessa última.
O que será dito no jornal na hora do almoço e o que será dito no programa religioso de aconselhamento, à meia-noite, está diretamente ligado aos interesses dos deputados federais que são apresentadores. E quase todos os deputados mais votados nas últimas legislaturas são apresentadores. Desses, a gente tem que destacar o Celso Russomano, que está no ar [no programa “Hoje em Dia”, da Record] e na legislatura [deputado federal pelo PRB-SP] ao mesmo tempo. Identificamos 168 parlamentares na Câmara dos Deputados diretamente ligados a veículos de comunicação.

TIB: Como isso se reflete na discussão das reformas trabalhista e previdenciária?
S.S.: O que é dito nos meios de comunicação passa pelo crivo partidário e pelo crivo das elites. São majoritariamente pautados pelos interesses empresariais, não pelos interesses sociais, menos ainda pelos interesses históricos ou de mudança social no Brasil. Então, se você olha a programação, é interessante perceber como se articula o discurso para uma voz única. O sistema midiático brasileiro, há muito tempo, tem uma hegemonia de uma voz quase em uníssono. São concorrentes às vezes, empresas que competem pela audiência. E esse discurso não é exclusivo do jornalismo. O entretenimento produz sentido de uma forma muito mais sutil e muito mais profunda.

O sistema midiático brasileiro, há muito tempo, tem uma hegemonia de uma voz quase em uníssono.
TIB: E como funciona essa dinâmica de influência do entretenimento em aspectos políticos?
S.S.: É fundamental a gente perceber que o entretenimento tem um poder simbólico muito maior do que o próprio jornalismo. Quando eu era criança, a hora do Jornal Nacional era a hora que a gente ia jantar, era o mais chato. Mas a novela todo mundo assistia, o programa de humor todo mundo assistia. Isso é um hábito histórico no Brasil. A gente internaliza o comportamento vendo mídia. Especialmente por isso, o sistema de entretenimento tem um poder.
TIB: A senhora poderia dar um exemplo recente?
S.S.: O último coronel do Antônio Fagundes, o coronel Saruê. Ao final da novela [“Velho Chico”, novela das 21h, da Globo], ele contribui para as investigações do processo Gaiola Dourada e vira um delator. No último capítulo, perguntam a ele: “Por que você está fazendo isso?” Ele responde: “Porque o Brasil precisa ser passado a limpo e eu não devo nada para ninguém, a não ser a minha família”. Essa novela foi transmitida de março a setembro de 2016. Em abril, os deputados todos falavam que votavam o impeachment pela família. Nessa mesma época, escrevi um livro cujo título é “Sempre foi pela família”, porque essa pauta da família aparece na Globo com muita clareza em muitos momentos.

TIB: Além do entretenimento, ainda há canais religiosos e suas programações. Como eles entram nesse contexto?
S.S.: Um terço do nosso sistema de rádio e televisão está vinculado a igrejas [católica e evangélicas]. Ter conteúdo vinculado às grandes pautas políticas na programação religiosa é algo mais complexo que o entretenimento, porque a fidelidade é maior do que na telenovela.
Cada vez mais, vende-se o horário para políticos – embora isso seja ilegal — e para igrejas. É um tópico relevante na existência desses meios. Porque a gente não tem um mercado publicitário tão robusto que sustente tantos veículos.
Os  veículos religiosos, inclusive Rede Vida e Record, não estão necessariamente compartilhando todas essas pautas econômicas [apoiando as reformas]. Isso porque eles não dependem da publicidade, dependem do dízimo, é outra lógica.
TIB: Esse discurso único de que a senhora falou há pouco aponta também para um candidato único para 2018?
S.S.: O discurso único acontece em grandes pautas e grandes interesses. A reforma trabalhista é considerada, assim como a previdenciária, uma grande pauta, necessária para se tocar as mudanças que se pretendem. Mas não há perspectiva para a eleição de 2018 de um grande candidato de um bloco único. É diferente do que se formou em torno de FHC em 1994. Ali, você tinha um bloco único em torno de um candidato. Assim como, em um certo momento, todos estavam com o Lula. Mas não há isso até agora. Existe inclusive uma competição. Pode acontecer de a Globo estar com um candidato e o Edir Macedo, junto do PRB, estar com outro.
A Record, por conta da base material de Edir Macedo, tem uma base bem mais marginal que a da Rede Globo, da Band, da Folha… Tem um bloco do eixo Rio-SP vinculado à mídia mais tradicional que vai, sim, com discurso único, associado principalmente à pauta empresarial.

TIB: Nesse eixo, a hegemonia da Globo permanece intacta?
S.S.: A Globo sempre teve seus senadores, ministros e presidentes. Collor era afilhado da Globo, Sarney era afilhado da Globo, ACM era afilhado da Globo e amigo de Roberto Marinho, indicado por ele. Até no governo petista teve o Hélio Costa. Então, historicamente, os ministros da comunicação eram pessoas de confiança da Globo. Mais recentemente, o que se percebe, principalmente a partir dos comunicadores políticos, é que eles não estão numa rede só. E a maior parte deles hoje não está na Globo. Então, há uma certa disputa.
[Do ponto de vista da Globo], o inimigo ganhou a prefeitura do Rio [em 2016]. Não dá para desatrelar o Marcelo Crivella ou o PRB da Record. Com a quantidade de políticos evangélicos vinculados à Igreja Universal aumentando, além do público evangélico como um todo, a Rede Globo tem um inimigo interno muito forte nos calcanhares. A Record é tão agressiva quanto a Globo e faz por imitação a mesma coisa que a Globo fez ao longo de muitos anos, criando seus políticos.
A Globo se estruturou mantendo uma base de afilhados políticos locais, embora a família Marinho jamais fosse exercer um mandato eletivo. A Record cresceu na mesma lógica, [mas transformando] os apresentadores, que têm um diálogo direto popular, em políticos. Hoje, eu não vejo a pauta da Rede Globo como vitoriosa, decidindo o que vai acontecer, como era em 1986 com o Sarney. Vejo como alguém que está disputando e que tem também seus vários inimigos em volta.

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Como torcedores do Flamengo revelaram peça em quebra-cabeça de mercado de fakes Juliana Gragnani.

Ilustração mostra foto alterada em escudo do Flamengo
Jonh Azevedo estava sempre cansado. Em dois meses, disse 20 vezes a seus seguidores do Twitter que era hora de repousar: "Descansar, que amanhã será um longo dia, boa noite", "Descansar, que hoje foi um dia bastante cansativo. Boa noite", "Descansar depois desse longo dia de trabalho, boa noite a todos".
Sua estafa passaria despercebida não fosse uma interferência indevida: Jonh começou a entrar em discussões no Twitter sobre as eleições para a presidência do Flamengo.
Seu rosto, nome e publicações incomuns chamaram a atenção de torcedores do time de futebol, que formam uma grande comunidade na rede social, com perfis que têm até 50 mil seguidores. Foi assim que, em 2015, sem se dar conta, eles descobriram mais uma peça no quebra-cabeça de um suposto mercado de fakes no Brasil.
Uma investigação exclusiva da BBC Brasil, parte da série Democracia Ciborgue, apontou que pelo menos uma empresa, a Facemedia, teria incluído a atuação de uma espécie de exército de mercenários fakes como parte de serviços em redes sociais oferecidos a clientes, entre eles políticos.
Image caption Conta falsa no Twitter mescla mensagens de 'cansaço' com apoio a Wallim | Foto: Reprodução/Twitter

'Filhão'

Jonh Azevedo teve sua conta criada em setembro de 2012. Ficou um mês sem tuitar até começar a dar pistas de sua vida: síndico de um prédio ("Condomínio agitado hoje!! Dois locais com música alta!"), pai orgulhoso ("Filhão terminando mais um semestre na faculdade!! Muito orgulho!"), fã de futebol ("E essa Copa heim!! Quanta seleção eliminada já!!").
Em outubro de 2014, alguns de seus tuítes passam a mostrar que ele apoiava Aécio Neves (PSDB-MG), então candidato a presidente da República. A BBC Brasil encontrou na prestação de contas do partido pagamentos de R$ 360 mil para a Facemedia. Não há evidências, no entanto, de que a campanha do tucano e os outros supostos beneficiados pelas atividades estivessem cientes da atuação de fakes.
As postagens de Jonh Azevedo seguem até dezembro do ano das eleições presidenciais, quando ele para de tuitar. Só volta a publicar novamente em outubro de 2015, agora demonstrando seu apreço por Wallim Vasconcelos, candidato da Chapa Verde à presidência do Flamengo naquele ano.
Coincidentemente, outro perfil no Twitter publicava mensagens muito parecidas às de Jonh. O cansaço era generalizado: no dia 1º de dezembro de 2015, tanto Jonh Azevedo quanto Vinny Silva escreveram: "Descansar que amanhã será um longo dia, boa noite" com menos de uma hora de diferença e as exatas mesmas palavras.
O histórico de Vinny Silva no Twitter, hoje um perfil abandonado, mostra que ele também apoiou Aécio nas eleições presidenciais do Brasil e Wallim nas do Flamengo.
Image caption Tuítes iguais de dois perfis falsos diferentes no Twitter | Foto: Reprodução/Twitter

Fakes verdadeiros x Fakes falsos

"Os perfis eram estranhos. A maneira como eles tuitavam era estranha. Não falavam como as pessoas falam no Twitter, sabe?", lembra o estudante Maurício Morais, de 19 anos.
Torcedor do Flamengo, Morais faz parte da "FlaTwitter", como se denominam os flamenguistas reunidos na rede social. Ao verificar o perfil dos usuários com quem estavam discutindo sobre as eleições do clube, disputadas por Wallim e Eduardo Bandeira de Mello, os torcedores começaram a desmascarar os fakes.
Foi um esforço conjunto dos "fakes verdadeiros", como define Morais - pessoas que, como ele, controlam perfis satíricos deixando claro que estão fazendo isso, sem enganar outros usuários. "Tinham nomes muito genéricos e fotos de perfil claramente manipuladas."
"A gente começou a notar umas contas bem estranhas apoiando a Chapa Verde. Contas que não tinham informação alguma, e o melhor eram as fotos de perfil, muito ridículas", diz o estudante flamenguista Pedro Nieto, que tem 22 anos e quase 27 mil seguidores no Twitter.

Fotos roubadas e manipuladas

A primeira estratégia que usaram pode ser utilizada por qualquer um para identificar se a foto usada por um perfil é roubada: salvaram as fotos de perfil dos usuários e, em uma ferramenta de busca como o Google, optaram por fazer uma busca pela imagem. O resultado mostra os sites onde a foto já foi publicada na internet. "Descobrimos que tinha até foto de gente que já tinha falecido no meio", afirma Nieto.
Depois que os primeiros fakes começaram a ser desmascarados no Twitter, outros começaram a mudar sua foto de perfil, manipulando as imagens para impedir o rastreamento.
Image caption O jornalista André Moragas e, ao lado, sua foto distorcida por um perfil falso | Fotos: Arquivo Pessoal e Reprodução/Twitter
A imagem de "Jonh Azevedo", por exemplo, pertence na verdade ao jornalista carioca André Moragas, de 46 anos. Sua foto foi distorcida: o nariz foi aumentado e, os olhos, diminuídos. "Um ex-aluno meu que trabalha com redes sociais me mandou um print", lembra ele, que também é flamenguista. Na ocasião, procurou a assessoria de imprensa do Flamengo e pessoas ligadas à campanha da Chapa Verde, considerando que o perfil falso apoiava o grupo, e pediu que tomassem alguma providência. "Eles disseram que não sabiam do fato e desconversaram", afirma.
Segundo quatro pessoas que se dizem ex-funcionários da Facemedia ouvidas pela BBC Brasil e cujos depoimentos sobre o trabalho para a empresa coincidem, ela contratava pessoas em todo o Brasil para controlar de 20 a 50 perfis falsos cada uma. Os fakes seriam alimentados por postagens automatizadas e pela atuação desses funcionários. A atuação dos chamados ciborgues seria, segundo eles, oferecida como parte de um pacote de serviços relacionados às redes sociais.
O dono da empresa, o carioca Eduardo Trevisan, nega que ela tenha produzido fakes. Trevisan também é criador da página Lei Seca RJ, que informa seus 1,7 milhões de seguidores os locais de blitze no Rio de Janeiro. Por sua vez, a assessoria que prestou serviços a Wallim à época da eleição no Flamengo confirma que a Facemedia foi contratada, mas diz que fazia apenas monitoramento das redes.
"Pelo tempo curto de campanha, optamos por receber relatórios sobre performance nas redes sociais. Recebíamos relatórios de aceitação da chapa nas redes. Um termômetro que apontava pontos positivos e negativos das chapas (tanto a nossa quanto dos concorrentes), dos candidatos e seus apoiadores. O trabalho deles era somente monitorar, captar dados, compilar relatórios para que tivéssemos como trabalhar nossa estratégia de atuação", diz em nota.
"Na reta final de campanha, surgiram nas redes perfis fakes, em grande quantidade e, ao questionarmos sobre este surgimento, se estava associado à agência, recebemos a resposta formal por eles que não se utilizam desta estratégia. Na ocasião, passamos a denunciar os perfis, a única forma de combater a atuação, uma vez que não tínhamos como saber sua origem."
Wallim diz que "eleição é um processo em que muitas histórias são criadas, na maioria das vezes denegrindo a imagem de quem participa". "Infelizmente, (o uso de fakes) se tornou uma prática usual no mundo inteiro. Na minha opinião, a melhor forma de combater isso é através da denúncia e também do incentivo às pessoas para que procurem sempre se informar em fontes oficiais."

Guerra dos fakes

Quando os fakes da Chapa Verde começaram a ser descobertos, o "Arqueiro Rubro" entrou na jogada. Era um perfil criado para denunciar os perfis falsos que seriam ligados à chapa adversária, a Azul - ou seja, representava um contra-ataque dos fakes da Chapa Verde, que tentava acusar o lado rival de usar as mesmas armas que eles estariam usando.
Um deslize, no entanto, acabou denunciando a ligação dos perfis falsos com a página Lei Seca RJ, de Eduardo Trevisan.
Image caption Perfil falso criado para 'contra-atacar' chapa adversária | Foto: Twitter/Reprodução
Ao denunciar perfis que estariam apoiando a Chapa Azul, o "Arqueiro Rubro" escreve "EBM, você errou com a nação", em referência a Eduardo Bandeira de Mello, da chapa oposta, e cola uma captura de tela de uma plataforma externa ao Twitter que permite o controle de mais de um perfil ao mesmo tempo. A imagem que colou mostraria perfis falsos ou robôs apoiando a Chapa Azul.
Mas, embaixo da descrição do perfil colado pelo "Arqueiro Rubro", lê-se: "zz063ii053 is not following LeiSecaRJ" (zz063ii053 não está seguindo LeiSecaRJ), uma mensagem que só apareceria para quem estivesse logado como administrador tanto no perfil do "Arqueiro Rubro" quanto da página "Lei Seca RJ", de Trevisan.
O perfil do "Arqueiro Rubro" não existe mais - captura de tela foi feita por um dos flamenguistas que identificaram os fakes na ocasião. O rastro deixado é mais uma das várias evidências ligando os perfis falsos à Facemedia, de Trevisan.
Image caption Conta falsa no Twitter mostra ligação com página 'Lei Seca RJ' (destaque em vermelho) | Foto: Reprodução/Twitter

'Tiro de canhão'

"Imagino que fazem plantações de perfis falsos e deixam maturando. Esse cara não surgiu ontem, surgiu há cinco anos, se conectando e captando seguidores. Na hora que começa a agir, não é tão fácil identificar que é falso", diz Moragas, o verdadeiro dono da foto de Jonh. "Eles ganham no volume, com 200, 300 perfis falsos assim. É muito mais tiro de canhão do que espingarda, não é cirúrgico. Assim, devem conseguir ter uma influência muito grande em época de eleição."
De fato, uma das estratégias narradas pelos entrevistados pela BBC Brasil era a participação em massa dos fakes em "tuitaços", quando vários usuários publicam mensagens sobre um mesmo tema para chamar a atenção de outros usuários e ficar entre os tópicos mais comentados do Twitter. A investigação da BBC Brasil encontrou mais de 100 perfis falsos no Twitter e no Facebook que seriam ligados à empresa Facemedia. Vinte desses perfis tuitaram sobre a Chapa Verde.
Para o estudante Maurício Morais, os fakes ligados à chapa não surtiram muito efeito - "é uma tentativa desesperada", diz. Wallim perdeu as eleições para Eduardo Bandeira de Mello, que se reelegeu pela Chapa Azul com mais que o dobro dos votos do rival.

Frases humanas, mas robóticas

O objetivo de usar ciborgues, uma mistura de humanos com computador, é humanizar os perfis falsos, de forma que pareçam mais reais. A quebra dos padrões da automatização também dificultam a detecção por computador.
No entanto, embora as contas fossem controladas por pessoas, a pouca sofisticação das frases tuitadas acabaram fazendo com que os humanos ironicamente se assemelhassem mais a robôs, que funcionam reproduzindo mensagens automatizadas, do que a pessoas comuns.
Sua pobreza vocabular acabou contribuindo para sua identificação como falsos. Na época, identificar a quantidade de repetições de frases e palavras foi a segunda estratégia usada pelos torcedores do Flamengo para identificá-los como fakes.
Um dos entrevistados da BBC Brasil explica que às vezes "faltava criatividade" para criar mensagens distintas controlando tantos perfis falsos ao mesmo tempo - cada funcionário controlava entre 20 a 50 perfis com histórias de vida particulares.
Por meio de uma plataforma externa ao Twitter, programavam mensagens para entrar em diferentes horas do dia. Muitos acabavam escolhendo comentar situações mais genéricas, como a hora do almoço ou a hora de ir dormir.
Hoje, não existe apenas o fake "Jonh Azevedo" no Twitter, como também um "fake do fake", "Jonh Azevedoo", criado por torcedores do Flamengo - gozação com a fracassada tentativa do "fake original".
"Cansado de tanto descansar. Vou descansar. Boa noite", tuitou o usuário, brincando com a quantidade de "descanso" do fake original. "Assunto de política no Flamengo é muito cansativo, vou descansar um pouco."

Imagens

Moragas não foi o único a ter sua foto roubada e modificada pelos perfis falsos brasileiros.
"Não sou filiada a nenhum partido. É um absurdo usarem a minha foto para ilustrar algum tipo de campanha política. É mais uma prova de que os políticos não têm ética alguma", afirma a jornalista Flavia Werlang, de 38 anos, uma das pessoas que tiveram uma foto roubada.
Sua foto ilustra o perfil de "Thais Falkemberg", uma mulher de Fortaleza que publicou textos a favor do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) em 2014. A imagem utilizada pelo perfil foi retirada de uma entrevista que Werlang deu ao site UOL em 2013, quando mantinha um blog sobre maternidade.
Após a publicação da primeira reportagem da série Democracia Ciborgue, o perfil foi desativado.
Image caption Perfil falso de Fortaleza usa foto de jornalista que vive em Florianópolis | Foto: Reprodução/Facebook
"Você está vivendo sua vida e não faz ideia de que estão usando sua imagem para isso", diz ela, que mora na outra ponta do país, em Florianópolis.
Após a publicação da primeira reportagem da série Democracia Ciborgue, da BBC Brasil, a conta foi suspensa do Facebook.
Image caption "Leticia Priori", perfil falso no Facebook ativo em 2014, usa foto de mulher morta em 2013 | Foto: Reprodução/Facebook
A imagem usada pelo perfil falso "Leticia Priori", ativo no Twitter e no Facebook em 2014, pertence a Tatiane Ferreira, que foi morta em um crime em 2013 na Estrada de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Sua foto foi retirada de uma notícia do portal R7. A reportagem tentou contato com sua família, sem sucesso.
Image caption Foto original de mulher morta em 2013 foi exibida em reportagem do R7 | Foto: Reprodução
Outra mulher que teve sua foto roubada pediu à reportagem que não publicasse sua foto nem a do perfil que a roubou. O motivo: ela teme piorar o problema, que teve início quando ela deu uma entrevista, na época de faculdade, sobre pessoas que estavam tentando parar de fumar. Uma foto sua ilustrou a reportagem.
"Fiquei muito assustada quando soube que minha foto está sendo usada em um perfil fake, para enganar pessoas. Já tinha ouvido falar muitas vezes sobre isso, mas nunca pensei que um dia pudesse acontecer comigo. Me senti violada e impotente", diz. "Crime digital ainda é pouco divulgado, e as pessoas não sabem como se defender nem como procurar ajuda."

'Vou descansar'

Moragas, dono da verdadeira foto de "Jonh Azevedo", não sabia que o perfil falso ainda estava no ar quando foi abordado pela reportagem. "Achei que a essa altura já não estaria mais online. Lembro que sumiu durante um tempo", afirma. "Acabei nem denunciando para o Twitter porque nem tenho conta lá, mas gostaria que tirassem."
A maior parte dos perfis falsos encontrados pela reportagem da BBC Brasil atuava no Twitter. Em resposta à reportagem, a rede social informou que "a falsa identidade é uma violação" de suas regras. "As contas do Twitter que representem outra pessoa de maneira confusa ou enganosa poderão ser permanentemente suspensas de acordo com a Política para Falsa Identidade do Twitter. Se a atividade automatizada de uma conta violar as Regras do Twitter ou as Regras de Automação, o Twitter pode tomar medidas em relação à conta, incluindo a suspensão da conta."
Já o Facebook disse, em nota, que suas políticas "não permitem perfis falsos". "Estamos o tempo todo aperfeiçoando nossos sistemas para detectar e remover essas contas e todo o conteúdo relacionado a elas. Estamos eliminando contas falsas em todo o mundo e cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança online, e esperamos tomar medidas também no Brasil antes das eleições de 2018."
A empresa também informou que não pode comentar os perfis citados na reportagem porque não teve acesso a eles antes da publicação deste texto. "Entretanto, vale ressaltar que durante as eleições de 2014 mais de 90 milhões de pessoas no Brasil usaram a plataforma para debater temas relevantes para elas e engajar com seus candidatos."

O que fazer

O usuário que identificar que uma foto sua está sendo usada por um perfil falso deve começar coletando evidências, gerando capturas de tela mostrando o endereço virtual do perfil e incluindo data no canto da tela.
"A segunda providência, para evitar que a imagem continue sendo usada, é a denúncia do perfil na própria plataforma", diz a advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital.
Por fim, a vítima pode registrar um boletim de ocorrência, dando início a um inquérito policial, ou entrar direto com uma ação civil. Também pode tomar as duas medidas.
Os perfis falsos que usaram fotos de pessoas reais cometeram o crime de falsa identidade e o ilícito civil do uso não autorizado de imagem, que pode dar às donas das fotos o direito de pedir indenização. Podem argumentar na Justiça que houve crime contra a honra, por difamação. "Quando alguém fala como se fosse outra pessoa, pode construir uma imagem diferente da dela e ferir sua imagem e reputação", explica Peck.

O que dizem os citados na reportagem

Eduardo Trevisan

"A Facemedia é uma empresa de comunicação digital consolidada no mercado há dez anos. Nesse período, prestamos serviços para mais de uma centena de clientes. Nossa empresa é especializada em planejamento estratégico de marketing digital, criação e manutenção de sites e perfis, monitoramento de redes e bigdata, especializada em diversas técnicas de marketing como SEO, SEM, copywriting, branding, design thinking, relacionamento com influenciadores digitais entre outros. Além de atender a ampla carteira de clientes privados, a Facemedia utiliza seu know-how de mobilização digital em causas sociais. Em 2011, por exemplo, a Facemedia foi agraciada pelo The New York Times com o 'Oscar do Twitter', pela ajuda humanitária aos desabrigados da tragédia das chuvas que atingiram a Região Serrana no Rio de Janeiro. Na ocasião, centenas de pessoas em situação de risco foram ajudadas por meio dos canais digitais da empresa, com mais de 5 milhões de pessoas conectadas. As conexões entre os perfis são estabelecidas por critérios das próprias redes sociais, inexistindo o conceito de 'vinculação', sugerido na pergunta. Os serviços em campanhas eleitorais prestados pela Facemedia estão descritos e registrados pelo TSE, de forma transparente. Por questões éticas e contratuais, a Facemedia não repassa informações de clientes privados."

Assessoria que prestou serviços a Wallim Vasconcelos na época da eleição

"O uso da Facemedia em campanha foi para monitoramento e reação nas redes. Pelo tempo curto de campanha, optamos por receber relatórios sobre performance nas redes sociais. Fechamos um valor simbólico, já que nossa campanha foi toda feita através de voluntários, e apoiadores. Recebíamos relatórios de aceitação da chapa nas redes. Um termômetro que apontava pontos positivos e negativos das chapas (tanto a nossa quanto dos concorrentes), dos candidatos e seus apoiadores. O trabalho deles era somente monitorar, captar dados, compilar relatórios para que tivéssemos como trabalhar nossa estratégia de atuação. Eles nunca usaram nossas redes de campanha nem acesso a dados nossos. Na reta final de campanha, surgiram nas redes perfis fakes, em grande quantidade, e ao questionarmos sobre este surgimento, se estava associado à agência, recebemos a resposta formal por eles, que não se utilizam desta estratégia. Na ocasião passamos a denunciar os perfis, que era a única forma de combater a atuação, uma vez que não tínhamos como saber sua origem."

Manuel Castells: “O grande erro da esquerda é pensar que movimentos sociais são sempre bons”, por Flávia Milhorance.


“Sopram ventos malignos no planeta azul”.
É com essa sentença que o catalão Manuel Castells, um dos sociólogos mais citados do mundo, abre seu mais novo livro, do qual ele falou, pela primeira vez publicamente, no Rio de Janeiro esta semana.
O recém-lançado “Ruptura: La crisis de la democracia liberal” (Alianza Editorial, ainda sem tradução para o português) resume em 128 páginas um cenário mundial ainda vítima dos ecos da crise financeira global, assolado por mudanças climáticas, que enfrenta um terrorismo fanático e sofre inúmeras violações de direitos humanos. Além dessas crises, vive outra, talvez irreversível: a da democracia liberal. Um colapso, em várias nações, da relação entre governantes e governados.
“Meu ponto de partida é muito simples: se, mesmo em países com distintas características e especificidades próprias, surge o mesmo fenômeno, então podemos pensar como hipótese que é o modelo que está caindo”, resumiu no evento.
Professor celebrado em universidades de Estados Unidos, França, Espanha e Inglaterra, Castells é também leitura quase certa de cursos de ciências humanas no Brasil. Daí a lotação desta quarta (6) à noite do Teatro Oi Casa Grande, na zona sul do Rio de Janeiro, que recebeu quase mil pessoas para a sua palestra no seminário “Urbe – Perspectivas contemporâneas”.

Que crise é essa, afinal?

No seu livro anterior, “Redes de indignação e esperança – Movimentos sociais na era da internet”, lançado em 2012, Castells já alertava para como populações ao redor do mundo andavam descrentes de suas instituições, especialmente políticas; descrentes, inclusive, de movimentos contrários aos governos, como os partidos de oposição. Desiludidas, portanto, das instituições políticas que “não as representavam”.
Em linhas gerais, conforme mostram estudos como o Trust Barometer, do Instituto Edelman, a maioria das pessoas, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, acredita cada vez mais que os partidos priorizam apenas seus interesses e que os governos são corruptos, injustos, burocráticos e opressivos.
“Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes”
Segundo Castells, esse espírito geral acabou se traduzindo em grandes protestos de rua que, em comum, não tinham lideranças claras e eram gestados na internet. Na publicação de 2012, o pesquisador olhou para as manifestações surgidas a partir de 2010, como o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos; o movimento dos indignados, na Espanha; e o início da Primavera Árabe – a grande onda revolucionária que começou por Tunísia e Egito e percorreu outros países do Oriente Médio e Norte da África.
À época, essas manifestações estavam carregadas de um sentimento de indignação, mas também, como Castells ressaltou no próprio título, de esperança com relação a um futuro mais democrático, mais igualitário.
“De início, eram uns poucos, aos quais se juntaram centenas, depois formaram-se redes de milhares, depois ganharam o apoio de milhões, com suas vozes e sua busca interna de esperança, confusas como eram, ultrapassando ideologias e a publicidade para se conectar com preocupações reais na experiência humana real que fora reivindicada”.
Em “Redes de indignação e de esperança”, o professor não incluiu o exemplo do Brasil, mas visitou o país bem no começo dos protestos de 2013, quando milhares de pessoas – da direita e da esquerda – ainda ocupavam a mesma Avenida Rio Branco, no Rio, e outras ruas país afora, num movimento cujos objetivos, até então, estavam bastante difusos. Ele enxergou as manifestações brasileiras como mais uma expressão da rede interconectada de que fala em seu livro.
“O grande erro da esquerda é pensar que movimentos sociais são sempre bons, porque não são.
“Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes”, chegou a comentar em 2013. E avaliou como positiva aquela sintomática ausência de líderes que permeou o início do movimento: “Não há cabeças a serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas”.
Passados poucos anos, que mais parecem um século pela dimensão das transformações, Castells está bem menos esperançoso quanto aos desdobramentos desse processo. Sem instrumentos legítimos, não se solucionam crises, vaticinou o sociólogo durante sua palestra. E o resultado prático da descrença nas instituições, especialmente políticas, vem sendo a rejeição das formas partidárias existentes e a guinada em direção ao anti-establishment.
“Quando há crises que vão destruindo as bases da vida cotidiana nos planos econômico, social, cultural, ecológico, pessoal, e quando os instrumentos de gestão da sociedade parecem cada vez menos confiáveis, surgem movimentos destitutivos, não controlados por partidos e de distintas orientações ideológicas”, afirmou Castells no teatro.
“O grande erro da esquerda é pensar que movimentos sociais são sempre bons, porque não são. Vocês sabem no Brasil, os movimentos sociais surgem de todos aqueles setores e valores que não têm uma expressão direta, clara e aberta no sistema político, vão tanto da extrema-esquerda quanto a extrema-direita”, disse ainda.

Os exemplos da ruptura

Em sua mais recente publicação, Castells analisa expressões da ruptura do modelo de democracia liberal: a vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos; o resultado do Brexit, no Reino Unido; a desconfiguração partidária da França, que ameaçou eleger a figura da extrema-direita Marine Le Pen e deu a vitória a Emmanuel Macron, o “enterrador de partidos”.
“Trump surge desses movimentos sociais contra a crise das instituições. Trump ganhou a eleição contra os Democratas e contra os Republicanos”, afirmou o sociólogo na quarta-feira. “Foi um voto xenófobo e racista, mas também de desespero de zonas americanas mais afetadas pelas consequências econômicas da globalização, sobretudo a classe operária branca”.
E concluiu: “Trump não é um dirigente republicano tradicional. É um líder de um movimento social identitário, antiglobalização, racista e xenófobo”.
Para Castells, a saída do Reino Unido da União Europeia através do referendo do Brexit teve as mesmas motivações econômicas e ideológicas que o voto em Trump. Um fenômeno parecido se observa em outras regiões da Europa, como na Alemanha e nos países escandinavos: enquanto figuras e partidos tradicionais perdem status, grupos identitários e anti-establishment ganham participação política.

Movimento reversível?

E quais seriam as saídas da crise? “Não sei”, adianta o pesquisador. Mais moderado que no início da década sobre o potencial das redes na consolidação e no fortalecimento das democracias, ele afirmou que a internet é um instrumento importante que ajuda na transparência, mas não serve de solução. Lembrou também que as tentativas no mundo ocidental de controle das instituições ou de mudanças das regras da participação política acabaram não evitando a crise.
Para Castells, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Brasil foi um desses exemplos falhos de tentativa de controle de instituições políticas. Em tom de provocação e arrancando risos da plateia, afirmou que vamos virar especialistas mundiais da modalidade: “O Brasil terá comissões constitucionais, estudos virão aqui para ver como se fazem impeachments”.
O sociólogo, que diz ter uma relação profunda com o Brasil, considera que o país vive “uma total decomposição do sistema político”. Ele conta  ter lido todas as declarações dos deputados durante a votação que derrubou a  presidente Dilma, em agosto de 2016.
“Li desde aqueles que enviavam mensagens à mãe ao execrável Bolsonaro mencionando o torturador da presidenta. Vocês acreditam que isto é um processo típico da democracia liberal? Nem aqui, nem em parte nenhuma”, criticou.

Exclusivo: investigação revela exército de perfis falsos usados para influenciar eleições no Brasil, por Juliana Gragnani.

Ilustração e mãos guiando marionetes
São sete da manhã e um rapaz de 18 anos liga o computador em sua casa em Vitória, no Espírito Santo, e dá início à sua rotina de trabalho. Atualiza o status de um dos perfis que mantém no Facebook: "Alguém tem um filme para recomendar?", pergunta. Abre outro perfil na mesma rede. "Só queria dormir a tarde inteira", escreve. Um terceiro perfil: "Estou com muita fome". Ele intercala esses textos com outros em que apoia políticos brasileiros.
Esses perfis não tinham sua foto ou nome verdadeiros, assim como os outros 17 que ele disse controlar no Facebook e no Twitter em troca de R$ 1,2 mil por mês. Eram, segundo afirma, perfis falsos com fotos roubadas, nomes e cotidianos inventados. O jovem relatou à BBC Brasil que esses perfis foram usados ativamente para influenciar o debate político durante as eleições de 2014.
As evidências reunidas por uma investigação da BBC Brasil ao longo de três meses sugerem que uma espécie de exército virtual de fakes foi usado por uma empresa com base no Rio de Janeiro para manipular a opinião pública, principalmente, no pleito de 2014.
A estratégia de manipulação eleitoral e da opinião pública nas redes sociais seria similar à usada por russos nas eleições americanas, e já existiria no Brasil ao menos desde 2012. A reportagem identificou também um caso recente, ativo até novembro de 2017, de suposto uso da estratégia para beneficiar uma deputada federal do Rio.
A reportagem entrevistou quatro pessoas que dizem ser ex-funcionários da empresa, reuniu vasto material com o histórico da atividade online de mais de 100 supostos fakes e identificou 13 políticos que teriam se beneficiado da atividade. Não há evidências de que os políticos soubessem que perfis falsos estavam sendo usados.
Com ajuda de especialistas, a BBC Brasil identificou como os perfis se interligavam e seus padrões típicos de comportamento. Seriam o que pesquisadores começam a identificar agora como ciborgues, uma evolução dos já conhecidos robôs ou bots, uma mistura entre pessoas reais e "máquinas" com rastros de atividade mais difíceis de serem detectados por computador devido ao comportamento mais parecido com o de humanos.
Parte desses perfis já vinha sendo pesquisada pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenado pelo pesquisador Fábio Malini.
"Os ciborgues ou personas geram cortinas de fumaça, orientando discussões para determinados temas, atacando adversários políticos e criando rumores, com clima de 'já ganhou' ou 'já perdeu'", afirma ele. Exploram o chamado "comportamento de manada".
"Ou vencíamos pelo volume, já que a nossa quantidade de posts era muito maior do que o público em geral conseguia contra-argumentar, ou conseguíamos estimular pessoas reais, militâncias, a comprarem nossa briga. Criávamos uma noção de maioria", diz um dos ex-funcionários entrevistados.
Esta reportagem é a primeira da série Democracia Ciborgue, em que a BBC Brasil mergulha no universo dos fakes mercenários, que teriam sido usados por pelo menos uma empresa, mas que podem ser apenas a ponta do iceberg de um fenômeno que não preocupa apenas o Brasil, mas também o mundo.
Segundo Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), a suspeita de que esse seria um serviço oferecido normalmente para candidatos e grupos políticos "faz pensar que a prática deva já estar bem disseminada nesse ambiente político polarizado e que vai ser bastante explorada nas eleições de 2018, que, ao que tudo indica, serão ainda mais polarizadas que as últimas de 2014".
Philip Howard, professor do Instituto de Internet da Oxford, vê os ciborgues como "um perigo para a democracia". "Democracias funcionam bem quando há informação correta circulando nas redes sociais", afirma, colocando os fakes ao lado do problema da disseminação das fake news, ou seja, notícias falsas.
Direito de imagem Getty Images
Image caption Robôs estariam tentando manipular opinião pública nas redes sociais no Brasil desde 2012

Exército fake

Em 2012, segundo os entrevistados pela BBC Brasil, o empresário carioca Eduardo Trevisan, proprietário da Facemedia, registrada como Face Comunicação On Line Ltda, teria começado a mobilizar um exército de perfis falsos, contratando até 40 pessoas espalhadas pelo Brasil que administrariam as contas para, sobretudo, atuar em campanhas políticas.
Inicialmente, a BBC Brasil entrou em contato com Trevisan por telefone. Ele negou que sua empresa crie perfis falsos. "A gente nunca criou perfil falso. Não é esse nosso trabalho. Nós fazemos monitoramento e rastreamento de redes sociais", afirmou, pedindo que a reportagem enviasse perguntas por email.
"Os serviços em campanhas eleitorais prestados pela Facemedia estão descritos e registrados pelo TSE, de forma transparente. Por questões éticas e contratuais, a Facemedia não repassa informações de clientes privados", respondeu, posteriormente, por email (leia resposta completa na parte final desta reportagem).
Image caption Empresário criou a página Lei Seca RJ, que alerta motoristas para locais de blitze no Rio | Reprodução/Facebook
Trevisan, cujo perfil pessoal no Twitter carrega a descrição "Brasil, Pátria do Drible", tem quase um milhão de seguidores. Ele ganhou projeção com sua página Lei Seca RJ, criada em 2009. Seguida por 1,2 milhão de usuários, ela alerta motoristas para locais de blitze no Rio.
Um ex-funcionário disse ter sido contratado justamente achando que trabalharia administrando o Twitter do Lei Seca RJ.
"Era um trabalho bem sigiloso. Não sabia que trabalharia com perfis falsos", diz.
Quando descobriu, conta, passou a esconder de amigos e familiares o que fazia. Hoje, afirma, tem medo de falar, porque trabalhou "para gente muito importante" e teria assinado um contrato de sigilo com a empresa.

Políticos

Os depoimentos dos entrevistados e os temas dos tuítes e publicações no Facebook levam aos nomes de 13 políticos que teriam sido beneficiados pelo serviço, entre eles os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE).
A atuação era variada. Para Aécio, perfis supostamente falsos publicaram, por exemplo, mensagens elogiosas ao candidato durante debate com Dilma Rousseff (PT) na campanha de 2014: "Aécio é o mais bem preparado". No caso de Renan, criaram uma hashtag para defendê-lo durante protestos em 2013 que pediam o impeachment do então presidente do Senado: #MexeuComRenanMexeuComigo. Foi apoiada por usuários como "Patrick Santino", que usa a imagem de um ator grego no perfil. Já sobre Eunício, divulgaram voto durante as eleições: "Vou com 15. Melhores propostas".
Não há evidências de que os políticos soubessem que o uso de perfis falsos fazia parte de um serviço de consultoria em redes sociais (veja ao final desta reportagem a resposta completa de cada um).
Image caption Foto do ator e cantor grego Sakis Rouvas, usada para ilustrar perfil falso | Foto: Reprodução/Instagram

Monitorados por Skype

Os funcionários, segundo os relatos, ficavam em diferentes Estados do país, trabalhando de casa e monitorados por Skype. Quando se levantava para ir ao banheiro, conta um deles, era preciso explicar sua ausência pelo Skype a um coordenador.
Jovens e na maioria das vezes sem curso superior, eles contam que eram chamados na empresa de "ativadores". Recebiam de profissionais mais graduados uma "ficha técnica" e perfis prontos do que chamavam de "personas". Continham foto, nome e história de cada um - de onde era, se era casado, se tinha filhos e quais eram seus gostos, hobbies e profissão.
Eles teriam de "ativar" o perfil, alimentando e dando prosseguimento à narrativa criada, mesclando publicações sobre sua rotina com postagens apoiando políticos.
Segundo as diferentes entrevistas, um controlador de perfis falsos recebia por volta de R$ 800 mensais quando começava a trabalhar na empresa. Nas eleições de 2014, o salário teria subido para até R$ 2 mil.
Fotos eram retiradas de bancos de imagens, roubadas de sites de notícias e de perfis existentes. A BBC Brasil identificou, por meio de pesquisa em ferramenta de busca, a origem de várias dessas fotos. Uma delas pertencia a uma jovem vítima de assassinato cuja foto havia sido publicada em um veículo de imprensa local. Algumas imagens eram manipuladas digitalmente, o que dificulta o rastreamento de sua origem.
A empresa, segundo os entrevistados, fornecia chips de celular para autenticar perfis em redes sociais.
A parte "robô", ou semiautomatizada, não era sofisticada. Os funcionários contam e fica claro nas postagens que eram usadas plataformas que possibilitam a administração de vários perfis ao mesmo tempo, como o Hootsuite (que cobra R$ 258 mensais para que três usuários operem 20 perfis em redes sociais ao mesmo tempo).
Agendavam publicações que falavam sobre a rotina do personagem e outras mais genéricas, como "bom dia", "vou almoçar", "boa noite", "estou cansado", "dia exaustivo", entre outras postagens semelhantes, para dar a impressão de que se tratavam de perfis reais.
Image caption Perfil usa foto de mulher que apareceu no noticiário; ela escreve sobre seu cotidiano e comenta sobre político Paulo Hartung | Foto: Reprodução/Twitter
Alguns "ativadores" passavam o dia fazendo isso, relatam. Outros se dedicavam a programar publicações para a semana inteira e ficavam de olho para eventuais interações que tinham de fazer, como responder a mensagens de perfis reais.

Amigos reais

Perfis falsos criam "reputação" e parecem ser legítimos adicionando pessoas aleatórias com o objetivo de colecionar amigos reais.
Pessoas reais chegam a dar parabéns a fakes em aniversários mesmo sem conhecê-los e fazem comentários elogiosos a fotos de perfil, ajudando a criar a sensação de que são verdadeiros. É desta forma que, inadvertidamente, usuários reais contribuem para a criação de "reputação".
A reportagem detectou que os perfis identificados como fakes também interagem entre si - encontrou até um "casal" de perfis falsos.
Uma ex-funcionária ouvida pela BBC Brasil afirma que, na época, não sabia que trabalhava administrando perfis falsos. Segundo ela, quando trabalhou na empresa, de 2012 a 2014, tinha acesso a perfis no Facebook de pessoas que eram "apoiadores" de candidatos, como se eles tivessem cedido o acesso. Ela conta que seu trabalho era monitorar o que era publicado sobre candidatos e fazer comentários que os apoiassem por meio dos perfis que controlava.
"Eu já desconfiei que não eram de pessoas reais, mas não sei se eram. Eu não tinha muita malícia na época. Como eu só tinha acesso a publicar determinados conteúdos, eu não verificava muito os perfis."
Outro ex-funcionário define o trabalho, do qual chega a ter até um pouco de orgulho: "Você é só uma pessoa mascarada atrás de um perfil. A resposta é forte, o retorno é bom. Você sente que realmente faz diferença na campanha".
Quando um fake era "desmascarado" por outros usuários ou desativados pelas plataformas, logo havia outro para substituí-lo, que vinha de um grande banco de perfis falsos criado e mantido pela empresa, também de acordo com os entrevistados.
Muitos dos perfis reunidos pela BBC Brasil foram abandonados. Cerca de um quinto dos identificados no Twitter publicaram mensagens pela última vez entre os dias 24 e 27 de outubro de 2014. O segundo turno das eleições daquele ano aconteceu no dia 26 de outubro.
Um dos ex-funcionários entrevistados diz que os perfis identificados como falsos pela BBC Brasil representam apenas uma pequena parcela do fenômeno, já que a empresa teria criado "milhares" de perfis como estes. Ele diz também que havia empresas concorrentes fazendo o mesmo no Brasil.
Um tipo de atuação comum, segundo os entrevistados, era deixar comentários em sites de notícias e também votar em enquetes, como as do site do Senado, tomando até o cuidado de deixar a opinião oposta ultrapassar um pouco antes de vencê-la, para que "tudo parecesse muito orgânico e natural", nas palavras de um ex-funcionário. "Às vezes, dez pessoas ficavam votando em determinada opção durante oito horas do dia."

Como identificar um fake?

Para identificar os perfis supostamente falsos, com a ajuda de especialistas, a reportagem levou em consideração elementos como: o uso de fotos comprovadamente falsas, modificadas ou roubadas; a publicação de mensagens a partir da mesma ferramenta externa às redes sociais; o padrão de mensagens que simulam rotina, com repetição de palavras; a participação ativa nas redes durante debates e "tuitaços"; atividade apenas durante o horário "útil" do dia; as recorrentes mensagens de apoio ou de agressão a candidatos específicos e, por fim, vários casos de datas coincidentes de criação, ativação e desativação dos perfis.
Image caption Perfis usavam fotos roubadas para escrever a favor de candidatos | Foto: Reprodução/Facebook
Malini, o acadêmico do Espírito Santo cujo grupo que coordena já pesquisava parte dos supostos fakes identificados pela BBC Brasil, elaborou o que especialistas chamam de "grafo", um desenho gerado por computador que espelha o histórico da interação e atividade dos perfis no Twitter. Isso inclui os retuítes, menções a outros usuários e comentários em tuítes feitos pelos usuários com características falsas.
O resultado mostra os perfis com os quais estabeleceram o maior número de interações, gerando uma espécie de "nuvem".
Nela, aparecem os políticos mencionados pelos ex-funcionários como clientes da empresa, a página Lei Seca RJ e, no centro, Eduardo Trevisan, "inflacionado" pela atividade dos supostos fakes. "Ele é uma figura central, que recebe menções e retuítes de grande parte dos usuários analisados", afirma Malini. "Essa alta centralidade salta aos olhos e aponta quem deve ser investigado", acrescenta.

Pagamentos

Por meio da análise de pagamentos legais disponíveis ao público em prestações de contas, a BBC Brasil conseguiu mostrar a ligação da Facemedia de Trevisan com três políticos e um partido, o PSDB. A empresa recebeu também, neste caso, segundo dados de um relatório disponível no site da Câmara, transferência de uma agência de propaganda e marketing. No total, os pagamentos feitos pelas cinco partes somam R$ 1,2 milhão. Veja em detalhes abaixo, e um resumo da resposta de cada um:
- A empresa de Trevisan recebeu R$ 360 mil do Comitê Nacional do PSDB para a campanha presidencial em 2014 pela "prestação de serviços de marketing e comunicação digital", segundo consta da prestação de contas do partido. O PSDB disse que a empresa foi contratada para prestação de serviços de melhoria e monitoramento de movimento e tendências nas redes sociais.
- A Facemedia também recebeu R$ 200 mil de Renan Filho (PMDB) em 2014, então candidato ao governo de Alagoas, segundo a prestação de contas. A assessoria do político, que venceu a eleição, disse que a empresa foi contratada para prestação de serviços de monitoramento e análise digital das redes sociais durante a campanha e acompanhamento do interesse do eleitor. "Em nenhuma hipótese houve contratação ou realização de pagamento para a criação de perfis falsos ou divulgações online por estes em favor da campanha."
- Recebeu também R$ 30 mil do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Vital do Rêgo Filho (PMDB), então candidato ao governo da Paraíba, de acordo com os dados públicos. Sua assessoria afirmou que o candidato "utilizou serviços de mídias sociais para divulgação regular de sua campanha, desconhecendo qualquer criação de perfis falsos por parte da empresa contratada".
- Os mais recentes pagamentos encontrados pela reportagem vieram da cota parlamentar do gabinete da deputada federal Laura Carneiro (PMDB-RJ). A empresa de Trevisan recebeu R$ 14 mil por mês por "divulgação da atividade parlamentar por meio da diagramação, manutenção e alimentação das suas mídias sociais (Instagram, Facebook, Twitter)" de fevereiro a setembro deste ano, totalizando R$ 112 mil. As datas coincidem com o período de atividade de um grupo de perfis supostamente falsos identificados pela BBC Brasil atuando na página da deputada. A assessoria dela disse que "os serviços prestados eram de monitoramento e de divulgação do mandato parlamentar nas mídias sociais. A deputada não tem qualquer conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa".
- Entre março de 2014 e julho de 2014, a Facemedia recebeu R$ 504 mil da agência PVR Propaganda e Marketing Ltda, de Paulo Vasconcelos, marqueteiro da campanha de Aécio à Presidência. O pagamento da PVR foi descrito em um relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf) em julho deste ano. Não é possível determinar no registro do pagamento quais dos clientes da PVR teriam se beneficiado dos serviços da Facemedia. A agência tinha entre seus clientes o PSDB e a J&F, controladora da JBS. A JBS foi identificada como tema em diferentes tuítes, entre os reunidos pela BBC Brasil, e também citada por um ex-funcionário como cliente da Facemedia. A J&F não quis comentar. A PVR disse que contratou a Facemedia "para prestação de serviços de monitoramento e análise do ambiente político". A empresa nega que tenha feito algum pagamento para divulgação da candidatura de Aécio Neves.

Outros políticos

Um ex-funcionário de Trevisan cita uma longa lista com outros políticos que também teriam contratado o serviço. Todos eles foram citados em algum momento pelos perfis falsos identificados pela BBC Brasil. São eles: o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Eduardo Braga (PMDB-AM) e Ricardo Ferraço (PSDB-ES), o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), o ex-prefeito de Vila Velha (ES) Rodney Miranda (DEM), o secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação do Rio de Janeiro, Índio da Costa (PSD), o ex-senador Gim Argello (DF) e o ex-deputado estadual Felipe Peixoto (PSB-RJ).
Eles negaram ter conhecimento sobre qualquer uso de perfis falsos nesse contexto. Não há nenhum indício de que os citados acima sabiam da existência e do uso de fakes nas suas redes sociais como parte de um serviço para favorecê-los.
Wallim Vasconcelos, que foi candidato à presidência do Flamengo, também é citado pelo ex-funcionário e também foi tema de tuítes de perfis considerados falsos. Ele encaminhou à BBC Brasil a resposta de sua assessoria à época das eleições. Disseram que a Facemedia fazia apenas "monitoramento" das redes.
O único citado com quem a reportagem não conseguiu contato foi Gim Argello, hoje preso da operação Lava Jato. Seu advogado, Marcelo Bessa, disse que não tem procuração para responder sobre esse assunto. (leia a íntegra da resposta de todos os citados no final do texto)
Image caption Perfil falso que apoia Paulo Hartung no Twitter usa foto de banco de imagens | Imagem: Twitter/Reprodução

Responsabilidade

Perfis falsos foram usados para tentar influenciar as eleições americanas no ano passado e representam uma crescente preocupação no mundo ao lado das notícias falsas, facilmente compartilhadas nas redes, e também do papel da propaganda direcionada nas redes sociais, mecanismo que teria sido usado por russos nas eleições dos EUA. O Facebook declarou ter desativado 470 contas e páginas "provavelmente operadas da Rússia", que publicavam conteúdo que visava causar maior divisão nacional em tópicos como direitos LGBT e questões raciais e de imigração.
O reflexo desta tendência no Brasil levou especialistas ouvidos pela BBC Brasil a reforçar um apelo por ação mais rigorosa tanto do Twitter quanto do Facebook.
Para Pablo Ortellado, professor da USP, deve haver maior transparência e regulação nas plataformas como o Facebook, que deve começar a agir "como se fosse um Estado, já que virou a nova esfera pública" onde acontecem discussões e interações entre as pessoas. Ou seja, para ele, a plataforma deve começar a se autorregular, se não quiser ser regulada pelos Estados, um cenário também não livre de polêmicas.
O Twitter informa que "a falsa identidade é uma violação" de suas regras. "As contas do Twitter que representem outra pessoa de maneira confusa ou enganosa poderão ser permanentemente suspensas de acordo com a Política para Falsa Identidade do Twitter. Se a atividade automatizada de uma conta violar as Regras do Twitter ou as Regras de Automação, o Twitter pode tomar medidas em relação à conta, incluindo a suspensão da conta."
Já o Facebook informa que suas políticas "não permitem perfis falsos". "Estamos o tempo todo aperfeiçoando nossos sistemas para detectar e remover essas contas e todo o conteúdo relacionado a elas. Estamos eliminando contas falsas em todo o mundo e cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança online, e esperamos tomar medidas também no Brasil antes das eleições de 2018."
A empresa também afirma que não pode comentar os perfis citados na reportagem porque não teve acesso a eles antes da publicação deste texto. "Entretanto, vale ressaltar que durante as eleições de 2014 mais de 90 milhões de pessoas no Brasil usaram a plataforma para debater temas relevantes para elas e engajar com seus candidatos."

Roteiro

O padrão de criação de uma conta falsa no Twitter e no Facebook, segundo os entrevistados, seguia um roteiro: durante um ou dois meses, determinado perfil apenas tuitava sobre sua rotina, publicando tuítes muito parecidos para "martelar" ou "fixar" seu cotidiano por meio das publicações agendadas, com características e hobbies que são muito claros: há a mãe que gosta de assistir a séries e faz pilates, a universitária que fala sobre seus estudos, o síndico de prédio que gosta de futebol.
De repente, uma aglomeração de tuítes a favor de determinado político interrompe esse padrão - e aí entram de fato seres humanos, assistindo aos debates na televisão e fazendo comentários ou promovendo "tuitaços" a favor de seu candidato.
Um dos tuitaços de que participaram os usuários fakes foi para que o perfil Lei Seca RJ fosse nomeado ao prêmio Shorty, que reconhece pessoas e organizações que produzam bom conteúdo nas redes sociais.
Em alguns casos, o histórico revela "reciclagem" de perfis, apoiando diferentes candidatos ao longo do tempo. Em 5 de outubro de 2014, "Fernanda Lucci", que usa no perfil uma foto de Petra Mattar, cantora e filha do ator Maurício Mattar, escreve ter dado seu voto para Renan Filho (PMDB), então candidato ao governo de Alagoas.
Image caption Perfil falso conta ter votado em Renan Filho | Imagem: Twitter/Reprodução
Já no dia 24 de outubro, escreve: "Dia 26 quero #Eunicio15 para mudar CE", em referência ao senador Eunício Oliveira (PMDB), que na época concorria ao governo do Ceará.
Image caption Perfil falso diz apoiar o senador Eunício Oliveira | Imagem: Twitter/Reprodução
Dois meses antes, ela elogiava Paulo Hartung (PMDB), então candidato ao governo do Espírito Santo, por sua performance em um debate, sempre incluindo também uma hashtag em referência a esses políticos.
Image caption 'Fernanda Lucci' apoia Hartung | Imagem: Twitter/Reprodução

Atividade recente

Parte dos perfis identificados como falsos estavam ativos até novembro deste ano, interagindo, curtindo e comentando em publicações da deputada federal Laura Carneiro (PMDB-RJ), como fazem os perfis de "Marcos Vieira" e "Breno Marson", que tagueiam perfis de pessoas com maior proeminência no Twitter para tentar aumentar o alcance da publicação.
A assessoria de imprensa da deputada diz não ter "conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa".
Image caption Perfis marcam Twitter de famosos em publicação de deputada no Twitter | Imagem: Twitter/Reprodução
Uma publicação sobre vacinação antirrábica na página do Facebook da parlamentar, do dia 26 de setembro deste ano, tem nove comentários. Cinco deles foram feitos por perfis identificados como ciborgues, com poucos minutos de diferença.
"Romulo Borges" comenta que a iniciativa da deputada é "Super importante!!!". Ele tem 71 amigos e começou a publicar no Facebook, em março deste ano, textos como "esperando a hora de chegar em casa e comer sobra de pizza" e "segunda-feira chuvosa e fria", sempre da plataforma Hootsuite.
"Borges" também tem um perfil no Twitter, com a mesma foto e mesmo nome. Foi criado em 2010 e ficou ativo entre julho e outubro de 2014, quando tuitava sobre sua rotina ("bom dia", "trabalho pesado", "fome", "boa noite" são expressões recorrentes).
Na época, chegou a tuitar sobre um debate entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio, criticando a performance de Dilma. Encerrou suas atividades no fim de outubro daquele ano e só voltou em março de 2017. Hoje em dia, curte no Twitter quase todas as publicações de Laura Carneiro. Uma pesquisa feita pela BBC Brasil revela que sua foto, na realidade, pertence a outra pessoa.

Ator grego

Também fora de campanha, mas em 2013, Renan Calheiros (PMDB-AL) teria contratado a empresa para cuidar de sua imagem, segundo um dos entrevistados.
Naquele ano, quando manifestações pelo Brasil pediam o impeachment do então presidente do Senado, os perfis supostamente falsos criaram a hashtag #MexeuComRenanMexeuComigo, defendendo o político nas redes e criando a falsa ilusão de que ele era apoiado por aquele grupo de pessoas.
O perfil falso abaixo, de "Patrick Santino", entrou em uma briga com outro usuário (que já não está mais ativo) usando a hashtag para defender o senador, num tuíte replicado 777 vezes. Sua foto de perfil pertence ao ator e cantor grego Sakis Rouvas.
Image caption Perfil falso escreve mensagem a favor do senador Renan Calheiros | Imagem: Twitter/Reprodução

Pressão por projeto de lei

Ao menos oito perfis falsos identificados pela BBC Brasil fizeram postagens positivas em relação à Friboi, da JBS. Segundo um dos entrevistados pela reportagem, a empresa contratou os serviços da agência para "botar pressão" pela aprovação de um projeto de lei que exigisse de todos abatedouros no Brasil um selo mais rígido - favorecendo o frigorífico, que teria a capacidade de tê-lo. A J&F Investimentos, holding que controla a JBS, não quis comentar.
"Letícia Priori" está no Twitter e no Facebook, onde já escreveu sobre Aécio Neves (PSDB), Renan Filho (PMDB) e Eunício Oliveira (PMDB). Quando não fala sobre políticos, escreve a respeito das sobrinhas e do chefe. E, numa manhã de quarta-feira, recomenda a seus seguidores uma receita da Friboi, acompanhada de sua hashtag. A foto de "Letícia" pertence a uma mulher morta. A BBC Brasil tentou entrar em contato, sem sucesso, com a família da jovem real, assassinada de forma brutal no Rio de Janeiro.
Image caption Perfil que usa foto de mulher morta elogia Friboi | Imagem: Twitter/Reprodução

Ataque a inimigos

Os perfis, segundo os entrevistados, também participavam de grupos políticos no Facebook. A BBC Brasil identificou um grupo contra Renato Casagrande (PSB), então candidato ao governo do Espírito Santo, criado por "Deborah Mendes", que usa foto de perfil retirada de um banco de imagens e é um dos perfis que seriam ligados à Facemedia. A atividade da página mostra que ela adicionou um funcionário da Facemedia ao grupo.
Casagrande disputava as eleições com o atual governador Paulo Hartung (PMDB), defendido pelos perfis falsos.
Image caption Grupo criado por perfil falso no Facebook tem participação de coordenador da Facemedia | Imagem: Facebook/Reprodução
Ao menos uma dezena dos membros do grupo são fakes. Outra parte é composta por pessoas verdadeiras, que foram expostas às postagens no grupo, visualizando notícias e comentários publicados por eles, sempre contra o candidato. Quando um perfil publicava uma notícia, imediatamente outros comentavam abaixo dela, dando "força" à publicação.

'Esse tal de Twitter'

Em 2009, Trevisan foi convidado para o programa matinal de Ana Maria Braga na TV Globo para falar sobre "esse tal de Twitter", nas palavras dela. Apresentou-se como "consultor de marketing", que trabalhava "monitorando marcas e produtos" nas redes sociais e disse ter recebido treinamento dos "papas de Twitter" da campanha do então presidente americano Barack Obama. Em seu Instagram, Trevisan posta imagens com logos do Facebook e do Twitter agradecendo sua existência.
Foi entrevistado várias vezes para reportagens sobre a página Lei Seca RJ, sempre dizendo que ela fora criada com o intuito de melhorar a vida de quem não havia bebido e perdia tempo nas filas das blitze no Rio - e não por quem bebe acima do limite, dirige e quer escapar da lei.
Em 2010, Trevisan foi homenageado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro "por seu relevante serviço voluntário prestado em prol dos atingidos pelas fortes chuvas do mês de abril" - a autora da proposta foi a então vereadora Clarissa Garotinho. Na época, a página Lei Seca RJ orientou seguidores publicando informações sobre as enchentes.

Implicações legais

Apenas criar um perfil falso sem a intenção de enganar os outros, ou seja, de modo transparente, não é ilegal e "se aproxima ao conceito do pseudônimo, de criar uma identidade nova", diz a advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital. "Onde começa a ter problema? Quando o pseudônimo existir com a finalidade de enganar outros, entrando no crime da falsa identidade."
A criação de perfis expostos nessa reportagem, segundo ela, se encaixaria no crime de falsa identidade, já que interagiram com outras pessoas sem deixar claro que eram falsos. A pena é detenção de três meses a um ano ou multa.
Os perfis falsos que usaram imagens de pessoas reais cometeram o ilícito civil do uso não autorizado de imagem. As pessoas reais, donas das fotos, podem pedir indenização. Também podem alegar na Justiça que houve crime contra a honra, por difamação - "quando você fala como se fosse outra pessoa, pode construir uma imagem diferente da dela e ferir sua imagem e reputação", diz Peck. A pena é de três meses a um ano de detenção e multa.
A criação de personagens nas redes sociais também pode ser enquadrada no crime de falsidade ideológica, na visão de Peck, para quem as páginas são uma espécie de documento, cuja falsificação é pré-requisito para esse tipo de crime. A pena é reclusão de um a três anos e multa.
E, por fim, caso seja provado que houve alguma espécie de ganho com a criação dos perfis falsos, é possível que seja enquadrada no crime de estelionato. A pena é reclusão de um a cinco anos e multa.
A transgressão é menos clara no campo político, mas foi em parte endereçada na reforma eleitoral aprovada em outubro. E o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) se prepara para divulgar até dezembro um conjunto de novas regras de comportamento online para partidos e candidatos.
A nova legislação proíbe "a veiculação de conteúdos de cunho eleitoral" por meio de "cadastro de usuário de aplicação de internet com a intenção de falsear identidade".
Mas isso durante o período eleitoral - já passaram os prazos para quaisquer reclamações referentes às eleições de 2012 e 2014.

O que dizem os citados na reportagem

Eduardo Trevisan
"A Facemedia é uma empresa de comunicação digital consolidada no mercado há dez anos. Nesse período, prestamos serviços para mais de uma centena de clientes. Nossa empresa é especializada em planejamento estratégico de marketing digital, criação e manutenção de sites e perfis, monitoramento de redes e bigdata, especializada em diversas técnicas de marketing como SEO, SEM, copywriting, branding, design thinking, relacionamento com influenciadores digitais entre outros. Além de atender a ampla carteira de clientes privados, a Facemedia utiliza seu know-how de mobilização digital em causas sociais. Em 2011, por exemplo, a Facemedia foi agraciada pelo The New York Times com o 'Oscar do Twitter', pela ajuda humanitária aos desabrigados da tragédia das chuvas que atingiram a Região Serrana no Rio de Janeiro. Na ocasião, centenas de pessoas em situação de risco foram ajudadas por meio dos canais digitais da empresa, com mais de 5 milhões de pessoas conectadas. As conexões entre os perfis são estabelecidas por critérios das próprias redes sociais, inexistindo o conceito de 'vinculação', sugerido na pergunta. Os serviços em campanhas eleitorais prestados pela Facemedia estão descritos e registrados pelo TSE, de forma transparente. Por questões éticas e contratuais, a Facemedia não repassa informações de clientes privados."
PSDB
"A empresa Face Comunicação On Line Ltda. foi contratada no primeiro turno das eleições de 2014 para prestação de serviços à eleição presidencial, que consistiu em monitoramento e análises de movimentos e tendências em Redes Sociais. O PSDB desconhece o suposto uso de perfis falsos por referida empresa e registra que jamais fez uso dessa forma de divulgação de mensagens em redes sociais ou qualquer outro ambiente."
Aécio Neves (PSDB)
Por meio de sua assessoria, o senador diz não conhecer a empresa em questão.
Renan Filho (PMDB)
"A empresa em questão prestou à campanha do atual governador Renan Filho, mediante contrato e objetivo expressamente delineados, os serviços de monitoramento e análise digital, fornecendo à campanha informações capazes de projetar/avaliar a densidade eleitoral das candidaturas através do nível de interesse apresentado pelo eleitor, conforme suas preferências manifestadas na rede social. A despesa em questão consta da prestação de contas do então candidato e foi devidamente aprovada pelo TRE/AL. Em nenhuma hipótese houve contratação ou realização de pagamento para a criação de perfis falsos ou divulgações online por estes em favor da campanha."
Vital do Rêgo Filho (PMDB)
"A coordenação da campanha de Vital do Rêgo para o governo da Paraíba, em 2014, contratou serviços de mídias sociais para divulgação regular de sua campanha, desconhecendo qualquer criação de perfis falsos por parte da empresa contratada. Todas as despesas da campanha constam da prestação de contas, devidamente aprovada pelo TSE. A coordenação da campanha afirma ainda o seu inteiro repúdio a esse tipo de prática."
PVR Propaganda e Marketing Ltda
"A empresa só reconhece pagamentos feitos no primeiro semestre de 2014. A PVR pagou R$ 504 mil à empresa Face Media por serviços de monitoramento e análise do cenário político em internet e redes sociais. A PVR não pagou pela divulgação da candidatura de Aécio Neves nem de produtos da JBS. O contrato da PVR com a J&F não prevê isso e não existe outra prestação de serviços à J&F que não seja o contratado. Não existe nenhuma solicitação de contratação deste tipo de serviço pela PVR durante os quatro meses em que durou o contrato com a Face Media." Também ressaltou que o Coaf não encontrou nenhuma irregularidade em suas movimentações.
J&F
Não quis comentar.
Laura Carneiro (PMDB)
"O gabinete da deputada Laura Carneiro informa que contratou os serviços da Face Comunicação On Line Ltda em fevereiro de 2017, conforme prestação de contas no Portal da Transparência da Câmara dos Deputados. A empresa foi contratada pelo histórico de trabalhos no Brasil e no exterior, e por seu bom conceito no mercado. Os serviços eram de monitoramento e de divulgação do mandato parlamentar nas mídias sociais. A assessoria da deputada não tem qualquer conhecimento sobre o uso antiético de perfis falsos em qualquer prestação de serviços realizados por essa empresa."
Eunício Oliveira (PMDB)
"O senador Eunício Oliveira desconhece e em nenhum momento autorizou o uso de perfis falsos em suas campanhas eleitorais. O senador lamenta o uso e a disseminação de perfis e notícias falsos em qualquer tipo de comunicação."
Renan Calheiros (PMDB)
"Renan Calheiros afirma que jamais contratou esse tipo de serviço. Em 2013, o senador sequer participava efetivamente das redes sociais, o que aconteceu apenas a partir do final do ano passado. Uma das grandes preocupações do senador atualmente é com o alcance orgânico das publicações e com as reações de perfis verdadeiros, que realmente representem o pensamento da sociedade. Nos últimos meses, o parlamentar tem feito discursos defendendo a fiscalização dos conteúdos postados por fakes em redes sociais. Renan, inclusive, tem sido vítima constante de ataques, especialmente quando faz críticas aos excessos cometidos por integrantes do Ministério Público ou defende a proibição do comércio de armas. Como forma de resguardar o processo democrático nas eleições que se aproximam, o senador acredita que é preciso criar ferramentas para fiscalizar e punir a disseminação de mentiras e ódio nas redes sociais."
Eduardo Braga (PMDB)
O senador informou que não contratou nem ouviu falar da empresa Facemedia.
Ricardo Ferraço (PSDB)
"No curto período de maio a dezembro de 2012, a empresa Face Comunicação Online Ltda. prestou serviços de assessoria de comunicação digital ao meu gabinete, com o objetivo de estruturar o uso de mídias sociais. Os serviços contratados eram de diagnóstico, monitoramento de redes e consultoria de conteúdo de postagens. Jamais foi contratada, solicitada ou autorizada qualquer estratégia de comunicação que não fosse legal e ética. De mesmo modo, nunca orientei ou tive informação de que tal empresa se valia de algum expediente que não os legais e éticos, muito menos com a utilização de perfis fakes na internet. Obviamente, estou surpreso."
Gim Argello
A reportagem não conseguiu contato com a assessoria de Gim Argello, hoje preso da Lava Jato. Seu advogado disse que não poderia responder sobre o tema.
Paulo Hartung (PMDB)
"Por meio da assessoria, o governador Paulo Hartung declarou que repudia o uso de qualquer tipo de mecanismo que utilize influência criminosa da tecnologia no processo eleitoral e no dia a dia das pessoas. De acordo com a assessoria, na última eleição, o governador utilizou uma equipe enxuta de comunicação, que foi responsável pelo atendimento à imprensa e mídias sociais. Acreditamos que as redes viabilizam um canal direto com a população que participou com questionamentos, contribuições e reflexões. O governador rechaça qualquer informação sobre uso de perfis fakes na campanha no último pleito eleitoral ao Poder Executivo Estadual."
Rodney Miranda (DEM)
"Por meio de sua assessoria de imprensa, Rodney Miranda esclareceu que desconhece a atuação da empresa mencionada e ratificou que o trabalho nas redes sociais foi, à época, desenvolvido por apoiadores do então candidato."
Índio da Costa (PSD)
"O deputado federal licenciado e atual secretário municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação esclarece que não contratou os serviços citados e por isso nada tem a dizer sobre o assunto."
Felipe Peixoto (PSB)
"Reafirmamos que nossas campanhas sempre foram pautadas pela ética e transparência e repudiamos qualquer utilização de mecanismos fora desses princípios em nossas atuações."
Assessoria que prestou serviços a Wallim Vasconcelos na época da eleição
"O uso da Facemedia em campanha foi para monitoramento e reação nas redes. Pelo tempo curto de campanha, optamos por receber relatórios sobre performance nas redes sociais. Fechamos um valor simbólico, já que nossa campanha foi toda feita através de voluntários, e apoiadores. Recebíamos relatórios de aceitação da chapa nas redes. Um termômetro que apontava pontos positivos e negativos das chapas (tanto a nossa quanto dos concorrentes), dos candidatos e seus apoiadores. O trabalho deles era somente monitorar, captar dados, compilar relatórios para que tivéssemos como trabalhar nossa estratégia de atuação. Eles nunca usaram nossas redes de campanha nem acesso a dados nossos. Na reta final de campanha, surgiram nas redes perfis fakes, em grande quantidade, e ao questionarmos sobre este surgimento, se estava associado à agência, recebemos a resposta formal por eles, que não se utilizam desta estratégia. Na ocasião passamos a denunciar os perfis, que era a única forma de combater a atuação, uma vez que não tínhamos como saber sua origem."