terça-feira, 26 de dezembro de 2017

FETO, por ALEXANDRE MEIRA (POESIA).



Manhã escura hoje

prematuramente sóbria

pra quem escreve

como quem conta piadas.

Mas eu talho sempre
 



as mesmas anedotas

mal acabadas,

recém abreviadas,

venereamente inoculadas

no útero do primeiro raio

de sol.



Não houve parto

e a grávida acordou com frio

coberta pela nebulosa úmida

tal qual saliva virou véu

na minha janela,

Ela vem e

implora piadas

com um assobio,

minuano grávido de sorriso

ora aborto condensado no vidro

do meu cativeiro vil de auroras.


Além do torpe sadismo

alheio a dor do parto,


o horizonte nega seu firmamento

em forma de tormenta

precipitando cristais de gelo.


T
orrente aurora,

chia-me baixo como se risse

de mais uma piada ruim

até embaçar de vez esse viveiro,

negando luz ao prisioneiro,

e esfriar o peito materno

carente de sol como acácia.


Congela assim este feto

como imagem sem sentido

numa janela escura, 

         tal frasco de vidro
   
         que é a poesia.

Uma bela entrevista com Pepe Mujica, por Roberto Saturnino Braga.

 
Confira a entrevista e a introdução de Carmem Feijó.
Foi numa manhã nublada de setembro que o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica (2010- 2015), atual senador mais votado da República, nos recebeu em sua casa térrea de Rincón del Cerro, na zona rural de Montevidéu.
 À chegada fomos recepcionados por ele e por sua esposa, a senadora Lucía Topolansky, atual vice-presidente do Uruguai. As duas horas de conversa se passaram na pequena sala do rancho acolhedor onde eles vivem desde o fim da ditadura militar, quando recuperaram a liberdade depois de mais de uma década de prisão.
Pepe Mujica é uma lenda viva por seu passado e seu reconhecimento internacional como influente líder de esquerda. Ao longo de sua vida política, destacou-se por suas posições firmes no combate à pobreza e em prol da paz mundial em suas participações em fóruns internacionais.
Ficou também conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”, que dirigia seu velho Fusca azul e doava grande parte de seu salário. Nesta entrevista, ele mostra como a prática política, atualmente tão desvalorizada com escândalos de corrupção e malfeitos em nosso país, é fundamental para a solução de conflitos inerentes ao convívio humano.
Os jovens têm papel destacado no seu discurso, pois a eles atribui a capacidade transformadora para a construção de um padrão de vida mais pacífico, com avanços civilizatórios. A lucidez de suas ideias e seu carisma tornaram nosso encontro inesquecível. Carmem Feijó,  Editora.
ENTREVISTA
ROBERTO SATURNINO BRAGA: Presidente Mujica, a sua liderança transcende a América Latina. O sr. é um líder mundial na luta pela paz. Um dos problemas com que nos deparamos é a força do capital financeiro, que pretende acabar com a política. Como o sr. se posiciona neste momento tão difícil? O que fazer? Mais política?
PRESIDENTE PEPE MUJICA: Eu acredito que os problemas difíceis não podem ter uma explicação única ou simples. Creio que nossa geração é sobrevivente do nacionalismo. Nosso avô Robespierre colocava o deus-razão como o centro de tudo. Nosso pensamento muito contribuiu para buscar razões e nos afastou bastante de outras questões. Não que as razões não tenham fundamento, mas os seres humanos são algo mais que razões, são muito mais complexos, são animais emocionais que se comportam em função dessa complexidade. Acreditamos que as grandes massas tomam suas decisões a partir dos programas que apresentamos, mas, muitas vezes, essas decisões são influenciadas pela emoção, pelo sentimento, mais que por razões, ou as razões surgem depois para justificar o que as emoções decidiram. Por que digo isso? Porque foi nesse quadro que nós caímos na apoteose do capitalismo, cujo objetivo é o desenvolvimento econômico. Ai da sociedade que fique estagnada, ai daquela cuja economia não cresça! Isso é uma tragédia. E pouco nos preocupamos se as pessoas são mais ou menos felizes. Não introduzimos na análise a questão de saber se, além do crescimento, as pessoas se sentem mais ou menos sozinhas, mais ou menos realizadas. Não, não estou fazendo apologia da pobreza. O que quero dizer é que nos esquecemos que a vida é uma só, o que nos dá o direito de lutar pela felicidade neste mundo e não no mundo que vier depois, ou em uma utopia que construiremos dentro de cinquenta, cem anos. O momento de pensar na felicidade é agora. E esta é uma pergunta que não nos fazemos. Parece-nos que o bem-estar econômico vai resolver tudo e então, no máximo, nos preocupamos em distribuir a riqueza. Está certo. E há, de verdade, uma luta para distribuir a riqueza. Mas não nos preocupamos se as pessoas são mais ou menos felizes. Acho que essa é uma questão fundamental. Está no íntimo de cada um de nós. Por que digo isto? Porque esta etapa do capitalismo trata de promover a apropriação do tempo de vida útil das pessoas para transformá-lo num valor econômico, que é acompanhado de uma cultura funcional e do consumismo. Assim, alienamos  todo o tempo de nossa existência trabalhando para pagar contas, confundindo a felicidade com a compra de novos bens. Parece que progresso significa comprar mais coisas e possuir cada vez mais. Substituímos o Ser pelo Ter. Aí se produzem situações terríveis. Como os casais, as pessoas que saem para passear, e vão a um shopping olhar vitrines!
SATURNINO: É a cultura de hoje.
MUJICA:  É a cultura funcional da acumulação capitalista. Mas, além do mais, esse processo atual do capitalismo — e isso é o que nos agride muito na América Latina — se dá ao redor de organizações multinacionais. O surgimento das empresas multinacionais, cada vez mais poderosas, estimula o crescimento da economia, porém incentiva mais e mais a concentração da riqueza. E isso produz uma concentração de frustração em vastíssimos setores da classe média. Porque a riqueza cresce, mas cresce, também, cada vez mais, a distância entre as pessoas. Mesmo em países centrais como a Alemanha, onde a economia vem crescendo, logo florescem focos de um nacionalismo que parece crônico, um chauvinismo. Porque as explicações simples levam as pessoas a entender que a culpa é dos imigrantes, a culpa é de Bruxelas, a culpa é do México, no caso dos Estados Unidos, o trabalho dos mexicanos é menos remunerado etc. E não se vê o verdadeiro fenômeno, que é a brutal tendência à concentração de riqueza, consequência da economia contemporânea. Então isso nos desarticula. E nós que somos de esquerda também acreditamos — e minha geração acreditou — que, mudando a estrutura econômica e as relações de propriedade e distribuição, teríamos uma sociedade melhor, um homem melhor.  Substituímos o Ser pelo Ter e nos esquecemos do formidável papel da cultura. Não a cultura definida como uma macrocultura que comove: a obra de arte, o romance que se escreve… Mas a cultura que representa um conjunto de valores da vida diária, que determina as relações em cada casa, em cada família, em cada pessoa.
SATURNINO: No cotidiano…
MUJICA:  No cotidiano.  A cultura cotidiana que provoca as nossas reações é muito mais forte do que qualquer exército. A verdade é que capitalistas somos todos nesta sociedade. Estamos incluídos neste processo. Então, é como se uma gigantesca teia de aranha nos aprisionasse por todos os lados. Isto é o que existe e faz com que a luta seja mais complexa.
CARMEM FEIJÓ: E como foi sua experiência no governo, para mudar a cultura do consumismo?
MUJICA: Eu não mudei nada… (risos). A única coisa que fiz e faço é semear ideias, ali onde vejo uma pequena luz no horizonte. É que a própria economia contemporânea precisa incrementar cada vez mais a formação das grandes massas, o que é facilitado pelo desenvolvimento tecnológico. Mas muita gente começa a entender que a cultura do consumismo pode ser distinta. Vejo manifestações nesse sentido no Japão, na Turquia, na Alemanha, no Brasil, no México… Eu diria que é justamente nas massas universitárias contemporâneas que se encontra a semente do que pode ser um mundo diferente.
ROSA FREIRE D’AGUIAR: Em que sentido?
MUJICA –  No sentido de que essas massas têm preocupações com a maneira de viver, não se deixam arrastar pelos outros, querem saber para onde vamos. Têm um sentido mais independente. Parece que a consciência decisória não é própria de um mundo de gente submetida a esse turbilhão da economia multinacional. Parece que se algum dia houver uma humanidade um pouco melhor, será a partir de gente que tenha uma formação muito superior àquela que hoje tem o homem comum contemporâneo. Mas isso é apenas uma hipótese. Vejo, porém, um fermento mais claro desse novo mundo no seio de qualquer grande universidade, nos estudantes, mais do que numa fábrica onde trabalha a classe operária contemporânea.  Sou de uma época em que existia o mito da classe operária. Atenção! Eu pertenço a ela, e dela sou tributário. Mas tenho que reconhecer…. Por isso acredito que se deve dar muita importância a esse mundo universitário, que vem sofrendo um grande dilema, pois termina sendo funcional para esse grande turbilhão multinacional. Certamente esse mundo vai surgir, com o correr do tempo. Será um tema de futura preocupação política, até porque não acredito em geração espontânea. Creio que não há nada espontâneo. Tudo vai depender da organização da vontade humana. Porque outra coisa seria milagre.
ROSA: E aí entra a política…
MUJICA: A política desempenha um papel fundamental. Porque o homem é, por natureza, um animal político, e não pode deixar de ser porque é um animal social. A maior herança que recebemos ao nascer é a civilização; a civilização que oferecemos a nossos filhos. A civilização e a solidariedade são transmitidas por nossa espécie de geração a geração; é algo intergeracional, desde aquelas que descobriram o fogo e os metais até as desta nossa época da biologia molecular e do que virá futuramente. É esta a acumulação construída pela humanidade. É este o maior capital que podemos receber. Trata-se do produto da sociedade, e não do resultado da criação de um homem, de dois ou três gênios. Mas se nos referimos à sociedade, que é a soma dos indivíduos, partimos do princípio de que ela vai estar sempre em conflito, porque os indivíduos são específicos. Cada indivíduo é único, portanto, é natural que além da diferença de classe, de riqueza, existam diferenças somáticas. Por isso, na sociedade vai existir sempre o conflito. E o papel da política é amortecer e viabilizar a vida em sociedade. O papel da política é que exista a pólis, a sociedade. Então, acredito que renunciar à política é quase renunciar à condição humana.
CARMEM: Mas a política hoje, pelo menos no Brasil, está muito contaminada com a agenda da corrupção, e isso acaba denegrindo a prática política. E isso é muito ruim.
MUJICA: Acredito que a corrupção tende sempre a existir. É a expressão da lei do menor esforço, que está muito presente no homem. Mas a corrupção se acentuou em nossa época porque, como fator cultural, atualmente, plantou-se a tácita ideia de que para triunfar na vida é preciso ter dinheiro. Muito dinheiro. E quem não tem muito dinheiro não venceu. E se vencer na vida é ter dinheiro, estamos desprotegidos, porque a questão não é ser feliz, é ter dinheiro. E se diz que quem tem dinheiro é mais feliz. Isso gera uma confusão entre possuir e ser. É um problema de nossa época. Não temos por que nos surpreender com a proliferação da corrupção. Porque a própria engrenagem empresarial a provoca e a favorece. Além do mais, as nações mais ricas são injustas com a América Latina. Parece que os pecadores somos nós, os latino-americanos. Só que no mundo rico as coisas são mais dissimuladas. A Volkswagen deu um golpe em nível mundial. Ninguém foi preso. Diz a empresa que vai pagar 7 bilhões. Ao Banco Morgan foi aplicada uma multa de mais ou menos 3 bilhões, mas ninguém foi preso. Não tem problema, tudo se acerta com dinheiro. Na América Latina se arma um escândalo, prende-se alguém e pronto, está resolvido. Mas não parece que o capitalismo seja mais correto lá do que cá. Provavelmente aqui é mais descarado. Toma-se menos cuidado.
SATURNINO: O capitalismo, em seus começos, era diferente…
MUJICA: Sim, sim, era o contrário do que é hoje. O capitalismo tinha uma ética puritana, da mística do trabalho, da poupança e do esforço.
SATURNINO: E diminuiu a jornada de trabalho, que era de doze horas por dia, a seguir dez, depois oito, e parou aí. Hoje, com a produtividade multiplicada não sei por quanto, seria possível trabalhar seis horas por dia e aumentar a dedicação à política, à cultura, à família, às amizades, a ser feliz. Isso aconteceu em alguns países, na França, por exemplo. No meu país os trabalhadores da Saúde trabalham seis horas. Mas como estamos sujeitos à cultura consumista, o que fazem? Conseguem outro emprego, e, em vez de trabalhar oito horas, trabalham doze. Então a gente percebe que o problema é cultural também.
CARMEM: Vejo um conflito entre o papel do Estado e o mercado.
MUJICA:  Se o Estado fornecesse bens públicos para a grande massa da população, seria uma forma de se liberar mais horas para outros ofícios. Nesse embate mercado versus Estado, o mercado vem ganhando espaço, privatizando os serviços. Naturalmente. O Estado tem uma tendência a burocratizar-se. E isso é vantajoso para o capitalismo. O capitalismo busca a apropriação de todos os circuitos de serviços, de distribuição, de todo o resto. Nisso existe uma contradição porque, sobretudo na América Latina, creio que cometemos um erro ao vermos o Estado, permanentemente, do ponto de vista dos direitos trabalhistas do servidor público. E deixamos de ver o papel que deve cumprir o Estado como protetor de toda a sociedade vulnerável. Não nos preocupamos com a formação e a qualidade dos integrantes do Estado, nem em estabelecer maneiras de medi-las e avaliá-las. Temos sido pouco exigentes. Damos pouco valor à ferramenta Estado. Não é possível que uma pessoa comece a trabalhar no Estado e que não lhe sejam exigidos dois ou três anos de formação básica mínima para ser admitida. Por que essa exigência? Porque o trabalhador do Estado em tudo o que faz gera uma repercussão de caráter social. O Estado deveria ser integrado pelos melhores profissionais do país, e não pelos piores. Erramos feio. E temos errado. Fomos enganados no que se refere aos direitos trabalhistas. No meu país, por exemplo, até os anos 1950, os funcionários públicos não podiam fazer greve. E começamos a ceder, a conceder. E para demitir alguém do Estado o funcionário tem que ter matado a mãe, pelo menos. É horrível… Então temos dois cidadãos: o que trabalha na atividade privada, que tem que suportar qualquer coisa, e o que trabalha no Estado. Intocável. É difícil!
ROSA: Quando o sr. começou a militância política, nos anos 1960, o Uruguai tinha os olhos voltados para Cuba, e internamente para Raúl Sendic. Naquele momento a revolução parecia ao alcance da mão?
MUJICA:  Assim como toda a América Latina na década de 1960, estávamos sacudidos pelas contradições que surgiam no mundo — a guerra da Argélia, a Revolução Cubana. E nos grupos de esquerda aconteciam discussões sobre qual seria o caminho, a via. Era algo comum a toda a América Latina. Somos filhos desse tempo. Foi nesse registro que se deram nossas lutas. Acho que isso sacudiu, de uma forma ou de outra, todo o continente, e outros lugares. Essa época tinha seus códigos. O mundo era diferente, era relativamente bipolar, e alguns de nós acreditaram que a humanidade caminhava em direção ao socialismo. Apesar de nossas diferenças com a União Soviética, nós nos sentíamos muito mais perto daquele mundo, e isso parecia um processo inexorável. Nós nos equivocamos quanto à capacidade de resistência e de criação que tinha o próprio capitalismo, e tivemos que suportar os malefícios de uma estrutura que se burocratizou. Isso é o que compõe as incertezas de nossa época, não é mesmo?
ROSA: Mas a opção ter sido, não a política tradicional, e sim a luta armada, foi uma espécie de reação aos governos locais, incapazes de promover as mudanças pela política normal. Ou não?
MUJICA: A guerra é a continuação da política por outros meios. É a velha definição de Clausewitz. Não se pode separar guerra e política. A guerra é uma expressão da política: lamentável e dolorosa, mas definitivamente toda guerra tem finalidade política.
SATURNINO: Hoje muita gente argumenta que o grande capital está produzindo artificialmente guerras para diminuir a população, talvez pela metade, para que a grande finança possa continuar produzindo seus bens sem nenhuma restrição, nenhum sacrifício.
MUJICA:  É difícil saber se isso é verdade, jamais saberemos. O fato é que, mais que nunca, o objetivo da paz mundial ganha suma importância. Não duvido de que exista algo de verdade quanto a essas guerras provocadas. Acredito que a verdade é mais complexa do que a que conhecemos… O problema da paz é que não se pode pensar no futuro da humanidade, com o desenvolvimento tecnológico que existe hoje, em meio a um mundo de guerra. Porque a guerra se está fazendo de maneira impessoal. O humano não tem nenhum valor. É um mero apêndice tecnológico. Matam-se pessoas por controle remoto, isso não tem sentido. Não tem sentido! Então, acredito na luta pela paz. Mas primeiro, é necessário salvar a vida do planeta. Teremos que fazê-lo por nós mesmos, por amor à nossa espécie. E também pelas espécies que nos acompanham, porque não podemos viver na solidão, dependemos delas. E num mundo em guerra, com a força nuclear e todo o arsenal que acumulamos, não vejo como se possa ter resposta para isso. Vivemos num disparate. Porque o homem chegou a uma fronteira do conhecimento em que tem capacidade de destruir a si mesmo. As gerações anteriores não tinham essa capacidade. Mas a nossa tem como se fazer desaparecer. Isso é um perigo. Somos o maior predador que existe no planeta, e temos força de autodestruição. Não, não se trata de ser pacifista por princípios, não é um pacifismo para ingênuos! Não, não. É por conveniência intrínseca à espécie. Ao fim e ao cabo, o homo sapiens é responsável pelo desaparecimento de quatro ou cinco grupos de homos. O de Neandertal foi eliminado pelo Sapiens. Agora, é o Sapiens que pode desaparecer por causa de si mesmo.
SATURNINO: Toda a evolução científica, e até mesmo a evolução social que se conseguiu, foi à base da razão positivista, da ciência.
MUJICA: Mas há que se pensar agora em outras razões, como a razão comunicativa de Habermas, que dá à democracia um sentido da discussão, do debate franco e aberto. Nasce daí outra razão, a razão comunicativa, que não é a positivista da ciência, é mais humana. Sim, concordo. Por isso é importante a democracia como ferramenta. E, também, compreender que a democracia é uma filosofia de vida, e que carrega em si, igualmente, a necessidade de descentralizar as decisões e transferir permanentemente a capacidade de decisão. Vivemos num mundo em que as decisões estão excessivamente concentradas, o que não garante nenhuma eficiência. É o reino da burocracia. Para qualquer coisa necessitamos enfrentar uma quantidade interminável de etapas. Penso que as ferramentas que começam a aparecer são milagrosas e perigosas. Hoje um jovem anda com a universidade no bolso. E isso serve para o mal e para o bem. A humanidade tem ferramentas que nunca existiram antes. Cada homem pode ser um autodidata, se quiser. O conhecimento está ao alcance da mão. A questão é ter a sede do conhecimento e a metodologia científica para buscá-lo. Existem ferramentas que permitem pensar num mundo mais culto e mais profundo do que o que nós conhecemos. Quer dizer, há fatores imensamente positivos por um lado, mas que, por outro, vão com certeza provocar mudanças institucionais. Nossos sistemas representativos atuais já não representam ninguém. A sociedade é outra coisa. Caminhamos para um mundo de dois idiomas, onde você falará português, mas vai falar inglês, e outro falará chinês mas falará inglês também.  É necessário salvar a vida do planeta. Teremos que fazê-lo por nós mesmos, por amor à nossa espécie. E também pelas espécies que nos acompanham, porque não podemos viver na solidão, dependemos delas.  Da mesma maneira, acredito na existência de mudanças institucionais, porque aumentou imensamente a possibilidade de se sondar a opinião pública. Hoje, num mesmo lugar, pode-se pensar em mil formas de democracia, muito mais direta do que a antiga, pelo menos no nível da comunidade local. Há países que vêm praticando um sistema de consultas há muito tempo e, com as ferramentas que existem hoje, é uma questão de vontade. E vamos assistir a uma luta para se conquistar essa mudança. Eu não, pois sou muito velho, mas os mais jovens vão assistir a essa luta, que poderá resultar em cataclismos institucionais.
ROSA: Voltando um pouco ao seu passado, o sr. esteve preso muitos anos e foi submetido a condições extremamente penosas de encarceramento. Foi possível resgatar algo de positivo dessa experiência? Em que ela mudou a sua maneira de encarar a vida?
MUJICA:  Tive mais de uma década isolado, totalmente isolado. Houve um período, de sete anos, em que fui privado de livros. Foram anos muito duros, em que procurei sobreviver pensando, pensando muito. Curiosamente, acredito que, apesar de tudo, foram os anos mais fecundos de minha vida. Por quê? Porque, na falta de tudo, me dediquei a refletir, a lembrar, a rememorar coisas do passado e a construir outras, e a reexaminar. Essa vida interior foi tão forte que, com o passar do tempo, me enriqueceu muito. Fui obrigado, pelas circunstâncias, a conversar muito comigo mesmo.
ROSA: O sr. disse que “galopeó mucho hacia adentro” nesses anos de solidão.
MUJICA: Sim, com certeza, galopei… Os homens aprendem muito mais com a dor e as frustrações do que com as vitórias. As vitórias tendem a aumentar a vaidade e frequentemente nos levam à estupidez; porque o homem também é um animal vaidoso. As derrotas são perigosas se nos fazem desanimar, mas se levantamos a cabeça e recomeçamos, a derrota é um caminho de aprendizagem. O ensinamento aí é maior que na calmaria. Por isso, os únicos derrotados são os que deixam de lutar, e isso vale como filosofia geral de vida, no trabalho, nas relações pessoais e na atividade política. E também por isso tento transmitir aos jovens a ideia de que não se sintam derrotados pelas dificuldades que a vida apresenta. Às vezes, quando você anda preocupado com as coisas externas, esquece o que existe dentro de você. Mas no cárcere tudo muda. São anos e anos de solidão, sim. Mas  você está consigo mesmo. Caminha sempre com o que carrega dentro de você. A introspecção é um caminho pelo qual raramente transitamos: é o caminho de aprender a sermos juízes de nós mesmos. Porque, definitivamente, toda a aventura humana é a luta para melhorar. Dificilmente melhoraremos o exterior se não melhoramos a nós mesmos. E a luta por melhorar também é uma questão individual.
ROSA: Vamos falar do seu governo, que em tantas iniciativas foi inovador. O que mais lhe deu satisfação ter feito?
MUJICA: Para mim, algo que me deu grande satisfação foram as medidas em favor dos setores mais humildes. Os homens do campo, por exemplo, ainda não tinham regulamentadas as oito horas de trabalho. As empregadas domésticas não gozavam de reconhecimento social, não tinham sindicato e estavam praticamente fora da previdência social. Quer dizer, eram os trabalhadores mais esquecidos, embora fossem tão numerosos. Ainda na agenda social, e depois de vencer algumas resistências muito fortes, meu governo aprovou a legalização do aborto. Que existia, como em qualquer lugar, mas clandestinamente. E também o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que também existia — basta ler Homero para se perceber como é antigo… Também destaco o programa Juntos, de moradia para gente muito humilde, muito pobre.
ROSA: O sr. disse um dia que os governantes deviam pensar mais nas classes médias, o que surpreende pois em geral governantes de esquerda mostram-se mais preocupados com os pobres. O que queria dizer com isso?
MUJICA: A classe média tem muito segmentos, é muito vasta, indefinida, com vários setores. A não preocupação dos governantes com a classe média é o caminho mais seguro para conduzi-la às forças mais conservadoras. E é essa força que estimula um nacionalismo chauvinista, o qual determina, justamente, a exploração da classe média. Então, não se preocupar com a sua sorte é facilitar o trabalho de um adversário formidável que temos pela frente. São os de classe média que votaram em Donald Trump. E votaram em massa. Por quê? Porque aceitam as explicações simples. Em vez de enxergarem a concentração das riquezas das transnacionais, põem a culpa nos mexicanos,  que vão trabalhar por salários menores, não é verdade? Num país como os Estados Unidos, o operário metalúrgico de Detroit é um homem de classe média, mas o mexicano ganha cinco vezes menos que ele.
ROSA: Mas pensar nas classes médias significa também um trabalho de educação, de ideologia, de mostrar que eu não posso pensar que o mexicano vem roubar meu emprego, é uma solidariedade social. É essa a ideia?
MUJICA:   Sim. Entretanto, não é somente uma questão de solidariedade, mas de conveniência. Se não nos preocuparmos politicamente com esse setor da sociedade, nossos adversários é que vão conseguir conquistá-lo. Como fazer isso? Eu tentei ser o mais aberto possível. Meu país é um país de classe média. Típico. Com todos os níveis que tem a classe média. O Uruguai tem de 9% a 9,5% de pobres, e 0,5% de indigentes. Não deveria existir ninguém na condição de indigente, mas ainda há. A classe média fala mais alto, é este o nosso país. Por outro lado, temos as limitações próprias da classe média. Somos um país que aceita mudanças, é claro. Mas, se posso dar um conselho, não promova mudanças com muita pressa. Vá suavemente. Não vá com pressa. Suave, suave.
CARMEM: Durante o seu governo, o sr. sofreu algum tipo de pressão de multinacionais ou do setor financeiro? Algum episódio nesse padrão que o sr. tenha enfrentado?
MUJICA:  Os governos, particularmente na América Latina, sofrem uma contradição insuperável, e isso por falta de visão global entre nós mesmos. Por fraqueza política, disputamos quem vai conseguir  o maior volume de investimentos diretos estrangeiros. Queremos que venham investir capital porque necessitamos dar trabalho ao nosso povo. E, como disputamos entre nós, damos a eles melhores condições de trabalho, às vezes melhores do que aos investidores locais. Em vez de termos uma política comum, a médio prazo acabamos criando uma contradição. Cada vez aumenta mais o que temos de remeter ao exterior como amortização do capital e lucros. E como isso é um volume cada vez maior, mais facilidades temos que dar para que venham. Ou seja, trata-se de um fenômeno que alimenta a si mesmo. Isso decorre da falta de integração que temos, nós, os latino-americanos. É nossa maior fraqueza política.
SATURNINO: Nos anos recentes, pela primeira vez essa integração começou a tomar rumo, não só com o Mercosul, mas também com a criação da Unasul. E o grande capital não aceitou essa mudança e tratou de fazer política na Argentina, no Brasil, na Venezuela, para derrubar a tentativa de unificação política…
MUJICA: Claro! Pois o que acontece é que não tivemos força suficiente para aproveitar as circunstâncias, já que cada um dos governantes estava absorvido pela agenda nacional. Assim, a integração foi vista como um fenômeno importante, mas, de fato, foi muito mais declaratório do que real. Muito discurso e pouca realidade. O problema é de caráter político. Se não conseguirmos fazer com que a maioria da população entenda quais são os benefícios da integração, não teremos o apoio popular. Na realidade, a integração tem sido um fenômeno intelectual de gente preocupada com o assunto, mas não é um fenômeno de massa. Eu já vi as massas se mobilizarem para uma greve, para conseguir um direito, por um salário, por uma coisa ou outra, mas pela integração nunca vi. Nunca vi um estádio cheio de gente em torno da integração… E precisamos disso: que o homem comum perceba que sua sorte se define nesse plano. Por quê? Porque chegamos tarde, porque não temos massa crítica, porque vamos correndo atrasados. Nossos melhores talentos vão embora, perdemos no campo da inteligência, deveríamos ser um pouco mais protecionistas, mas um protecionismo em conjunto, não de um só país.
ROSA: Mas também não houve aqui  instituições supranacionais como na Europa.
MUJICA:  Não, não… não foi possível criá-las. Quisemos fazer um banco e esse projeto estava bem encaminhado. Para nós todos o dilema subsiste, porque mesmo países continentais, como o Brasil, estão atrasados em muitos setores e têm uma grande subordinação na área do conhecimento. Se vamos continuar dependendo da Bayer, da Dupont, da IBM, é inútil qualquer projeto de integração. Temos de criar uma massa crítica importante, que deve começar pela integração das universidades, dos planos de estudo e da pesquisa. A pesquisa é um banco comum a todos. Devemos utilizar nossos poucos talentos, nos melhores lugares onde são necessários. Devemos partilhar isso. E depois o comércio…. É necessário que se construa a integração comercial. O que acontece é que, desde a nossa independência, cada porto importante se comunicou com o mundo e não entre nós. Não olhávamos para o lado, olhávamos para a Europa. E não saíam só os nossos produtos, saíam a nossa cultura e o nosso conhecimento. O Brasil mandava os jovens estudar na Europa até décadas relativamente recentes. E depois, nos Estados Unidos. É brutal o preço que pagamos por esse olhar. Quase não havia relações entre nós. Havia uma relação formal. Temos mais intimidade com o futebol dos nossos vizinhos do que com suas economias… Português é uma língua que todos nós deveríamos saber. Os latino-americanos deviam ser obrigados a estudar português na escola.
ROSA: Quando se olha agora para a América Latina, dá uma tristeza! Porque todo esse sonho de integração que nasceu nos anos 1980, se fortaleceu em torno dos anos 2000, agora parece reverter. Quais foram os erros?
MUJICA: Temos que relativizar as coisas. Porque há algumas décadas havia na América Latina uma porção de ditaduras… Quanto aos erros, acho que um deles é a limitação da integração. Nós ficamos absorvidos pelas questões nacionais, pela preocupação de saber quem ganha as próximas eleições, e, evidentemente, pelo fenômeno global. E assim não demos a importância e a força que deveríamos ter dado à integração. Disso estou convencido. Por exemplo, eu queria fazer um porto de águas profundas com o Brasil e com a Argentina, porque para o sul do Brasil é melhor que a produção escoe pelo rio  da Prata, não é verdade? Mas o porto de Rio Grande não queria, o porto de Buenos Aires não queria, compreende?… Falta-nos a integração elétrica, a integração ferroviária…
SATURNINO: …e até mesmo a rodoviária, porque o Brasil não tem nenhuma ligação com o oceano Pacífico, a rodoviária é muito débil e a ferroviária, nenhuma.
MUJICA: Necessitamos disso, dessa integração material. Mas, além do mais, também precisamos nos aproximar em torno de políticas comuns: a política fiscal, a política tributária. Aproximarmo-nos, porque se mantivermos grandes diferenças, a integração se tornará impossível. E não conseguimos avançar nesse sentido. Reduzimos a integração a um negócio de intercâmbio: você me vende alguma coisa e eu te vendo outra. Não. A integração é muito mais que isso. A integração não é um negócio, não é só um fenômeno de mercado. E quando se reduz a um negócio, a tendência é que só vou ver o que ganho ou perco, e não o que temos que fazer em direção ao futuro. Fundamentalmente, acredito que as responsabilidades são diferentes, mas há países determinantes. O Brasil é determinante, assim como a relação do Brasil com a Argentina e com a Colômbia, que me parecem primordiais. Há países que pesam muito, sobretudo o Brasil e a Argentina. Embora todos os outros joguem juntos.
ROSA: O que o sr. aconselharia a um jovem que quer estudar e pesquisar a América Latina? Quais seriam as nossas prioridades?
MUJICA: O desenvolvimento científico, a fim de pesquisar nossas realidades, no campo da biologia, mas também em vários outros, é fundamental. Não conhecemos nem mesmo o que temos em nossos países. A biodiversidade que existe na América Latina e suas potencialidades! O que até agora se pesquisou foi destinado aos negócios do mundo rico. Temos que ser soberanos no que é nosso, conhecê-lo. Estamos rodeados de mistério e de possibilidades. Mas temos que conhecê-las. Outra prioridade é o mercado potencial que são os pobres da América Latina. Devemos elevar o padrão de vida dos pobres, do contrário eles continuarão sendo o nosso mercado escravo. O potencial do mercado interno que possuímos é imenso, nele devemos incluir os que não têm nenhum poder aquisitivo, e temos que trabalhar para dar a eles esse poder. Também precisamos olhar muito para a África, muito mais do que olhamos. Lula começou a fazê-lo. Lamentavelmente os governos que vieram depois se esqueceram desse olhar. Para a África, o mundo nos próximos anos vai ser cruel. Se a taxa de natalidade do continente africano continuar como a de hoje, em 2050 metade da humanidade estará na África. A miséria pode ter o tamanho da população da China. É um terror… Ou será que isso servirá para a libertação? Não sei. Não se pode estar de costas, tanto mais quando se está perto da África. E o Brasil tem muita responsabilidade nisso. É o país que tem o maior contingente de negros, depois da Nigéria. Isso pode ser uma força a favor. É necessário enfrentar o racismo também, essa força retrógrada que existe por toda parte.
ROSA: Seria esta uma agenda para a esquerda do continente?
MUJICA: Creio que a a esquerda tem que aprender a viver com sobriedade. Não pode cuidar do meio ambiente e viver uma civilização de desperdício. Não pode tomar as pílulas que nos dá o capitalismo: que você vai tirar as rugas com um creme e vai ficar linda, e os velhos perderão a barriga, porque vão usar uma bicicleta ergométrica. Esse é o mundo de mentiras que nos vendem. Para viver tem que se trabalhar, pois quem não trabalha vive à custa de alguém que trabalha. Mas a vida não é só trabalho. Temos que resgatar um velho conceito grego: nada em demasia. Não, a vida não é para que você viva trabalhando, nem para que viva sem trabalhar. Há que se garantir um tempo para a liberdade. O homem de esquerda tem que se preocupar com a liberdade, mas é preciso definir o que é a liberdade. Sou livre no momento em que gasto o tempo de minha vida no que mais gosto, sem prejudicar o outro. Quando devo estar trabalhando, para fazer frente às necessidades.  Não, a vida não é para que você viva trabalhando, nem para que viva sem trabalhar. Há que se garantir um tempo para a liberdade.  Sou livre quando gasto o tempo de minha vida com coisas que me motivam. E por que sou livre? Porque pode ser que uma pessoa goste de pescar, outra, de jogar futebol, e outros gostem de outra coisa, não sei. Isso é liberdade, é a decisão de cada um. Mas é importante ter tempo livre. Tempo livre para os afetos, que são fundamentais. Os afetos se cultivam. São como um viveiro de mudas recém-plantadas, têm que ser cuidados. Não podemos nos descuidar dos afetos, dos amigos, da família. É importante organizar o tempo da nossa vida para os afetos. Pois precisamos deles. Na nossa filosofia de vida de esquerda, não podemos ser seduzidos pelo que nos quer impor o capitalismo, a saber, que sejamos pessoas destinadas ao trabalho e ao consumo. Foi isso que nós, da esquerda, não vimos. Os soviéticos planejavam: vamos superar a produção de aço dos Estados Unidos. Isso servia para quê? Algum tempo depois tudo aquilo ruiu como pau podre, sem nem sequer um par de tiros na Praça Vermelha. E ainda tem a dimensão da solidariedade. Ela tem a ver com os afetos. A solidariedade se reflete no exercício da luta política, por meio da construção de bens públicos. Essa é a diferença entre a esquerda e a direita: a construção de bens públicos. A direita jamais vai se preocupar com os bens públicos. Mas essa é a forma que encontramos para mitigar a injustiça do capitalismo. Claro, temos que enfiar as mãos nos bolsos do capitalismo e cobrar impostos, e isso é o que ele não quer.
CARMEM: A China é um fenômeno relativamente novo no mundo, pelo crescimento e, também, porque pode ser a próxima nação líder no mundo. Já está chegando bem perto dos Estados Unidos. O que pode mudar com a ascensão da China?
MUJICA: Não sei o que pode mudar. Primeiro existem as mudanças na própria China. Por enquanto, dá a impressão de que é uma meritocracia. Não conheço nenhum país que tenha designado quem será o primeiro-ministro cinco anos antes de este tomar posse. É uma invenção chinesa. Dão cinco anos para se preparar tudo. Mas isso tem precedentes na cultura deles, em sua história. Houve dinastias que se preocupavam em recrutar os mais inteligentes para a burocracia do Estado. Na história chinesa se notam muitos aspectos da meritocracia. Tenho a impressão de que a China que está se construindo não é nem comunista, nem capitalista, é meritocrática. Mas para onde vai, também é um mistério para nós.
ROSA: Cadernos do Desenvolvimento, como seu nome indica, preocupa-se com o tema do desenvolvimento em todas as suas acepções. A seu ver, o que é desenvolvimento?
SATURNINO: Deixe-me acrescentar que o Centro Celso Furtado realiza todos os anos um debate, um seminário, sobre o que é o desenvolvimento, em que dimensões devemos pensá-lo e que tipo de desenvolvimento queremos. Gostaríamos de escutar sua opinião.
MUJICA: Acredito que a ideia de desenvolvimento que temos no horizonte muda, naturalmente, com o passar do tempo. Na década de 1960, muitos de nós achávamos que a luta pelo desenvolvimento era o caminho capaz de encurtar a enorme diferença entre o nosso mundo e o mundo industrializado, o mundo central. Eram os tempos em que a industrialização parecia a preocupação primordial, indiscutível, com todas as suas derivações. Ainda não podíamos entender que, na realidade, industrializar era gerar A solidariedade se reflete no exercício da luta política, por meio da construção de bens públicos. Essa é a diferença entre a esquerda e a direita: a construção de bens públicos. A direita jamais vai se preocupar com os bens públicos.   E o conceito de industrialização, em muitas de nossas cabeças, era um país cheio de chaminés. Bastante ingênua nossa maneira de enxergar. Com o passar do tempo, fica cada vez mais claro que industrializar é aprofundar a produtividade do valor que pode gerar cada jornada de trabalho, incrementando a tecnologia e a capacidade das pessoas. Mas o desenvolvimento não é somente um fenômeno quantitativo, do ponto de vista econômico, ou só o desenvolvimento tecnológico. Acredito que o desenvolvimento hoje não pode se distanciar de um marco para que os seres humanos tenham uma vida mais amena, mais suportável. Pode ser que Deus exista, mas, na realidade, nós matamos as religiões. Vivemos num mundo laico, ainda se dissermos que somos crentes ou religiosos. Eu não sou. Portanto, não há expectativas para o depois, e se não temos a expectativa do depois, a expectativa é a daqui, a do agora. Temos de tentar ser mais felizes nesta terra, nesta vida que se vai. Isto não é um vale de lágrimas, onde devo me comportar para ter como prêmio outra vida. Não, não. Isso não dá mais. Então, o desenvolvimento tem que ser uma moldura para que as pessoas vivam mais felizes. E para viver feliz, como disse antes, o homem precisa ter capacidade de trabalhar e suprir suas necessidades materiais, mas também deve ter tempo para cultivar os afetos, as relações sociais. Transformar o homem em uma máquina de produção e de trabalho, isso é o capitalismo, que busca o lucro. Há que existir uma diferença civilizatória, porque do jeito que vamos, com a velocidade em que vai o capitalismo, e para onde vai, vamos desaparecer do planeta. Não se pode ser ecologista, querer cuidar do meio ambiente e viver essa civilização do desperdício, que cada vez produz mais lixo. Não pode ser. A vida pode ser vivida com mais simplicidade, com mais sobriedade, consumir e gastar menos energia, e se pode viver mais feliz também. Quem disse que é preciso construir essas Macrocidades? Quando vou a São Paulo, vejo aquela pobre gente, três horas para ir ao trabalho e três horas para voltar.  Os maias já faziam controle territorial. As cidades deviam ter uma medida certa e tinham que estar a dez dias de distância uma da outra. Nós deixamos crescer as cidades por causa do fenômeno imobiliário, da propriedade imobiliária. Começa a crescer um monstro! E depois, como não há tempo, tem que se esburacar por baixo e por cima, e os carros não têm onde estacionar… Coisa de doido. Seria melhor construir um monte de cidades menores ao lado de uma ferrovia, e pronto. E você ir trabalhar caminhando ou de bicicleta. É uma loucura o que se está fazendo. Cada vez é mais complicado, mais difícil. Estive em Tóquio. Três milhões de pessoas passam diariamente por uma estação de trem. Não! A esquerda tem que pensar no tamanho das cidades, na urbanização. Pensar na casa, criar uma arquitetura diferente, um urbanismo diferente, uma cultura diferente, funcional para a felicidade humana e não para o negócio. Porque quem está reinando é a propriedade imobiliária. Como os terrenos valem cada vez mais, é necessário construir para o alto, e começamos a fazer uma coisa gigantesca, e depois se deve levar água lá para cima. E se acabar a energia?
HÉLVIO RECH: O sr. esteve muito envolvido com o processo de paz da Colômbia. Como foi essa experiência e por que é tão importante as FARC adotarem essa nova forma de ver?
MUJICA:  Eu vejo que é uma iniciativa importante porque a sociedade colombiana está doente de guerra. E habituou-se a resolver todos os seus problemas pela via da violência. Pagou um preço muito alto. A Colômbia tem 21 milhões de operários. E praticamente não existe previdência social. O país possui extensas regiões aonde o Estado não chega de jeito nenhum. Esses são os preços costumeiros que se pagam num processo tão longo de guerra. Além do mais, a violência está presente no bojo da sociedade. Os conflitos sindicais se resolvem a tiros. Os litígios trabalhistas no campo se resolvem a tiros. Criou-se um primitivismo civilizatório que não é próprio dos tempos modernos e que, sobretudo, enche de ódio a sociedade. Depois de cinquenta anos vivendo esse processo, a própria geografia da Colômbia é tão endiabrada que pode haver guerra por mais cinquenta anos. E, definitivamente, com a guerra ninguém alcança o poder, nem o poder consegue levar a civilização a todo o país. Com a guerra no horizonte, não pode haver nenhum ideal de vida. Mas, além disso, como latino-americano, digo que a presença larvar da guerra é de grande utilidade para que venha gente de fora se meter na América. Uma situação cruenta na América Latina pode acabar dando argumentos para intervenção externa. Por isso acredito que temos de nos acostumar a resolver nossos problemas entre nós. Diplomaticamente, ir negociando, e a pior negociação é melhor que uma intervenção externa. Não é só o fenômeno das FARC, é algo muito mais global. É o fenômeno do narcotráfico, e é também uma resposta necessária aos camponeses, pois o cultivo de coca na Colômbia é uma necessidade econômica do camponês. Como ele vive em região afastada, não consegue vender o que produz. Se produz coca, aparece uma motocicleta, leva três sacos e lhe pagam à vista. O homem cultiva coca porque é uma maneira de sobreviver. A resposta ao camponês deve ter um caráter econômico, para que ele possa viver de outra maneira.
SATURNINO: O sr. argumenta que a integração sul-americana é mais provável de acontecer se Brasil e Argentina se integram, se unem politicamente. Mas Brasil e Argentina têm uma história de conflitos e disputas e, nesse sentido, o Uruguai tem um papel fundamental e decisivo na integração entre Brasil e Argentina.
MUJICA: Não só geograficamente, mas política e moralmente o Uruguai tem uma relação de respeito com as duas partes. O papel que o Uruguai tem que jogar é o de ponte… Uma ponte construtiva, evidentemente. É um ponto muito importante. Precisamos aproximar mais as nossas universidades. Se não integrarmos a inteligência, nunca vamos integrar os povos. O primeiro elemento que deve ser integrado é a inteligência. A primeira batalha política deve ser logo travada, a partir do mundo universitário. Porque os homens vão atrás das ideias, como o carro atrás dos bois.
SATURNINO: A última palavra que gostaríamos de escutar do sr. é sobre o Lula.
MUJICA:  Eu sei que, para uma parte importante do povo brasileiro, Lula é a esperança, e por isso mesmo os setores mais reacionários procuram a eliminação jurídica de Lula, de sua possibilidade eleitoral. Esse é o dilema. Daqui a pouco tempo vou estar com ele, teremos um compromisso na fronteira entre Brasil e Uruguai. Lula, para mim, é um homem muito importante. É um capital do povo brasileiro. Aliás, de toda a América Latina. Os governos dele deram uma presença internacional ao Brasil, que antes o país não tinha. E penso que o que ele vier a fazer e o que vier a plantar são muito importantes. Se Lula não puder ser candidato, é preciso tomar a decisão de apoiar quem for indicado por ele. No momento do perigo, é bom lembrar o que faziam os romanos: nomeavam uma pessoa e lhe davam todo o poder. Porque, se começarmos a parlamentar no momento do perigo, nos atomizamos.

Brasil do 1% mais rico, popr Marcus Ianoni.

Brasil do 1% mais rico

Segundo informações recentes do Banco de Dados de Riqueza e Renda Mundial, produzido por uma equipe de pesquisa liderada pelo economista francês Thomas Piketty, o Brasil é o país onde o 1% mais rico da população (cerca de 2,1 milhões de pessoas) detém a maior fatia proporcional de renda no mundo (wid.world/country/brazil). No caso brasileiro, os dados desse seguimento referem-se apenas ao período de 2001 a 2015. Nesse último ano, o 1% detinha 27,8% da renda nacional (antes dos impostos). Mais que qualquer outra nação, o Brasil é o país do 1%.
Considerando os 10% mais ricos, esse grupo concentrava, ainda em 2015, a bagatela de 53,4%; os 40% abaixo do topo, 32,4%; por fim, os 50% restantes, apenas 12,3%. No relatório mais recente, referente a 2016, Oriente Médio (61%), Brasil (55%), Índia (55%) e África Subsaariana (54%) são áreas avaliadas pela referida equipe como possuindo desigualdade de renda de nível extremamente alto, medida pelo que abocanha o Top 10%. Isso, imagino, seja um tanto quanto intuitivo, não estranho ao leitor. A região menos desigual do planeta é a Europa, onde os 10% mais ricos compartilham 37% da renda produzida.
Recentemente, o IBGE divulgou a “Síntese dos Indicadores Sociais 2017” (bit.ly/2oFgIKP), apoiada na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Segundo esse trabalho, em 2016 o Brasil tinha 52,2 milhões (¼ das pessoas) abaixo da linha de pobreza (renda per capita mensal de até R$ 387,07). Desse total, 13,35 milhões (6,5% da população) vivem em situação de pobreza extrema (com renda per capita mensal de até R$ 133,72). A pobreza varia conforme a região, a raça e o gênero, impactando mais no Nordeste, entre os pretos e mulatos e nas famílias com filhos de até 14 anos, mantidas pelas mães.
De acordo com a “Síntese dos Indicadores Sociais 2016”, entre 2006 e 2014, os residentes em domicílio com rendimento per capital mensal de até ¼ do salário mínimo vinham caindo ano a ano, com exceção de 2009 (crise internacional, recessão). Em 2006, essas pessoas eram 12,4% da população, em 2014, 7,9%, embora em 2015 tenham passado para 9,2% (recessão de meados de 2014, encerrada no ano corrente). Por outro lado, segundo o banco de dados de Piketty, a renda média nacional cresceu regularmente de 2003 a 2013, exceto em 2009. Desde 2014, ingressou em ciclo de queda.
Há controvérsia entre os especialistas sobre a desigualdade no Brasil, tema-chave, histórico e estrutural da realidade nacional. Dois pontos importantes do debate desse ano foram sobre o tamanho da desigualdade no Brasil e sobre o quanto ela caiu nos governos de Lula e Dilma. Pesquisadores próximos da metodologia de Piketty (usando dados da Pnad, de Imposto de Renda e estatísticas de cálculo do PIB), como o irlandês Marc Morgan Milá, consideram que o tamanho da desigualdade é maior do que se imaginava e que sua queda recente, apesar dele a confirmar, não teria sido tão acentuada.
Ao que tudo indica, a desigualdade tem aumentado, devido à crise econômica (a recuperação da atividade ainda é tímida) e ao elevado desemprego. Em março desse ano, o FGV Social, dirigido por Marcelo Neri (ex-presidente do Ipea), indicou que, pela primeira vez desde 1994, o índice de Gini da renda domiciliar per capita subiu em 2016, significando aumento da desigualdade de renda, que retornou ao nível de 2014, ao invés de prosseguir na trajetória de queda. Esse índice vinha caindo de modo relativamente mais significativo entre 2001 e 2015, principalmente em função da melhoria da renda salarial, mas também devido às políticas de transferência de renda.
Nos EUA, há nítida tendência de concentração tanto de renda quanto de riqueza de 1980 até hoje. No mundo como um todo, de 1980 a 2016, há uma clara dupla tendência: a ascensão da renda do 1% mais rico (de 16% para 22%) e a estagnação da metade (50%) inferior (de 8% para 10%). Ou seja, a era das políticas neoliberais, que promoveram a globalização, sob hegemonia das finanças desreguladas, é concentradora de renda no topo da pirâmide social.
A crise econômica e a retomada da perspectiva ideológica do Estado mínimo nas decisões governamentais colocam tudo a perder. O teto já está desabando sobre a cabeça de milhões de brasileiros, especialmente a dos pobres, ¼ da população. Milá alerta em relação a essa tendência, decorrente da austeridade fiscal extremada. A opção política de superação da crise, adotada pelo governo Temer, não questiona a estrutura tributária regressiva, que penaliza o consumo, e não a renda e a riqueza. É uma política fiscal centrada no corte de gastos, que, ao mesmo tempo, é pró-cíclica, ao debilitar a geração de receitas. A agenda pública que Meirelles enfatiza é a agenda da despesa. A discussão da receita é desprezada, remetida à confiança dos mercados, supostamente salvadora da lavoura desprovida de investimentos.
O debate da justiça social está ausente, a não ser como farsa, enfiado em uma retórica puramente confusionista de que a proposta de reforma da Previdência formulada pelo governo combateria os privilégios. Nem a base governista acredita nisso, tanto que a votação dela, altamente impopular, foi adiada para fevereiro. A agenda pública é a do Brasil do 1% mais rico. A exclusão política de Lula das eleições de 2018 é peça-chave para esse Velho Brasil da plutocracia, resgatado com a deposição de Dilma, pois foi nas presidências petistas que alguma coisa aconteceu em termos de enfrentamento das inúmeras desigualdades. Como disse o Washington Post, o Brasil aprovou, há um ano, a mãe de todos os planos de austeridade, a emenda do teto de gastos públicos, que ora desaba sobre a cabeça dos humildes. Neoliberalismo e democracia estão cada vez mais incompatíveis, no mundo todo, mas ainda mais aqui que alhures. Feliz Natal!
* Marcus Ianoni é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do INCT-PPED, realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia

2018 e o Quarto Turno de 2014 que não vai terminar, por Bruno Lima Rocha.




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2018 e o quarto turno de 2014 que não vai terminar
por Bruno Lima Rocha
É tarefa difícil projetar o ano de 2018, sendo que o corrente ano não terminou e ainda pelo fato de vivermos o prolongamento do terceiro turno das eleições presidenciais de 2014. Mas, como o tema eleitoral está judicializado (a começar pelo julgamento do ex-presidente Lula, marcada a segunda instância no TRF-4 em 24 de janeiro) e as possibilidades das urnas através da democracia indireta dependem de manobras do Supremo (caso, por exemplo, o ex-presidente hipoteticamente condenado venha a recorrer, dentre outras variáveis); acórdãos de última hora (através de um xeque mate do semiparlamentarismo, não de fato, mas na forma da “lei”); legislação em causa própria das regras eleitorais pelo Congresso (como o autofinanciamento sem limite ou a permissividade de participação de empresas estrangeiras na campanha cibernética); cabe antever aquilo que já está observável. Parece lugar comum, mas o fato é que o Brasil está vivendo um trauma difícil de cicatrizar.
Em abril de 2016 a presidenta reeleita Dilma Rousseff foi afastada do cargo pela Câmara, consumando o impeachment no Senado em agosto, sendo que dificilmente a cidadania brasileira saberá explicar a razão da perda do mandato. As tais “pedaladas” são uma “piada” grosseira, e a justificativa legal é uma lei de 1950, jamais inteiramente respeitada, e escrita às pressas para colocar um freio no governo Vargas que iniciaria em 1951, terminando com seu suicídio em 24 de agosto de 1954. Como não há causa jurídica, o resultado foi fruto do golpe parlamentar, com os legisladores julgando o “conjunto da obra”.  Ou seja, uma manobra típica do parlamentarismo.
Em termos de conformação de classe, o “golpe jurídico-midiático-parlamentar” resulta tanto na quebra de uma aliança de classes espelhada pelo lulismo, como a ascensão – fragmentada, é verdade – de uma tecnocracia de Estado com ares de estamento e nítida acumulação de poderes. Se entre 1935 e 1964, com alguns intervalos, as Forças Armadas operaram como um recurso de tipo Poder Moderador, agora o fator interveniente não veste farda, mas toga. Refiro-me aos cerca de 17 mil juízes, 13 mil procuradores e órgãos correcionais ou fiscalizadores, como os delegados da Polícia Federal e auditores da Receita, dentre outros.
O esvaziamento do Poder Executivo, que pela tradição brasileira é o reflexo de um voto que tende a ser plebiscitário, é acompanhado da incapacidade de exercício de governo. Porque, além dos dois poderes acima mencionados – o Parlamento com evidente representação de classe dominante e o Estamento Togado, com ascensão e poder de veto ou moderador – ainda temos no controle central da economia aos financistas ou seus representantes, especialmente dentro do na prática “independente” Banco Central (BC). Com o uso e abuso da taxa básica de juros (Selic), o tripé macroeconômico (e sujeito aos ataques especulativos do valor do dólar) e a DRU (Desvinculação de Receitas da União) que dispõe de 30% do orçamento federal para a equipe econômica (ministérios da Fazenda, Planejamento, além do BC), já é quase impossível governar de acordo com o programa escolhido nas urnas.
Vale observar que “os analistas econômicos” – aqueles que operam no “mercado de notícias sobre o tal do mercado” – insistem que a baixa da Selic é reflexo do “ajuste e dever de casa”, sendo possível sua elevação para o meio da corrida eleitoral de 2018; vindo a agravar-se no primeiro trimestre de 2019. Enfim, uma explícita chantagem midiatizada, onde os mercadores de “notícias plantadas” vociferam o fontismo empresarial e especialmente especulativo, condicionam o último suspiro democrático na democracia liberal periférica e capitalista brasileira – a soberania popular manipulada nas campanhas eleitorais – às vontades dos donos da banca, literalmente.
Infelizmente as restritas condições institucionais existentes no pacto de classes do lulismo se agravaram após o golpe. Em 2016, o governo ilegítimo de Temer (atado por um fiapo de legalidade, ou de legalidade questionável) conseguiu aprovar no Congresso a PEC 55/241, ou o Novo Regime Fiscal – do teto dos gastos, conhecida também como a PEC do Fim do Mundo. Esta Emenda na Constituição simplesmente colide com cláusulas pétreas de orçamento vinculado, mas o STF nada fez – como quase nada faz quando é para garantir direitos ou distribuir renda. Mesmo que ocorra a vitória de uma candidatura de centro-esquerda ou de esquerda, a capacidade de governar dependerá diretamente da mobilização social em defesa dos direitos adquiridos e retirados de forma ilegítima.
A única condição de exercício de governo que não a continuidade do período de Temer e do desmonte seria um pacote revogatório das medidas privatizantes tomadas desde abril de 2016. Podemos reconhecer que boa parte da agenda regressiva já estava pautada no segundo governo de Dilma, mas o golpe liberou os demônios, escancarando a tampa do esgoto oligárquico e entreguista. Não há muita alternativa, para conter o “processo de mexicanização”, com retirada de direitos e aumento da presença tanto de capital transnacional no investimento e infraestrutura como o aumento do espaço dos financistas nas decisões centrais do aparelho de Estado, só revertendo legalmente o que foi feito na forma de uma “ditadura de classe” através do “semi-presidencialismo de coalizão”. Ou seja, não há mais espaço para um pacto de classes. Ganhe quem ganhe em 2018, ainda será o 4º turno de 2014. 
Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais (www.estrategiaeanalise.com.br para textos e áudios / www.estrategiaeanaliseblog.com para vídeos e entrevistas / blimarocha@gmail.com para E-mail e Facebook) 

A derrota estratégica do complexo jurídico-midiático, por Ion de Andrade.

Preparando-se para condenar e talvez prender Lula, o complexo jurídico-midiático estará selando uma derrota estratégica que se repercutirá nos anos futuros de forma ainda mais retumbante do que o Peronismo para os argentinos ou o Gaullismo para os franceses.
A inviabilização de Lula é a inauguração e não pós mortem, como costuma ser o caso pela perda do grande líder, do Lulismo; um inesgotável e vitorioso movimento que ecoará através dos tempos.
Mas por que se trata de uma derrota acachapante para o esquema que pretendia sepultar a esquerda brasileira? Porque o objetivo estratégico não era e nunca foi o de arruinar o Lula pessoa física e de cassar o seu CPF, mas o de não deixar pedra sobre pedra sobre o Lula líder, de enxovalhar o seu legado, a sua honra e a dos seus. Esse objetivo estratégico pelo qual a grande mídia se empenhou por vários anos JAMAIS será alcançado. O que pode a Globo agora que os seus feitiços já não funcionam mais? Implorar e de joelhos num editorial que Lula seja preso. E o que há de novo nisso? A derrota de ter que explicitar o que quer de forma direta, demonstrando que as suas forças se esvaíram.
De fato o esforço midiático de arruinar Lula produziu o contrário, agigantou perante a injustiça das ruas o líder perseguido. Confrontado como diz Luis Nassif à verdadeira bacanal em que se converteu o exercício do Poder no Brasil, o povo constata com clareza de que lado está a razão. E não há volta.
Ora, a lógica da exclusão de Lula das eleições de 2018 acentua o problema e mina irreversivelmente a idoneidade, já corroída, dos seus algozes e do golpe. A explicitação ostensiva da injustiça por um Judiciário que deveria zelar pela justiça, é a derrota estratégica da direita brasileira da qual esse Judiciário se tornou a última esperança. Há aí um ponto final da viabilidade política do golpe no curto prazo e do projeto do conjunto da direita no longo prazo. Não podemos prever quando o fruto podre cairá no chão, mas já se constata que podre está e não subsistirá ao tempo. Imaginemos o que será a votação da Reforma da Previdência com Lula condenado! Ou a que destino está reservado a candidatura Alckmin...
Pior para os golpistas, a antecipação recorde do julgamento para o dia 24 de janeiro, dia por dia, o aniversário de um ano do acidente vascular cerebral de Dona Marisa, o uso na UFMG pela PF de verso da música O Bêbado e o Equilibrista, utilizada como tema nas despedidas do Reitor Cancellier, para batizar a operação e as conduções coercitivas repetidas e impunes, apesar de flagrantemente ilegais, rompem com a tradição do humanismo cristão do país e vão tingindo o conjunto da estratégia golpista de um escárnio tão repugnante que não encontra paralelo na nossa cultura senão no que se entende por satanismo.
Projetemo-nos em 2018 quando os efeitos do arrocho orçamentário estarão nas ruas transfigurados em miséria das maiorias e em dificuldades materiais imprevisíveis para as classes médias e quando teremos um Lula (a pessoa física, mas não o líder) assediado e possivelmente preso por forças que se posicionaram no lado tenebroso da força.
Há quem fale em necessidade de insurreição. Mas o Brasil nunca foi um país de insurreições e isso não ocorrerá. Talvez se fiem nessa verdade histórica achando que porque não haverá insurreição não haverá nada. Trabalham na superestrutura política, com vilipêndio, sem perceber que a modelagem última das instituições é a vontade coletiva das maiorias e que, cedo ou tarde, essa irrompe como um novo ordenamento, como ocorreu na ditadura.
Mas a corrosão e a podridão estão vomitadas na rua. E nada mais há que possa ser feito para limpá-la. E o julgamento de Lula está agendado para o dia 24 de janeiro em homenagem a Dona Marisa, um imperdoável escárnio.
À nossa revelia vamos sendo tangidos para a luta mitológica que refundará o Brasil.
No dia 24 de janeiro, condenado e humilhado, tratado com a crueldade inenarrável de um julgamento em data de sofrimento pessoal maior, Lula fundará, no meio do povo gaúcho, terra de Getúlio, e em vida o Lulismo!
Dará frutos cem por um!

A Embraer, os vira-latas e o chicote do inglês, por André Araújo.

O Império Britânico governou uma quarta parte das terras deste planeta. O Império não precisava de muita tropa para manter os controles sobre tão vastos territórios.
Na maior das colônias o “Raj”, que incluía o que é hoje a Índia, o Paquistão e Bangladesh, menos de 10 mil ingleses bastavam. Qual o segredo?
Os ingleses eram inteligentes e terceirizavam os capatazes de suas terras, os próprios indianos serviam ao Império Britânico como soldados, selecionavam tribos guerreiras como os Sikhss e os Gurkas  que em nome do Soberano em Londres usavam o chicote sobre os outros indianos.
No Brasil de hoje há tropas disponíveis para servir de guarda ao interesse dos herdeiros dos ingleses e seus sucessores imperiais, os americanos que encantam os brasileiros.
A proposta de compra da EMBRAER pela Boeing trouxe a luz do dia essa tropa vira lata que serve aos interesses estrangeiros no Brasil com o maior prazer. Na GLOBONEWS Sardenberg e Teco, codinome de Luís Gustavo Medina, comentaristas econômicos da linha “tudo pelo mercado”, habituais porta vozes do pensamento neoliberal que vem da Casa das Garças,  soltaram rojões de alegria com a hipótese da BOEING comprar a EMBRAER. Disseram que o Brasil deveria  se sentir lisonjeado pela BOEING voltar seus olhos para o Brasil, “ é uma prova de confiança no Pais”, disseram sôfregos de alegria, “olha como gostam de nós”.
Disseram que agora a EMBRAER vai poder vender muito mais aviões para o exterior pelas mãos da BOEING. Demonstraram ai o ápice do desconhecimento. Muitos países compram aviões da EMBRAER exatamente porque ela é brasileira e NÃO comprariam se ela fosse americana.  Os aviões Tucanos de treinamento militar são comprados por países que não comprariam  esse tipo de equipamento se o fornecedor for americano. Os fabricantes americanos NÃO transferem tecnologia, não abrem os códigos fonte da eletrônica embarcada, não fornecem todos os desenhos, eles querem deixar o comprador AMARRADO aos controles tecnológicos e dependentes eternamente do fornecedor, é tradicional politica dos EUA.
Sardenberg e Teco não tem a menor ideia do que significa uma grande multinacional comprar uma empresa de pais emergente. Tive essa experiência em 1974, quando uma empresa de bens de capital da família foi vendida a um dos maiores conglomerados americanos da área, uma empresa cem vezes maior do que a nossa quando foi comprada.
Em seis meses a empresa estava COMPLETAMENTE mudada, da cabeça aos pés, mudaram os processos de controle, de orçamento, de relações trabalhistas, quem quisesse ficar precisava assumir a CULTURA da empresa matriz, completamente diferente da empresa nacional.
É isso o que significa uma compra da EMBRAER pela BOEING, aqui vai ser uma divisão da empresa mãe, pode até desaparecer, como a nossa vendida em 1974 desapareceu em 1985.
A BOEING comprou nos últimos anos SETE grandes empresas aeronáuticas: De Havilland Australia, Hugues Aircraft, McDonnel Douglas, North American Aviation, Piasecki Helicopter, RocketDyne e Stearman Aircraft. Todas desapareceram, foram absorvidas pela Boeing, não existem mais como empresas, é o sistema BOEING de fusões e aquisições.
Há pouco tempo a EMBRAER foi acusada de corrupção na Republica Dominicana e foi processada pelo Departamento de Justiça, a EMBRAER acabou fechando acordo por US$180 milhões de multa paga por esse processo, que nada tinha a ver com os EUA, mas lá eles acham que tem jurisdição sobre o mundo, esse processo começou no Brasil e foi parar nos EUA.
Por conta desse acordo a EMBRAER teve que aceitar ser monitorada por dois fiscais do governo americano, os fiscais ficam dentro de seus escritórios no Brasil.
A postura de Sardenberg,Teco e outros do mesmo naipe é de COMPLEXO DE INFERIORIDADE.
Somos tão ruins que é melhor um estrangeiro nos comprar, aliás é uma HONRA o estrangeiro se interessar por nós, como deixaram claro Sardenberg e Teco, felizes pelo aceno da Boeing.
Foi o orgulho nacional profundo que fez a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Rússia serem potencias industriais. Orgulho de seus produtos que representam o nível civilizatório do País. A Embraer é uma criação nossa, tecnologia nossa, é uma derivação da FORÇA AEREA BRASILEIRA. Vende-la não é apenas um negocio financeiro, como acham Sardenberg e Teco, é  abrir mão de um sucesso bem brasileiro, saído de cérebros brasileiros.
Mas lamentavelmente muitos brasileiros são assim, ACHAM o Brasil um lixo. Em alguns points dos Jardins em São Paulo (posso listar) vê-se pais brasileiríssimos falando em inglês com seus filhos pequenos, acham isso lindo, querem ser estrangeiros em seu próprio Pais, que desprezam, acham que tudo é lindo nos EUA, sem ver as mazelas desse País.
 É fácil dominar um país vira lata, como já sabiam os ingleses.

O mal da conciliação e o pacto progressista, por Aldo Fornazieri.

As elites brasileiras, em suas diferentes facções, usam dois métodos prioritários para operar o poder: a conciliação e o golpe. Oscilam de um ao outro segundo as circunstâncias e conforme as necessidades de fazer valer os seus interesses. Os dois métodos funcionam também como forma de cobertura ideológica para manter um véu sobre a natureza e as consequências de seu modo de agir: manter o controle sobre um Estado particularista, usando-o de forma alargada como instrumento de concentração de capital, de renda e de riqueza e como perpetuação do estatuto da desigualdade social e econômica, exclusão de direitos, sonegação da  educação, da saúde e da cultura para o povo. O uso de instrumentos fiscais regressivos, subsídios, incentivos, sonegação e corrupção são as armas usadas para bloquear um Estado universalizante, mantendo-o preso aos ditames particularistas dos grupos de assalto aos Orçamentos públicos.
Os dois métodos - conciliação e golpe - não são usados apenas nas relações com a oposição, mas também nas relações intra grupos de elites e no interior dos próprios partidos. Veja-se o que aconteceu no PSDB, nesta última convenção: acobertou-se uma profunda crise interna em nome da unidade. Uma falsa unidade, pois as divergências não se explicitaram até as últimas consequências, na forma de embates, disputas, formulações de teses e programas produzindo daí uma unidade superior, verdadeira. Esse método representa a morte do espírito e de todo o conteúdo e a manutenção de uma forma caiada.
A conciliação se expressa como apaziguamento, como uma acomodação de interesses, que por não se explicitarem de forma programática, se tornam escusos. Até mesmo os partidos de esquerda têm enveredado por caminhos da conciliação interna, matando aos poucos o espírito vivo dos partidos. E se são menos propensos a golpes internos, são muito afoitos nas divisões sectárias e nas exclusões.
Assim, as acomodações evitam prévias, evitam o aprofundamento do debate, evitam a crítica e a autocrítica e terminam por sufocar a própria democracia como prática constituinte da política e dos programas de partidos e governos. Os acordos de cúpula terminam por prevalecer, sem que as bases e as massas tenham clara compreensão do seu significado. Este é um dos fatores que vem minando a credibilidade dos partidos e dos políticos, alastrando a crise de legitimidade.
Quando essa crise foge do controle dos partidos, ela produz fenômenos extemporâneos ou inoportunos a exemplo de Collor de Mello, Dória, Bolsonaro ou Trump. Esses forasteiros aparecem sempre com uma face anti-sistêmica, dado que uma parcela da sociedade os acolhe por não se reconhecer mais na direita e na esquerda que operam em determinado sistema. Tendem a ser fenômenos passageiros, é verdade, mas provocam uma série de anomalias e, quase sempre, agravam a crise de funcionamento da democracia e das instituições.
Na sua essência, a conciliação enquanto método, é uma forma antidemocrática do agir político. Os acordos que ela produz, por serem acomodações e falsos apaziguamentos, nunca são públicos e se traduzem em troca de favores, no fisiologismo, num conluio onde todos se tornam cúmplices e prisioneiros de todos. Frequentemente, as conciliações criam uma solidariedade criminosa entre as partes.
Um dos fundamentos da democracia consiste em que ela é conflito, enfrentamento oratório público de ideias e propostas, pois é através desse debate e desse enfrentamento que se pressupõe, surjam, racionalmente, as boas leis, as boas normas e a boa educação, como já notara Maquiavel ao referir-se à construção da grandeza da República de Roma. No Brasil, ao mesmo tempo em que se desvaloriza o conflito político se valoriza o conflito do Estado contra os pobres e o conflito interpessoal, fator que nos transformou no país onde mais ocorrem mortes violentas no mundo, superando os países em guerra.
Por um pacto progressista
É sabido e aceito de forma generalizada a tese de que as esquerdas vivem a síndrome de Caim e Abel. Mesmo sendo subpartidos ou subgrupos de um mesmo partido, de uma mesma matriz e até de um mesmo ideário, preferem a derrota e a morte um dos outro do que a unidade. Mas nem tudo é terra arrasada. Seja porque alguns agrupamentos aprenderam as lições da história ou seja porque se faz uma leitura correta do atual momento histórico, o fato é que, em alguns países, as esquerdas e os progressistas conseguem se unir e ter êxito nos governos. Destaque-se o Uruguai, Portugal, Grécia, governos de províncias e comunidades autônomas no interior da Espanha.
O que há de comum nas democracias em todos os continentes é que elas estão capturadas pelo capital que usa os instrumentos estatais para operar políticas de regressão de direitos, de aumento das desigualdades e de concentração da riqueza. Nos países pobres, como o Brasil, esses males das democracias sequestradas se agravam, pois são herdeiros de injustiças, exclusões e opressões centenárias, nunca tendo alcançado o estatuto de um Estado de bem estar social.
Neste momento em que, no Brasil, as elites operam o poder pelo modo do golpe, a violência destrutiva de direitos e a sanha concentradora de riqueza se manifestam de forma mais cruenta, semeando a descrença, a desesperança e o medo quanto ao futuro. Para uma imensa parte da população brasileira, o medo de uma vida sem dignidade, de uma vida de sacrifícios e de privações se tornou uma certeza. As aflições com o alimento, com a moradia, com o vestir, com o emprego e com as necessidades básicas se tornaram um tormento permanente, que bloqueia os sonhos, a alegria de viver, a felicidade familiar. Não há como ter esperanças.
Barrar esta fúria destruidora de direitos, de esperanças e de futuro não é apenas uma questão de leitura da conjuntura, mas uma demanda ética, um dever moral. Claro que será preciso propor um programa que vá além disso, que distribua o poder, a riqueza e as oportunidades e que garanta direitos. Construir uma força unitária e potente para barrar essa destruição é a tarefa que se impõe para todos aqueles que se intitulam democratas, progressistas, socialistas e de esquerda. Se quisermos ser responsáveis, precisamos dimensionar bem os fins, não só possíveis, mas necessários neste momento. Precisamos promover um acordo entre meios e fins.
Multiplicar candidaturas do campo democrático é progressista, como vem se indicando, não é um bom caminho. Fazer um acordo, um pacto, que tenha por base uma negociação, na qual fiquem explícitos os pontos de convergência e as divergências, é algo bem diferente do que uma conciliação. Trata-se de fazer um pacto do possível, sendo que um dos principais objetivos consiste em barrar esse processo de destruição de direitos e da democracia. Num pacto programático, todos precisam abrir mão de determinados objetivos, de determinados interesses. Cabe às maiores forças fazer as maiores concessões. E se um eventual governo progressista precisar buscar apoios ao centro para governar, há que se produzir um acordo em torno de pontos programáticos e não uma conciliação que dilui a fisionomia de qualquer governo.
As forças democráticas e progressistas estão cometendo dois erros graves neste momento: 1) pressupor que é o memento de maximizar alternativas com candidaturas próprias e com programas ideais; 2) supor que as eleições serão facilmente vencidas por Lula por falta de candidato competitivo dos setores conservadores. O cenário das eleições ainda não está constituído. Poderosas forças se mobilizarão para impedir a vitória de Lula.
Por outro lado, todas as proclamações grandiloquentes dos líderes políticos e sindicais das esquerdas fracassaram. Aconteceu tudo o que se disse que não aconteceria. Não se viram trincheiras, nem exércitos e nem grandes paralisações, capazes de bloquear reformas nefastas. Parece ser necessário aterrissar e lidar com o senso de realidade. O ufanismo e o triunfalismo são os alimentos da indolência e da irresponsabilidade, coveiros das vitórias.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).